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Intoxicação por Mercúrio em Pescados: Fundamentos Científicos, Riscos à Saúde e Desafios Analíticos.

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 12 de out. de 2025
  • 8 min de leitura

Introdução


A presença de mercúrio em pescados constitui um dos temas mais sensíveis e persistentes na interface entre saúde pública, segurança alimentar e monitoramento ambiental. Trata-se de um problema que ultrapassa fronteiras geográficas e setoriais, alcançando tanto comunidades ribeirinhas que dependem da pesca como principal fonte proteica quanto grandes centros urbanos com elevado consumo de frutos do mar. A contaminação por mercúrio, especialmente em sua forma orgânica metilmercúrio, tem sido objeto de investigação científica sistemática desde meados do século XX, consolidando-se como uma das principais preocupações toxicológicas associadas ao consumo de pescado.


O interesse científico pelo tema está intrinsecamente relacionado à complexidade do ciclo biogeoquímico do mercúrio, à sua capacidade de bioacumulação e biomagnificação nas cadeias tróficas aquáticas e aos seus efeitos neurotóxicos em humanos. Espécies predadoras de topo, como atuns, espadartes e tubarões, tendem a apresentar concentrações mais elevadas da substância, refletindo o acúmulo progressivo ao longo da cadeia alimentar. Em populações com alto consumo dessas espécies, estudos epidemiológicos têm demonstrado associação entre exposição crônica ao metilmercúrio e alterações neurológicas, déficits cognitivos em crianças e complicações no desenvolvimento fetal.


No contexto institucional, laboratórios de análise, universidades e órgãos reguladores desempenham papel central na avaliação e no controle dessa contaminação. Normativas estabelecidas por agências como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), a Food and Drug Administration (FDA) e a Environmental Protection Agency (EPA) definem limites máximos permitidos e orientam estratégias de monitoramento. A adoção de metodologias analíticas robustas, aliada à vigilância contínua, é essencial para assegurar a conformidade sanitária e a proteção da saúde coletiva.


Este artigo propõe uma análise abrangente da intoxicação por mercúrio em pescados, abordando seu contexto histórico e fundamentos teóricos, a importância científica e as aplicações práticas no âmbito ambiental e alimentar, as metodologias de análise empregadas em laboratórios especializados e, por fim, as perspectivas futuras para mitigação do risco e aprimoramento das políticas públicas.



Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


Primeiros registros e consolidação do problema

Embora o mercúrio seja conhecido desde a Antiguidade por suas propriedades físico-químicas singulares — único metal líquido à temperatura ambiente — sua toxicidade sistêmica passou a ser compreendida de forma mais contundente a partir de eventos históricos marcantes. O caso emblemático ocorreu na década de 1950, na cidade de Minamata, no Japão. A liberação contínua de efluentes industriais contendo compostos de mercúrio por uma indústria química levou à contaminação da baía local. A ingestão de peixes e frutos do mar contaminados resultou em uma síndrome neurológica grave, posteriormente denominada Doença de Minamata. Estudos clínicos e toxicológicos demonstraram que o agente responsável era o metilmercúrio, forma orgânica altamente biodisponível.


Esse episódio impulsionou a consolidação de pesquisas sobre toxicologia ambiental e reforçou a necessidade de regulamentação internacional. Décadas mais tarde, em 2013, foi estabelecida a Convenção de Minamata sobre Mercúrio, tratado internacional coordenado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), com o objetivo de reduzir emissões e liberações do metal no ambiente.


Ciclo ambiental do mercúrio

O mercúrio circula no ambiente por meio de um ciclo complexo que envolve emissões naturais (atividade vulcânica, erosão de rochas) e antropogênicas (queima de combustíveis fósseis, mineração de ouro, processos industriais). Uma vez liberado na atmosfera, pode ser transportado a longas distâncias antes de se depositar em corpos d’água.


Em ambientes aquáticos, microrganismos anaeróbios — particularmente bactérias redutoras de sulfato — promovem a metilação do mercúrio inorgânico, formando metilmercúrio (CH₃Hg⁺). Essa transformação é crítica do ponto de vista toxicológico, pois o metilmercúrio apresenta elevada lipossolubilidade e capacidade de atravessar barreiras biológicas, incluindo a barreira hematoencefálica e a placenta.


Bioacumulação e biomagnificação

Dois conceitos fundamentais explicam a presença de níveis elevados de mercúrio em pescados:


  • Bioacumulação: acúmulo progressivo da substância em um organismo ao longo do tempo.

  • Biomagnificação: aumento da concentração do contaminante a cada nível trófico da cadeia alimentar.


Fitoplâncton absorve metilmercúrio da água; pequenos peixes ingerem o fitoplâncton; peixes maiores consomem os menores, e assim sucessivamente. Como a excreção do metilmercúrio é lenta, ocorre retenção significativa nos tecidos musculares, que são posteriormente consumidos por humanos.


Toxicocinética e toxicodinâmica

Após ingestão, cerca de 90–95% do metilmercúrio presente no pescado é absorvido pelo trato gastrointestinal humano. No sangue, liga-se à hemoglobina e a proteínas plasmáticas contendo grupos sulfidrila. Sua meia-vida biológica é estimada entre 40 e 70 dias.


Os efeitos tóxicos concentram-se no sistema nervoso central. Estudos publicados em periódicos como The Lancet e Environmental Health Perspectives indicam que exposições crônicas, mesmo em níveis moderados, podem comprometer o desenvolvimento neurocognitivo em fetos e crianças pequenas. Em adultos, sintomas incluem parestesias, alterações motoras e déficits sensoriais.


Marco regulatório

No Brasil, a Resolução RDC nº 722/2022 da ANVISA estabelece limites máximos de mercúrio total em pescados, geralmente variando entre 0,5 mg/kg para a maioria das espécies e 1,0 mg/kg para espécies predadoras. Internacionalmente, a União Europeia adota limites similares conforme o Regulamento (CE) nº 1881/2006. A FDA, nos Estados Unidos, também estabelece orientações específicas para consumo seguro, especialmente para gestantes.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Relevância para a saúde pública

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o mercúrio entre os dez produtos químicos de maior preocupação para a saúde pública. Estimativas globais indicam que milhões de pessoas estão expostas a níveis potencialmente preocupantes por meio da dieta, sobretudo em regiões com alto consumo de pescado.


Estudos de coorte realizados nas Ilhas Faroé e nas Seychelles analisaram o impacto da exposição pré-natal ao metilmercúrio. Enquanto os resultados variaram quanto à magnitude dos efeitos, ambos reforçaram a necessidade de monitoramento rigoroso e orientações específicas para populações vulneráveis.


Impactos econômicos e institucionais

Para a indústria pesqueira e aquícola, a detecção de níveis acima dos limites regulamentares pode resultar em recolhimentos de lotes, embargos comerciais e prejuízos financeiros significativos. Países exportadores devem cumprir padrões internacionais rigorosos, o que exige infraestrutura laboratorial qualificada.


Instituições de pesquisa desempenham papel estratégico no desenvolvimento de tecnologias de mitigação, como práticas de manejo aquícola que reduzam a exposição a áreas contaminadas. Além disso, programas de vigilância ambiental monitoram concentrações em águas e sedimentos.


Avaliação de risco e comunicação

A análise de risco envolve quatro etapas: identificação do perigo, avaliação da dose-resposta, avaliação da exposição e caracterização do risco. Com base nesses parâmetros, agências reguladoras emitem recomendações de consumo. Por exemplo, orientações podem sugerir que gestantes evitem espécies de grande porte e priorizem peixes com baixo teor de mercúrio, como sardinha e tilápia.


A comunicação clara desses riscos é essencial para evitar tanto a subestimação do problema quanto a redução indevida do consumo de pescado, alimento reconhecido por seus benefícios nutricionais, incluindo ácidos graxos ômega-3.


Estudos de caso

No Brasil, pesquisas conduzidas na região amazônica identificaram concentrações elevadas de mercúrio em peixes de áreas próximas a atividades de garimpo. Publicações em revistas como Science of the Total Environment demonstram correlação entre mineração artesanal e aumento de níveis em comunidades ribeirinhas.


Esses achados fundamentam políticas públicas voltadas à fiscalização ambiental e à proteção de populações tradicionais.


Metodologias de Análise


A determinação de mercúrio em pescados exige métodos analíticos sensíveis, seletivos e validados. Entre as técnicas mais empregadas destacam-se:


Espectrometria de Absorção Atômica com Geração de Vapor Frio (CV-AAS)

Tradicionalmente utilizada para quantificação de mercúrio total. Baseia-se na redução do mercúrio a sua forma elementar (Hg⁰), que é volatilizada e medida por absorção atômica. É reconhecida por normas da AOAC e amplamente aplicada em laboratórios de controle de qualidade.


Espectrometria de Massa com Plasma Indutivamente Acoplado (ICP-MS)

Considerada padrão-ouro pela alta sensibilidade (níveis de µg/kg). Permite análise multielementar e, quando acoplada a técnicas de separação como HPLC, possibilita especiação química, distinguindo mercúrio inorgânico de metilmercúrio.


Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (HPLC)

Empregada na separação das diferentes espécies químicas antes da detecção por ICP-MS ou espectrometria atômica. Essencial para estudos toxicológicos detalhados.


Normas e protocolos

Métodos são frequentemente validados segundo critérios da ISO 17025, que estabelece requisitos para competência laboratorial. Protocolos da AOAC International e do Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater (SMWW) também são amplamente utilizados.


Limitações e avanços

Desafios incluem interferências matriciais e necessidade de preparo rigoroso da amostra, geralmente envolvendo digestão ácida assistida por micro-ondas. Avanços recentes incluem técnicas portáteis baseadas em sensores eletroquímicos, que podem ampliar o monitoramento em campo.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


A intoxicação por mercúrio em pescados permanece como um desafio científico e regulatório de grande relevância. A compreensão aprofundada de seu ciclo ambiental, mecanismos de toxicidade e padrões de exposição tem permitido avanços significativos na formulação de políticas públicas e no aprimoramento de metodologias analíticas.


Entretanto, a persistência de fontes antropogênicas, especialmente associadas à mineração e à queima de combustíveis fósseis, evidencia que o problema não se restringe ao âmbito laboratorial. Exige abordagem integrada que envolva pesquisa, regulação, educação sanitária e cooperação internacional.


O fortalecimento de redes de monitoramento, o investimento em tecnologias analíticas mais acessíveis e a ampliação de estudos epidemiológicos longitudinais constituem caminhos promissores. Instituições acadêmicas e centros de pesquisa têm papel decisivo na formação de profissionais qualificados e na geração de conhecimento aplicado.


Em um cenário de crescente demanda por alimentos de origem aquática, assegurar a qualidade sanitária do pescado é não apenas uma exigência regulatória, mas um compromisso ético com a saúde pública e a sustentabilidade ambiental.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


1. O que caracteriza a intoxicação por mercúrio em pescados? 

A intoxicação por mercúrio em pescados ocorre quando há ingestão de peixes ou frutos do mar contendo concentrações elevadas de mercúrio, especialmente na forma de metilmercúrio. Essa forma orgânica é altamente absorvida pelo organismo humano e pode se acumular ao longo do tempo, afetando principalmente o sistema nervoso central.


2. Quais espécies de pescado apresentam maior risco de contaminação? 

Espécies predadoras de grande porte e longa vida, como atum, peixe-espada, tubarão e cavala, tendem a apresentar maiores concentrações de mercúrio devido ao fenômeno da biomagnificação na cadeia alimentar aquática. Peixes de menor porte e ciclo de vida mais curto geralmente apresentam níveis mais baixos.


3. Quais são os principais efeitos do mercúrio na saúde humana? 

A exposição crônica ao metilmercúrio pode causar alterações neurológicas, déficits cognitivos, distúrbios motores e sensoriais. Em gestantes, o risco é ainda mais relevante, pois o composto atravessa a barreira placentária e pode comprometer o desenvolvimento neurológico fetal.


4. Como o mercúrio é detectado em pescados? 

A identificação e quantificação do mercúrio são realizadas por métodos laboratoriais específicos, como espectrometria de absorção atômica com geração de vapor frio (CV-AAS) e espectrometria de massa com plasma indutivamente acoplado (ICP-MS). Em análises mais detalhadas, técnicas cromatográficas permitem diferenciar mercúrio total e metilmercúrio.


5. Existem limites regulatórios para mercúrio em pescado? 

Sim. Agências reguladoras estabelecem limites máximos permitidos para proteger a saúde pública. No Brasil, a ANVISA define valores de referência que variam conforme a espécie. Organismos internacionais, como a União Europeia e a FDA, também adotam padrões específicos para comercialização e consumo seguro.


6. O consumo de pescado deve ser evitado devido ao mercúrio? 

Não necessariamente. O pescado é fonte relevante de proteínas e ácidos graxos essenciais. A recomendação é diversificar as espécies consumidas e priorizar peixes com menores concentrações de mercúrio, especialmente para gestantes e crianças. Orientações baseadas em avaliação de risco permitem equilibrar benefícios nutricionais e segurança alimentar.



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