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Reformas e Obras Prediais: Como Evitar o Aumento de Legionella no Sistema Hidráulico.

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • há 4 dias
  • 7 min de leitura

Introdução


Intervenções estruturais em edificações — sejam reformas pontuais, ampliações, retrofits ou obras de modernização — representam momentos críticos para a integridade dos sistemas hidráulicos prediais. Embora frequentemente associadas a melhorias de eficiência, conforto e sustentabilidade, essas intervenções podem desencadear efeitos microbiológicos indesejados quando não são acompanhadas de protocolos técnicos adequados. Entre os riscos mais relevantes está a proliferação de bactérias do gênero Legionella, agente etiológico da Doença dos Legionários e da febre de Pontiac.


A Legionella é uma bactéria ambiental naturalmente presente em águas superficiais e solos úmidos. Em sistemas artificiais de água — como redes prediais, torres de resfriamento, sistemas de aquecimento e reservatórios — ela pode encontrar condições ideais para multiplicação, especialmente quando há estagnação hídrica, temperaturas entre 20 °C e 45 °C e presença de biofilme. Reformas e obras, ao alterarem fluxos hidráulicos, interromperem o uso de pontos de consumo ou promoverem mudanças de layout, criam ambientes favoráveis à estagnação e à desestabilização microbiológica.


Nos últimos anos, surtos associados a edificações recém-reformadas ou reocupadas após longos períodos de inatividade — como ocorreu em diversos países após a pandemia de COVID-19 — reforçaram a necessidade de integrar a gestão de risco microbiológico ao planejamento de obras. Organismos internacionais como a World Health Organization (WHO), o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e a European Society of Clinical Microbiology and Infectious Diseases (ESCMID) destacam que alterações hidráulicas são fatores de risco reconhecidos para amplificação de Legionella.


No contexto brasileiro, embora não exista uma legislação específica exclusivamente voltada ao controle de Legionella em sistemas prediais de água potável, normas técnicas da ABNT, diretrizes da ANVISA e recomendações do Ministério da Saúde estabelecem parâmetros indiretos relacionados à qualidade da água, higienização de reservatórios e controle de sistemas de climatização.


Este artigo analisa, sob perspectiva técnico-científica, como reformas e obras podem impactar a ecologia microbiana dos sistemas hidráulicos e quais estratégias devem ser adotadas para prevenir a proliferação de Legionella. Serão abordados o contexto histórico e regulatório, fundamentos microbiológicos, aplicações práticas em diferentes setores, metodologias analíticas e perspectivas futuras para gestão integrada de risco.



Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


Descoberta e Caracterização da Legionella

A bactéria Legionella pneumophila foi identificada em 1976 após um surto de pneumonia ocorrido durante uma convenção da American Legion, na Filadélfia. O episódio resultou em 34 mortes e levou à caracterização do microrganismo como agente causador da chamada Doença dos Legionários. Desde então, mais de 60 espécies de Legionella foram descritas, sendo L. pneumophila responsável pela maioria dos casos clínicos.


Do ponto de vista microbiológico, trata-se de uma bactéria gram-negativa, aeróbia, com capacidade de sobreviver e se multiplicar intracelularmente em protozoários presentes na água. Essa interação confere maior resistência ambiental e potencial de virulência.


Ecologia e Biofilme

A compreensão da ecologia da Legionella está diretamente relacionada à dinâmica do biofilme. Biofilmes são comunidades microbianas aderidas a superfícies, envoltas por matriz extracelular polimérica. Em sistemas hidráulicos, o biofilme forma-se naturalmente em tubulações, conexões e reservatórios.


Durante reformas, intervenções como:


  • Substituição parcial de tubulações;

  • Interrupção do fluxo por semanas ou meses;

  • Instalação de novos pontos hidráulicos;

  • Despressurização e repressurização do sistema;


Podem provocar desprendimento parcial de biofilme, redistribuição de microrganismos e criação de nichos de estagnação. Além disso, novos materiais podem liberar compostos orgânicos assimiláveis (AOC — Assimilable Organic Carbon), favorecendo crescimento bacteriano.


Temperatura e Hidráulica

A Legionella apresenta crescimento ótimo entre 35 °C e 42 °C. Em sistemas de água quente sanitária, a manutenção inadequada de temperatura — comum durante obras — pode criar faixas térmicas ideais para proliferação.


Normas internacionais, como a ASHRAE 188 (EUA) e a EN 806 (Europa), recomendam que sistemas de água quente sejam mantidos acima de 60 °C no aquecedor e acima de 50 °C nos pontos de consumo, enquanto a água fria deve permanecer abaixo de 20 °C.


Marcos Regulatórios

Entre os principais referenciais técnicos destacam-se:


  • WHO – Guidelines for Drinking-water Quality

  • CDC – Developing a Water Management Program

  • ASHRAE Standard 188 – Legionellosis: Risk Management

  • ISO 11731 – Water quality — Enumeration of Legionella

  • Portaria GM/MS nº 888/2021 (Brasil) — estabelece padrões de potabilidade da água.


Embora a Portaria 888 não exija monitoramento rotineiro de Legionella em todos os edifícios, ambientes hospitalares e de alto risco devem implementar controles específicos.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Impacto na Saúde Pública

A Doença dos Legionários apresenta taxa de letalidade que pode variar de 5% a 30%, dependendo da população exposta. Indivíduos imunocomprometidos, idosos e pacientes hospitalizados apresentam maior vulnerabilidade.


Estudos epidemiológicos europeus indicam que até 30% dos surtos estão associados a sistemas prediais internos, incluindo chuveiros, spas e redes de água quente.


Reformas como Fator de Risco

Diversos estudos publicados após 2020 evidenciaram aumento da detecção de Legionella em edifícios reocupados após períodos prolongados de fechamento. A estagnação hídrica promove:


  • Queda do residual de desinfetante;

  • Aumento de metais dissolvidos;

  • Crescimento de biofilme;

  • Redução da renovação hidráulica.


Durante obras hospitalares, por exemplo, recomenda-se plano específico de gestão hídrica com flushing periódico e monitoramento microbiológico.


Aplicações Setoriais

Hospitais e Clínicas: Devem implementar programas de Water Safety Plan (WSP), conforme recomendação da WHO.


Hotéis e Edifícios Comerciais: Manutenção preventiva e controle térmico rigoroso são essenciais, especialmente após reformas estruturais.


Indústrias Farmacêuticas e Cosméticas: Água é insumo crítico. Sistemas devem seguir requisitos de controle microbiológico conforme Farmacopeias e normas GMP.


Estratégias Preventivas Durante Obras


  1. Planejamento hidráulico prévio.

  2. Isolamento adequado de trechos inativos.

  3. Flushing periódico com água clorada.

  4. Monitoramento de temperatura e residual de desinfetante.

  5. Desinfecção de choque antes da reocupação.

  6. Eliminação de “dead legs” (trechos sem circulação).


Tabela – Fatores de Risco vs Medidas Preventivas

Fator de Risco

Impacto

Medida Preventiva

Estagnação

Crescimento bacteriano

Flushing semanal

Temperatura inadequada

Proliferação

Controle térmico rigoroso

Biofilme

Proteção microbiana

Desinfecção periódica

Baixo cloro residual

Sobrevivência bacteriana

Monitoramento contínuo

Metodologias de Análise


Cultura Microbiológica (ISO 11731)

Método padrão-ouro para enumeração de Legionella


Vantagens:

  • Quantificação viável (UFC/L)

  • Reconhecimento regulatório


Limitações:

  • Tempo de incubação (até 10 dias)

  • Subestimação de células viáveis não cultiváveis (VBNC)


PCR (Reação em Cadeia da Polimerase)

Permite detecção rápida de DNA bacteriano. Vantagem: rapidez (24–48h). Limitação: não distingue células viáveis de inviáveis.


Métodos Complementares

  • Medição de cloro residual (DPD colorimétrico)

  • Temperatura in situ

  • Análise de AOC

  • Monitoramento de biofilme por ATP-bioluminescência


Protocolos Reconhecidos

  • ISO 11731

  • Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater (SMWW)

  • Diretrizes CDC para Water Management Programs


Avanços tecnológicos incluem biossensores online e monitoramento em tempo real integrado a sistemas prediais inteligentes (BMS).


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


Reformas e obras prediais representam momentos críticos para a estabilidade microbiológica dos sistemas hidráulicos. A negligência quanto à dinâmica hídrica pode transformar intervenções estruturais em vetores indiretos de risco sanitário.


A prevenção do aumento de Legionella exige abordagem multidisciplinar, envolvendo engenheiros, microbiologistas, equipes de manutenção e gestores institucionais. A implementação de Planos de Segurança da Água (Water Safety Plans), associada a monitoramento sistemático e boas práticas construtivas, constitui a estratégia mais robusta.


No cenário futuro, destacam-se:


  • Integração de sensores inteligentes para monitoramento contínuo;

  • Modelagem preditiva de risco microbiológico;

  • Revisão normativa específica para edificações no Brasil;

  • Capacitação técnica em gestão hídrica predial.


A incorporação sistemática do controle microbiológico ao planejamento de obras não deve ser encarada como medida acessória, mas como requisito essencial de responsabilidade sanitária e institucional. Em um contexto de crescente urbanização e complexidade predial, a gestão proativa da qualidade da água interna torna-se parte integrante da governança corporativa e da proteção da saúde coletiva.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


1. Por que reformas e obras aumentam o risco de proliferação de Legionella no sistema hidráulico? 

Durante reformas, é comum ocorrer interrupção do fluxo de água, desativação temporária de pontos de consumo e alterações na configuração das tubulações. Esses fatores favorecem a estagnação hídrica, a queda do residual de desinfetante e o crescimento de biofilme — condições ideais para a multiplicação de Legionella.


2. A presença de Legionella significa necessariamente risco imediato à saúde? 

Nem sempre. A bactéria pode estar presente em níveis baixos sem causar infecção. O risco depende da concentração, da forma de exposição (principalmente aerossóis) e da vulnerabilidade das pessoas expostas. No entanto, qualquer detecção deve ser tratada com cautela e analisada tecnicamente.


3. Quais condições favorecem o crescimento de Legionella em sistemas prediais? 

Temperaturas entre 20 °C e 45 °C, água estagnada, presença de biofilme, baixa concentração de desinfetante residual e trechos de tubulação sem circulação (dead legs) são os principais fatores que estimulam a proliferação bacteriana.


4. Como prevenir o aumento de Legionella durante uma obra? 

Medidas recomendadas incluem flushing periódico das tubulações, controle rigoroso de temperatura da água quente e fria, monitoramento do residual de desinfetante, eliminação de pontos cegos na rede e desinfecção de choque antes da reocupação do edifício.


5. Quais métodos laboratoriais são utilizados para detectar Legionella? 

O método de cultura microbiológica conforme a ISO 11731 é o padrão-ouro para enumeração da bactéria. Técnicas moleculares, como PCR, também são empregadas para detecção rápida. Métodos complementares incluem monitoramento de cloro residual, temperatura e ATP-bioluminescência para avaliação de biofilme.


6. Edifícios recém-reformados devem realizar monitoramento específico antes da reocupação? 

Sim. Recomenda-se a implementação de um plano de gestão da água, incluindo análises microbiológicas, verificação de parâmetros físico-químicos e validação da desinfecção do sistema. Essa abordagem reduz significativamente o risco sanitário associado à retomada das atividades.



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