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Cloro, Dióxido de Cloro e Outros Desinfetantes: Impacto no Controle de Legionella em Sistemas Hídricos.

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 5 de fev.
  • 7 min de leitura

Introdução


A presença de Legionella em sistemas hídricos artificiais representa um dos desafios mais complexos no campo da saúde ambiental e da microbiologia aplicada. Desde a identificação do agente etiológico da Doença dos Legionários na década de 1970, após o surto ocorrido na Filadélfia, a gestão do risco associado à bactéria tornou-se prioridade em hospitais, indústrias, hotéis, edifícios corporativos e instalações públicas. A capacidade desse microrganismo de colonizar sistemas de água quente, torres de resfriamento e redes prediais, associada à formação de biofilmes e à resistência a condições adversas, exige estratégias de controle robustas, contínuas e cientificamente fundamentadas.


Entre as principais ferramentas disponíveis para o controle microbiológico estão os agentes oxidantes, com destaque para o cloro livre, o dióxido de cloro e outros desinfetantes químicos e físicos empregados no tratamento de água. A escolha do método adequado depende de múltiplos fatores: características do sistema hidráulico, temperatura, pH, presença de matéria orgânica, conformação de biofilmes e exigências regulatórias locais. A eficácia no controle de Legionella não se limita à simples dosagem de um biocida, mas envolve compreensão aprofundada dos mecanismos de ação, da interação com o ambiente aquático e da dinâmica microbiana.


Este artigo examina, sob perspectiva histórica, técnica e institucional, o papel do cloro, do dióxido de cloro e de outros agentes desinfetantes no controle de Legionella. Serão abordados os fundamentos microbiológicos, a evolução das regulamentações, as aplicações práticas em diferentes setores, metodologias de monitoramento e as perspectivas futuras para o gerenciamento desse risco sanitário. Ao longo do texto, destacam-se referências a normas internacionais e brasileiras, como as diretrizes da EPA (Environmental Protection Agency), da OMS (Organização Mundial da Saúde), da ISO e recomendações técnicas aplicáveis ao contexto hospitalar e industrial.



Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


A descoberta de Legionella e a mudança de paradigma

Em 1976, um surto de pneumonia grave acometeu participantes de uma convenção da American Legion, nos Estados Unidos. A investigação conduzida pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) identificou posteriormente uma bactéria até então desconhecida: Legionella pneumophila. Esse evento redefiniu os paradigmas de vigilância sanitária relacionados a sistemas de água artificial.


Estudos subsequentes demonstraram que Legionella é uma bactéria gram-negativa, aeróbia, com capacidade de sobreviver e se multiplicar em ambientes aquáticos, especialmente em temperaturas entre 25 °C e 45 °C. Sua persistência está associada à formação de biofilmes e à capacidade de parasitar protozoários, como amebas livres, que atuam como reservatórios naturais e conferem proteção contra desinfetantes.


A partir da década de 1980, diversos surtos relacionados a torres de resfriamento, spas e sistemas hospitalares consolidaram a compreensão de que o controle químico contínuo da água seria elemento central na prevenção.


Fundamentos microbiológicos e resistência em biofilmes

A dificuldade no controle de Legionella decorre de três fatores principais:


  1. Formação de biofilmes aderidos às superfícies internas de tubulações.

  2. Associação intracelular com protozoários.

  3. Capacidade de entrar em estado viável, porém não cultivável (VBNC).


Os biofilmes representam estruturas polimicrobianas complexas envoltas em matriz extracelular de polissacarídeos, proteínas e DNA. Essa matriz atua como barreira física à difusão de desinfetantes, reduzindo a eficácia do cloro e outros oxidantes. Pesquisas publicadas no Journal of Applied Microbiology indicam que a resistência de bactérias em biofilme pode ser até 1.000 vezes maior do que em estado planctônico.


Cloro livre: mecanismo de ação e limitações

O cloro livre, amplamente utilizado em sistemas de abastecimento público, atua principalmente por oxidação de proteínas e enzimas celulares, comprometendo membranas e processos metabólicos essenciais. Em solução aquosa, estabelece equilíbrio entre ácido hipocloroso (HOCl) e íon hipoclorito (OCl⁻), sendo o HOCl a forma mais biocida.


A eficácia do cloro depende de:


  • pH (maior eficácia entre 6,0 e 7,5);

  • Temperatura;

  • Concentração residual;

  • Tempo de contato (CT).


Apesar de sua ampla aplicação e baixo custo relativo, o cloro apresenta limitações no controle de Legionella em sistemas complexos. A formação de subprodutos de desinfecção (DBPs), como trihalometanos (THMs), é uma preocupação regulatória importante, abordada pela EPA e pela OMS. Além disso, a penetração em biofilmes é limitada.


Dióxido de cloro: estabilidade e penetração

O dióxido de cloro (ClO₂) destaca-se por seu elevado poder oxidante e maior estabilidade em faixas amplas de pH. Diferentemente do cloro, não sofre hidrólise significativa e mantém capacidade biocida consistente entre pH 5 e 10.


Seu mecanismo envolve oxidação seletiva de aminoácidos sulfurados e ruptura de proteínas essenciais. Estudos publicados na revista Water Research demonstram maior eficácia do dióxido de cloro na redução de Legionella em sistemas prediais complexos, especialmente em comparação ao cloro convencional.


Entretanto, sua geração in situ, necessidade de controle rigoroso e formação de subprodutos como clorito e clorato exigem monitoramento contínuo.


Outras abordagens químicas e físicas

Além do cloro e do dióxido de cloro, incluem-se:


  • Monocloramina;

  • Ozônio;

  • Peróxido de hidrogênio com prata;

  • Radiação UV;

  • Ionização cobre-prata.


A monocloramina apresenta maior persistência no sistema, sendo recomendada em redes extensas. A ionização cobre-prata, regulamentada em alguns países europeus, atua interferindo na membrana celular bacteriana.


Normas internacionais como a ISO 11731 (detecção de Legionella) e diretrizes da OMS para água potável orientam estratégias combinadas, integrando controle químico e gestão de risco.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Impacto na saúde pública

A legionelose pode se manifestar como pneumonia grave, com taxas de mortalidade que variam entre 5% e 30%, dependendo do perfil do paciente. Hospitais são ambientes particularmente vulneráveis, especialmente em unidades de terapia intensiva e alas com pacientes imunocomprometidos.


A implementação de planos de gerenciamento de risco hídrico tornou-se obrigatória em diversos países. Nos Estados Unidos, a norma ASHRAE 188 estabelece requisitos para programas de controle de Legionella em edificações.


Aplicações hospitalares

Em hospitais, o dióxido de cloro tem sido empregado como estratégia contínua de desinfecção de redes internas. Estudos de caso publicados em periódicos europeus relatam redução sustentada de colonização após implementação de sistemas automáticos de dosagem.


O controle inclui:


  • Monitoramento de temperatura (≥ 60 °C em aquecedores);

  • Manutenção de residual desinfetante;

  • Limpeza periódica de reservatórios.


Torres de resfriamento e ambiente industrial

Torres de resfriamento são historicamente associadas a surtos. A recirculação de água morna e aeração constante criam ambiente ideal para proliferação bacteriana.


Programas industriais incluem:


  • Monitoramento microbiológico semanal;

  • Controle de sólidos dissolvidos;

  • Aplicação intermitente de biocidas oxidantes e não oxidantes.


A EPA recomenda planos de manutenção documentados e inspeções regulares.


Comparação técnica entre desinfetantes

Parâmetro

Cloro Livre

Dióxido de Cloro

Monocloramina

Faixa ideal de pH

6–7,5

5–10

7–9

Formação de THMs

Alta

Baixa

Muito baixa

Penetração em biofilme

Moderada

Alta

Moderada

Persistência

Moderada

Alta

Alta

Esses parâmetros auxiliam gestores na escolha estratégica conforme a aplicação.


Sustentabilidade e ESG

O controle eficaz de Legionella integra agendas de sustentabilidade e governança (ESG), reduzindo riscos operacionais, custos com surtos e impactos reputacionais. Sistemas automatizados de monitoramento digital têm sido incorporados para rastreabilidade e auditoria.


Metodologias de Análise


Cultura microbiológica

O método padrão para detecção é descrito na ISO 11731 e no Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater (SMWW). Envolve:


  • Filtração de amostras;

  • Tratamento térmico ou ácido;

  • Cultivo em meio BCYE;

  • Incubação por até 10 dias.


Limitação: não detecta células em estado VBNC.


PCR e métodos moleculares

A reação em cadeia da polimerase (PCR) permite detecção rápida e sensível. Métodos quantitativos (qPCR) possibilitam estimativa de carga genética, embora não diferenciem células viáveis de não viáveis sem técnicas complementares (ex.: PMA-PCR).


Monitoramento químico

A concentração de desinfetantes é monitorada por:


  • Espectrofotometria;

  • Titulação iodimétrica;

  • Sensores eletroquímicos online.


Normas da ISO e recomendações da EPA estabelecem limites máximos para subprodutos.


Avanços tecnológicos

Sistemas de monitoramento contínuo com integração IoT permitem controle remoto e ajustes automatizados. Sensores multiparamétricos avaliam simultaneamente pH, ORP (potencial de oxirredução) e residual de oxidante.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


O controle de Legionella em sistemas hídricos exige abordagem multidisciplinar que combine microbiologia, engenharia sanitária, química analítica e gestão institucional. Cloro e dióxido de cloro permanecem como pilares do controle químico, cada qual com vantagens específicas e limitações técnicas.


O avanço das metodologias moleculares amplia a capacidade de monitoramento precoce, enquanto tecnologias digitais favorecem rastreabilidade e conformidade regulatória. O desafio contemporâneo reside na integração dessas ferramentas em programas estruturados de gerenciamento de risco.


Instituições que investem em monitoramento sistemático, capacitação técnica e atualização normativa tendem a reduzir significativamente a probabilidade de surtos. No cenário futuro, espera-se maior incorporação de sistemas inteligentes, biocidas mais seletivos e estratégias combinadas voltadas à mitigação de biofilmes.


A consolidação de práticas baseadas em evidências científicas, alinhadas a normas internacionais e nacionais, representa não apenas exigência regulatória, mas compromisso ético com a saúde pública e a sustentabilidade institucional.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


1. O que é Legionella e por que ela representa um risco em sistemas de água? 

Legionella é uma bactéria presente naturalmente em ambientes aquáticos, mas que pode se proliferar em sistemas artificiais de água, como redes prediais, torres de resfriamento e reservatórios. Quando inaladas por meio de aerossóis contaminados, suas células podem causar a Doença dos Legionários, uma forma grave de pneumonia. O risco aumenta em ambientes hospitalares, industriais e em edificações com sistemas hidráulicos complexos.


2. O cloro é eficaz no controle de Legionella? 

Sim, o cloro livre é amplamente utilizado como desinfetante e pode reduzir a carga de Legionella quando mantido em concentração e tempo de contato adequados. No entanto, sua eficácia pode ser limitada pela presença de biofilmes, variações de pH e formação de subprodutos de desinfecção. Por isso, muitas vezes é necessário combiná-lo com estratégias complementares de controle.


3. Qual a diferença entre cloro e dióxido de cloro no tratamento contra Legionella? 

O dióxido de cloro apresenta maior estabilidade em diferentes faixas de pH e melhor capacidade de penetração em biofilmes, o que pode torná-lo mais eficaz em sistemas hidráulicos extensos ou com histórico de colonização. Já o cloro é mais amplamente disponível e economicamente acessível. A escolha depende das características do sistema, exigências regulatórias e avaliação técnica de risco.


4. Apenas a aplicação de desinfetante é suficiente para eliminar o risco? 

Não. O controle efetivo de Legionella exige abordagem integrada que inclua monitoramento de temperatura, manutenção preventiva, limpeza periódica de reservatórios e controle de biofilmes. Programas de gerenciamento de risco hídrico, como os recomendados por normas internacionais, são fundamentais para reduzir a probabilidade de colonização persistente.


5. Como é realizada a análise de Legionella em sistemas de água? 

A detecção é feita principalmente por métodos microbiológicos baseados em cultura, conforme normas como a ISO 11731, além de técnicas moleculares como PCR para análises mais rápidas. Paralelamente, monitora-se o residual de desinfetantes por métodos físico-químicos, garantindo que os parâmetros operacionais permaneçam dentro dos limites estabelecidos.


6. O monitoramento contínuo ajuda a prevenir surtos? 

Sim. A manutenção de programas estruturados de monitoramento microbiológico e químico permite identificar desvios antes que se tornem eventos críticos. A combinação de controle químico adequado, análise laboratorial periódica e gestão documental reduz significativamente o risco de surtos associados a Legionella, especialmente em ambientes hospitalares e industriais.



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