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Ocratoxina em Café Contaminado: Bases Científicas, Impactos Regulatórios e Estratégias de Controle na Cadeia Produtiva.

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 20 de out. de 2025
  • 7 min de leitura

Introdução


O café ocupa posição de destaque entre as commodities agrícolas mais comercializadas no mundo, movimentando cadeias produtivas complexas que envolvem milhões de produtores, cooperativas, indústrias de torrefação e exportadores. O Brasil, maior produtor e exportador global, desempenha papel central nesse cenário, sendo responsável por parcela significativa do abastecimento internacional. Nesse contexto, a qualidade e a segurança do produto tornam-se dimensões estratégicas não apenas para a competitividade econômica, mas também para a proteção da saúde pública.


Entre os riscos associados ao café, a presença de micotoxinas merece atenção especial. A ocratoxina A (OTA), metabólito secundário produzido por fungos dos gêneros Aspergillus e Penicillium, destaca-se por seu potencial nefrotóxico, imunossupressor e possivelmente carcinogênico. Sua ocorrência em grãos de café está relacionada, sobretudo, a condições inadequadas de colheita, secagem, armazenamento e transporte, especialmente em ambientes com elevada umidade e temperatura.


A relevância do tema transcende o campo da microbiologia de alimentos. A ocratoxina em café envolve aspectos regulatórios, metodológicos e econômicos, exigindo articulação entre laboratórios de controle de qualidade, órgãos reguladores, exportadores e centros de pesquisa. Instituições como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e o Codex Alimentarius estabeleceram parâmetros e recomendações específicas para mitigar riscos associados à exposição crônica a essa toxina.


Este artigo examina, em profundidade, os fundamentos históricos e científicos da ocratoxina A em café contaminado, sua importância para a segurança alimentar, as aplicações práticas no contexto institucional e industrial, bem como as metodologias analíticas utilizadas para sua detecção e quantificação. Ao final, propõem-se perspectivas futuras e diretrizes para fortalecimento das boas práticas laboratoriais e produtivas.



Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


Descoberta e Caracterização da Ocratoxina A

A ocratoxina A foi descrita pela primeira vez em 1965, durante investigações sobre metabólitos tóxicos produzidos por fungos do gênero Aspergillus. Desde então, sua presença foi documentada em diversos alimentos, incluindo cereais, vinho, frutas secas e café. Estruturalmente, trata-se de um composto derivado da isocumarina ligada a um resíduo de fenilalanina, o que lhe confere estabilidade térmica e resistência a processos convencionais de processamento.


No caso do café, a contaminação pode ocorrer ainda no campo, mas é particularmente favorecida durante a secagem pós-colheita e o armazenamento inadequado. Espécies como Aspergillus ochraceus e Aspergillus carbonarius são reconhecidas como importantes produtoras de OTA em ambientes tropicais.


Mecanismo de Toxicidade

Do ponto de vista toxicológico, a ocratoxina A apresenta afinidade pelo tecido renal, onde interfere na síntese proteica e induz estresse oxidativo. Estudos experimentais associaram sua exposição crônica à nefropatia endêmica dos Bálcãs e a tumores renais em modelos animais. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) classifica a OTA como possivelmente carcinogênica para humanos (Grupo 2B).


A absorção ocorre principalmente por via oral, e a toxina apresenta meia-vida prolongada no organismo, o que aumenta o risco associado à exposição contínua, mesmo em baixas concentrações.


Marcos Regulatórios

A crescente evidência científica levou à implementação de limites máximos tolerados para OTA em alimentos. A União Europeia estabelece limite máximo de 5 µg/kg para café torrado e 10 µg/kg para café solúvel. No Brasil, a ANVISA regulamenta a presença de micotoxinas por meio de resoluções específicas, como a RDC nº 7/2011 (atualizada por normativas posteriores), que estabelece limites máximos para diversas categorias alimentícias.


No âmbito internacional, o Codex Alimentarius desenvolve diretrizes para controle de micotoxinas, incentivando práticas preventivas ao longo da cadeia produtiva. Essas normas reforçam a importância de sistemas de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC/HACCP), amplamente adotados por indústrias exportadoras.


Fatores Ambientais e Agronômicos

A ocorrência de OTA no café é influenciada por múltiplos fatores: variedade da planta, altitude, práticas agrícolas, métodos de processamento (via seca ou via úmida), além das condições climáticas. Mudanças climáticas, com aumento da temperatura média e eventos extremos, têm sido apontadas como potenciais catalisadoras da proliferação de fungos toxigênicos.


Estudos conduzidos em regiões produtoras indicam que secagem inadequada e armazenamento em ambientes com umidade relativa superior a 70% aumentam significativamente o risco de contaminação. Portanto, o controle da umidade dos grãos (idealmente abaixo de 12%) é considerado medida crítica.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Impacto na Saúde Pública

A exposição dietética à ocratoxina A é considerada cumulativa. Embora o café não seja a principal fonte de OTA na dieta, sua ampla distribuição global o torna relevante na avaliação de risco populacional. Avaliações da EFSA indicam que consumidores habituais de café podem contribuir de forma significativa para a ingestão diária tolerável, especialmente quando combinada a outras fontes alimentares contaminadas.


A determinação da Dose Semanal Tolerável Provisória (PTWI) orienta políticas públicas e reforça a necessidade de monitoramento contínuo.


Repercussões Econômicas

A detecção de lotes contaminados pode resultar em rejeição de cargas em portos internacionais, com impactos financeiros expressivos para exportadores. Países importadores adotam sistemas rigorosos de rastreabilidade, exigindo laudos laboratoriais certificados segundo normas ISO/IEC 17025.


Casos de embargo comercial reforçam a importância de investimentos em controle de qualidade e capacitação técnica. Cooperativas brasileiras têm adotado programas de monitoramento preventivo, integrando análises laboratoriais periódicas e treinamento de produtores.


Estudos de Caso Institucionais

Pesquisas conduzidas por universidades federais brasileiras demonstraram redução significativa na incidência de OTA após implementação de protocolos padronizados de secagem e armazenamento. Em um estudo longitudinal realizado em Minas Gerais, verificou-se diminuição de até 60% nos níveis médios detectados após adoção de boas práticas agrícolas.


Instituições de pesquisa também desenvolvem variedades mais resistentes à colonização fúngica, explorando abordagens biotecnológicas e seleção genética.


Inovação Tecnológica

Tecnologias emergentes, como sensores ópticos portáteis e espectroscopia no infravermelho próximo (NIR), vêm sendo estudadas como ferramentas de triagem rápida. Embora ainda não substituam métodos confirmatórios, representam avanço relevante na detecção preliminar em campo.


A aplicação de inteligência analítica na gestão de dados laboratoriais também permite identificar padrões sazonais e regiões de maior risco, subsidiando estratégias preventivas.


Metodologias de Análise


A detecção de ocratoxina A requer métodos sensíveis e específicos, dada a complexidade da matriz do café.


Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (HPLC)

O método mais difundido é a cromatografia líquida de alta eficiência acoplada a detector de fluorescência (HPLC-FLD), frequentemente precedida por etapa de extração e purificação com colunas de imunoafinidade. Esse procedimento oferece elevada sensibilidade, com limites de detecção na ordem de ng/kg.


Protocolos validados pela AOAC e normas ISO estabelecem parâmetros de precisão, exatidão e recuperação aceitáveis para fins regulatórios.


Cromatografia Líquida acoplada à Espectrometria de Massas (LC-MS/MS)

A LC-MS/MS representa padrão-ouro para confirmação analítica, permitindo quantificação precisa mesmo em níveis traço. Sua especificidade reduz interferências de matriz e amplia confiabilidade dos resultados.


Métodos Imunoenzimáticos (ELISA)

Testes ELISA são amplamente utilizados para triagem rápida, devido ao menor custo e simplicidade operacional. Contudo, podem apresentar reações cruzadas, exigindo confirmação por métodos cromatográficos.


Limitações e Desafios

Entre os desafios analíticos destacam-se a heterogeneidade da contaminação nos lotes, a necessidade de amostragem representativa e o custo elevado de equipamentos de alta resolução. A harmonização internacional de métodos continua sendo pauta relevante em fóruns técnicos.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


A ocratoxina A em café contaminado representa desafio multidimensional que articula ciência, regulação e mercado internacional. A manutenção de padrões rigorosos de controle é condição indispensável para assegurar competitividade e proteção à saúde pública.


O fortalecimento de programas de boas práticas agrícolas, aliado à ampliação da infraestrutura laboratorial e à capacitação técnica de profissionais, constitui estratégia eficaz para redução do risco. Investimentos em pesquisa aplicada, especialmente no desenvolvimento de métodos de detecção rápida e em estudos sobre impactos das mudanças climáticas, devem integrar a agenda institucional de universidades e centros tecnológicos.


No horizonte futuro, espera-se maior integração entre monitoramento digital, rastreabilidade e análise preditiva, promovendo abordagem preventiva em substituição ao modelo reativo. Para instituições públicas e privadas, a consolidação de uma cultura de qualidade baseada em evidências científicas será determinante para enfrentar os desafios impostos pelas micotoxinas na cadeia do café.


A construção de sistemas alimentares mais seguros passa, inevitavelmente, pela articulação entre pesquisa, inovação e responsabilidade institucional.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


  1. O que é a ocratoxina A e por que ela pode estar presente no café? 

    A ocratoxina A (OTA) é uma micotoxina produzida por fungos dos gêneros Aspergillus e Penicillium. No café, sua presença está associada principalmente a condições inadequadas de secagem, armazenamento e transporte dos grãos, especialmente em ambientes com alta umidade e temperatura. A contaminação pode ocorrer ainda na fase pós-colheita, quando os grãos permanecem úmidos por períodos prolongados.


  2. O consumo de café contaminado com ocratoxina A representa risco à saúde? 

    Sim. A exposição crônica à ocratoxina A está relacionada a efeitos nefrotóxicos, imunossupressores e potencial carcinogênico. Embora os níveis encontrados no café geralmente sejam baixos, o risco está associado ao consumo contínuo e cumulativo, considerando também outras fontes alimentares que podem conter a mesma micotoxina.


  3. Quais são os limites regulatórios para ocratoxina A em café? 

    Os limites variam conforme a legislação de cada país. A União Europeia estabelece valores máximos específicos para café torrado e café solúvel. No Brasil, a regulamentação é definida por resoluções da ANVISA que estabelecem limites máximos tolerados para micotoxinas em alimentos. Esses parâmetros são baseados em avaliações de risco toxicológico e em recomendações internacionais, como as do Codex Alimentarius.


  4. A torrefação elimina a ocratoxina A presente nos grãos? 

    A torrefação pode reduzir parcialmente os níveis de ocratoxina A, mas não garante sua eliminação completa. A toxina apresenta relativa estabilidade térmica, o que significa que parte dela pode permanecer mesmo após o processamento térmico. Por isso, o controle deve ocorrer principalmente nas etapas anteriores, como colheita, secagem e armazenamento.


  5. Como a ocratoxina A é detectada em amostras de café? 

    A identificação é realizada por meio de métodos laboratoriais específicos, como cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC), frequentemente associada à detecção por fluorescência ou espectrometria de massas (LC-MS/MS). Técnicas imunoenzimáticas, como ELISA, também são utilizadas para triagem. Esses métodos permitem detectar a toxina em concentrações muito baixas, garantindo confiabilidade analítica.


  6. É possível prevenir a contaminação por ocratoxina A na cadeia produtiva do café?

    Sim. A prevenção envolve a adoção de boas práticas agrícolas e de armazenamento, controle rigoroso da umidade dos grãos, secagem adequada, monitoramento periódico por análises laboratoriais e implementação de sistemas como APPCC (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle). Programas estruturados de qualidade reduzem significativamente o risco de lotes não conformes chegarem ao mercado.



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