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Controle de Alergênicos: Fundamentos Científicos, Regulamentação e Estratégias Integradas de Gestão

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 6 de fev.
  • 7 min de leitura

Introdução


A segurança de produtos destinados ao consumo humano — sejam alimentos, medicamentos, cosméticos ou insumos hospitalares — é um dos pilares da saúde pública contemporânea. Entre os diversos riscos associados à produção e ao consumo desses produtos, a presença não intencional de alergênicos ocupa posição de destaque. Reações alérgicas alimentares e ocupacionais representam um desafio crescente para sistemas de saúde, indústrias e órgãos reguladores, exigindo abordagens técnicas rigorosas, rastreabilidade robusta e monitoramento contínuo.


Estima-se que alergias alimentares afetem entre 6% e 8% das crianças e até 3% dos adultos em diferentes regiões do mundo, segundo dados compilados pela World Health Organization. No Brasil, a regulamentação específica evoluiu significativamente a partir da publicação da RDC nº 26/2015 da ANVISA, que dispõe sobre os requisitos para rotulagem obrigatória de alergênicos em alimentos. Esse marco normativo ampliou a responsabilidade das empresas quanto ao controle de contaminação cruzada, à validação de processos e à comunicação transparente com o consumidor.


O controle de alergênicos não se limita à rotulagem. Trata-se de um sistema integrado que envolve análise de risco, segregação de matérias-primas, validação de limpeza, capacitação de equipes, rastreabilidade documental e métodos analíticos de alta sensibilidade. A gestão inadequada pode resultar em recalls de grande impacto financeiro e reputacional, além de consequências clínicas graves para indivíduos sensibilizados.


Este artigo examina o controle de alergênicos sob uma perspectiva técnica e institucional. Inicialmente, apresenta-se o contexto histórico e os fundamentos científicos das reações alérgicas e da regulamentação correlata. Em seguida, discutem-se aplicações práticas em diferentes setores industriais, com ênfase em segurança alimentar e farmacêutica. Posteriormente, são detalhadas metodologias analíticas utilizadas para detecção e monitoramento. Por fim, são exploradas perspectivas futuras e desafios emergentes no campo.

Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


A Evolução do Conceito de Alergia e Hipersensibilidade

O termo “alergia” foi introduzido em 1906 pelo pediatra austríaco Clemens von Pirquet, ao descrever respostas imunológicas exacerbadas a substâncias aparentemente inofensivas. Desde então, o entendimento das reações de hipersensibilidade evoluiu consideravelmente. A classificação proposta por Gell e Coombs (1963) permanece referência, dividindo as reações em quatro tipos, sendo as do Tipo I (mediadas por IgE) as mais associadas a alergias alimentares.


A exposição a proteínas alergênicas desencadeia, em indivíduos sensibilizados, a produção de imunoglobulina E específica. Essa IgE liga-se a mastócitos e basófilos, promovendo liberação de mediadores inflamatórios — como histamina — após nova exposição. O resultado pode variar de manifestações cutâneas leves até anafilaxia, quadro potencialmente fatal.


Entre os principais alergênicos alimentares globalmente reconhecidos estão leite, ovo, amendoim, soja, trigo, crustáceos, peixes e nozes. A Codex Alimentarius Commission, vinculada à Food and Agriculture Organization e à World Health Organization, consolidou diretrizes internacionais que influenciam regulamentações nacionais.


Marcos Regulamentares e Normativos

A consolidação de políticas públicas específicas para alergênicos ocorreu principalmente a partir dos anos 1990 e 2000, em resposta ao aumento da prevalência de alergias e à globalização do comércio de alimentos.


Nos Estados Unidos, o Food Allergen Labeling and Consumer Protection Act (FALCPA), de 2004, estabeleceu requisitos claros para declaração de oito alergênicos principais. Na União Europeia, o Regulamento (UE) nº 1169/2011 ampliou a lista de substâncias de declaração obrigatória.


No Brasil, a RDC nº 26/2015 da ANVISA determinou que alimentos embalados devem declarar a presença intencional ou não intencional de alergênicos, inclusive por contaminação cruzada. Tal exigência demandou revisão profunda de Programas de Boas Práticas de Fabricação (BPF) e implementação de Planos de Controle de Alergênicos.


Normas de sistemas de gestão, como a ISO 22000 e esquemas reconhecidos pela Global Food Safety Initiative (GFSI), incorporaram o controle de alergênicos como requisito essencial. A abordagem baseada em análise de perigos e pontos críticos de controle (HACCP) passou a incluir avaliação específica para proteínas alergênicas.


Fundamentos Técnicos do Controle

O controle de alergênicos baseia-se em três pilares:

  1. Prevenção de contaminação cruzada Inclui segregação física, programação de produção (sequenciamento de produtos), uso de equipamentos dedicados e controle de fluxo de pessoas e materiais.

  2. Validação e verificação de limpeza Procedimentos de higienização devem ser validados quanto à remoção efetiva de proteínas alergênicas. Métodos como swab test e análise de proteína residual são empregados.

  3. Rotulagem e comunicação de risco A rotulagem preventiva (“pode conter”) deve ser fundamentada em avaliação técnica de risco, não sendo recomendada como prática indiscriminada.


O conceito de limiar (threshold) também ganhou relevância científica. Estudos conduzidos por consórcios internacionais, como o projeto VITAL (Voluntary Incidental Trace Allergen Labelling), estabeleceram doses de referência para diversos alergênicos, auxiliando na definição de critérios objetivos para rotulagem preventiva.

Importância Científica e Aplicações Práticas


Impactos na Indústria Alimentícia

A indústria de alimentos é o setor mais diretamente impactado pelo controle de alergênicos. A complexidade das cadeias produtivas modernas, com múltiplos ingredientes e fornecedores globais, aumenta o risco de contaminação cruzada.


Estudos publicados no Journal of Food Protection indicam que falhas no controle de alergênicos estão entre as principais causas de recall alimentar nos Estados Unidos e na Europa. Além do impacto econômico — frequentemente milionário — há danos à reputação institucional e potenciais ações judiciais.


Boas práticas incluem:

  • Mapeamento detalhado de fluxos de produção.

  • Auditorias de fornecedores com foco em segregação.

  • Testes de verificação periódicos.

  • Treinamento contínuo de colaboradores.


Aplicações no Setor Farmacêutico

Embora menos discutido, o controle de alergênicos também é relevante na indústria farmacêutica. Excipientes derivados de soja, lactose ou proteínas podem representar risco para pacientes alérgicos.


A Farmacopeia Brasileira e diretrizes internacionais recomendam rastreabilidade de matérias-primas e avaliação de risco em formulações. Em ambientes hospitalares, protocolos de prescrição devem considerar histórico alérgico detalhado.


Setor Cosmético e Ocupacional

No setor cosmético, fragrâncias e conservantes podem atuar como sensibilizantes. Embora não se enquadrem estritamente como alergênicos alimentares, os princípios de controle — rastreabilidade, validação de limpeza e rotulagem clara — são aplicáveis.


Em ambientes ocupacionais, exposição a proteínas de origem animal ou vegetal pode desencadear asma ocupacional. Programas de controle ambiental e monitoramento periódico são recomendados.


Estudos de Caso e Benchmarks

Empresas certificadas em esquemas reconhecidos pela GFSI frequentemente reportam redução significativa de não conformidades após implementação estruturada de planos de controle de alergênicos.

Um estudo europeu demonstrou que fábricas que adotaram equipamentos dedicados para produtos contendo amendoim reduziram em mais de 90% a ocorrência de traços detectáveis em linhas subsequentes.


Metodologias de Análise

A detecção de alergênicos exige métodos sensíveis e específicos, capazes de identificar proteínas em níveis traço.


ELISA (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay)

Método amplamente utilizado devido à alta sensibilidade e especificidade. Permite quantificação de proteínas específicas e é recomendado por organismos como a AOAC International.

Limitações: Pode sofrer interferência de processamento térmico intenso, que altera a estrutura proteica.


PCR (Reação em Cadeia da Polimerase)

Detecta DNA associado à fonte alergênica. Útil quando proteínas foram degradadas, mas DNA permanece detectável.

Limitações: Não mede diretamente proteína alergênica, podendo superestimar risco.


LC-MS/MS (Cromatografia Líquida acoplada à Espectrometria de Massas)

Considerada abordagem de alta precisão, especialmente em análises confirmatórias. Permite identificação de peptídeos específicos.

Limitações: Custo elevado e necessidade de infraestrutura especializada.


Testes Rápidos (Lateral Flow Devices)

Utilizados para verificação in loco, especialmente em validação de limpeza. Fornecem resultados qualitativos rápidos, auxiliando decisões operacionais.

Normas técnicas como ISO 17025 estabelecem requisitos para competência de laboratórios que realizam essas análises.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


O controle de alergênicos consolidou-se como componente essencial da gestão de segurança de produtos, exigindo integração entre ciência, regulamentação e práticas industriais. A evolução das legislações, aliada ao avanço de métodos analíticos, ampliou a capacidade de detecção e mitigação de riscos.


Entretanto, desafios persistem. A definição de limiares harmonizados internacionalmente ainda demanda consenso científico. O aumento da complexidade das cadeias globais requer maior transparência e digitalização de processos. Tecnologias emergentes, como biossensores portáteis e análise baseada em inteligência artificial aplicada a dados laboratoriais, apontam para maior agilidade e precisão.


Instituições acadêmicas e centros de pesquisa desempenham papel estratégico na geração de evidências científicas, validação de métodos e formação de profissionais qualificados. Empresas, por sua vez, devem adotar postura proativa, investindo em cultura organizacional orientada à segurança e à prevenção.


O controle de alergênicos não deve ser encarado apenas como exigência regulatória, mas como compromisso ético com a saúde pública e com a confiança do consumidor. Em um cenário de crescente conscientização e responsabilidade social corporativa, a excelência nesse campo representa diferencial competitivo e, sobretudo, garantia de proteção à vida.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


  1. O que são alergênicos e por que representam risco à saúde? Alergênicos são, em geral, proteínas capazes de desencadear respostas imunológicas em indivíduos sensibilizados. Em pessoas com alergia, a exposição a quantidades mínimas pode provocar reações que variam de sintomas leves, como urticária, até quadros graves, como anafilaxia. Por esse motivo, o controle rigoroso dessas substâncias é considerado medida essencial de proteção à saúde pública.


  2. Quais são os principais alergênicos reconhecidos pela legislação? Os principais alergênicos variam conforme a regulamentação nacional, mas comumente incluem leite, ovos, soja, trigo, amendoim, castanhas, peixes e crustáceos. No Brasil, a RDC nº 26/2015 da ANVISA estabelece os requisitos para declaração obrigatória desses componentes em alimentos embalados.


  3. A contaminação cruzada pode ocorrer mesmo sem adição intencional do ingrediente alergênico? Sim. A contaminação cruzada pode ocorrer durante o processamento, transporte, armazenamento ou compartilhamento de equipamentos entre produtos com e sem alergênicos. Por isso, programas de segregação, sequenciamento de produção e validação de limpeza são etapas críticas no controle preventivo.


  4. Como o controle de alergênicos é incorporado aos sistemas de gestão da qualidade? O controle integra programas de Boas Práticas de Fabricação (BPF), análise de perigos e pontos críticos de controle (HACCP) e sistemas de gestão como a ISO 22000. Inclui avaliação de risco, qualificação de fornecedores, rastreabilidade de matérias-primas, treinamento de equipes e monitoramento analítico periódico.


  5. Quais métodos laboratoriais são utilizados para detectar alergênicos? Entre os métodos mais empregados estão o ELISA (ensaio imunoenzimático), a PCR para detecção de DNA associado à fonte alergênica e técnicas instrumentais como LC-MS/MS. Organizações como a AOAC International validam metodologias que garantem sensibilidade e confiabilidade nos resultados.


  6. A implementação de um plano de controle de alergênicos reduz o risco de recall? Sim. Um plano estruturado, baseado em avaliação técnica de risco e verificação contínua, permite identificar pontos críticos e corrigir desvios antes que o produto alcance o consumidor. Essa abordagem reduz significativamente a probabilidade de incidentes, fortalece a conformidade regulatória e preserva a credibilidade institucional.



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