top of page

Análise de Dissolução em Cápsulas: Fundamentos Científicos, Métodos Analíticos e Impacto na Qualidade Farmacêutica

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 5 de jan.
  • 7 min de leitura

Introdução


A eficácia terapêutica de um medicamento administrado por via oral depende, em grande medida, de um fenômeno físico-químico que ocorre antes mesmo da absorção sistêmica: a dissolução do princípio ativo. No caso específico das cápsulas — sejam elas duras, moles ou gastro-resistentes — a etapa de dissolução constitui um parâmetro crítico de qualidade, diretamente relacionado à biodisponibilidade e, consequentemente, à segurança e à eficácia clínica do produto.


A análise de dissolução é, portanto, um ensaio indispensável no desenvolvimento, registro e controle de qualidade de medicamentos. Trata-se de um teste padronizado que avalia a velocidade e a extensão com que o fármaco é liberado da forma farmacêutica em um meio líquido sob condições controladas de temperatura, agitação e composição do meio. Embora frequentemente associada ao ambiente laboratorial de rotina, essa análise está inserida em um arcabouço regulatório robusto, sustentado por compêndios oficiais como a Farmacopeia Brasileira, a United States Pharmacopeia (USP) e a European Pharmacopoeia (Ph. Eur.), além de diretrizes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), da Food and Drug Administration (FDA) e do International Council for Harmonisation (ICH).


A relevância da dissolução em cápsulas transcende o controle de qualidade final. Ela participa ativamente da etapa de desenvolvimento farmacotécnico, da definição de especificações, da avaliação de equivalência farmacêutica e bioequivalência, e da validação de mudanças pós-registro. Em um cenário global marcado por crescente rigor regulatório e pela expansão do mercado de genéricos e similares, a robustez metodológica e a confiabilidade dos dados de dissolução tornaram-se diferenciais estratégicos para indústrias e laboratórios.


Este artigo apresenta uma análise abrangente do tema, abordando sua evolução histórica, fundamentos teóricos, importância científica, aplicações práticas e metodologias analíticas empregadas. Ao final, discutem-se perspectivas futuras e desafios associados à inovação tecnológica e à harmonização regulatória. O objetivo é oferecer uma visão técnica, integrada e atualizada, adequada ao contexto institucional de universidades, centros de pesquisa e laboratórios especializados.

Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


Evolução histórica do ensaio de dissolução

A preocupação com a liberação de fármacos remonta ao início do século XX, quando observações clínicas evidenciaram variações terapêuticas entre lotes aparentemente idênticos de medicamentos sólidos. Entretanto, foi a partir da década de 1950 que os ensaios de dissolução ganharam relevância sistemática, impulsionados por episódios de falhas terapêuticas associadas a formulações mal desenvolvidas.


Um marco importante ocorreu na década de 1960, quando a USP incorporou oficialmente o teste de dissolução como requisito compendial. A partir desse momento, consolidou-se o uso de aparatos padronizados, como os aparelhos de cesto (Apparatus 1) e pá (Apparatus 2), descritos na USP <711>. Esses dispositivos tornaram-se referência mundial e permanecem amplamente utilizados até hoje.


Nas décadas seguintes, a dissolução passou a ser reconhecida como ferramenta preditiva de desempenho in vivo, especialmente após o desenvolvimento do Sistema de Classificação Biofarmacêutica (BCS), proposto por Amidon et al. (1995). O BCS categoriza os fármacos segundo sua solubilidade e permeabilidade, estabelecendo critérios para isenção de estudos de bioequivalência in vivo (biowaivers) com base em perfis de dissolução comparativos.


No Brasil, a ANVISA incorporou progressivamente diretrizes alinhadas às normas internacionais, exigindo estudos de dissolução discriminativos e perfis comparativos para registro de medicamentos genéricos e similares, conforme resoluções como a RDC nº 31/2010 e atualizações subsequentes.


Fundamentos físico-químicos da dissolução

A dissolução é um processo governado por fenômenos de difusão e transferência de massa. A equação clássica que descreve a taxa de dissolução é a equação de Noyes-Whitney:

[\frac{dC}{dt} = \frac{D \cdot A}{h} (C_s - C)]

onde:

  • ( D ) é o coeficiente de difusão do soluto;

  • ( A ) é a área superficial da partícula;

  • ( h ) é a espessura da camada de difusão;

  • ( C_s ) é a solubilidade do fármaco no meio;

  • ( C ) é a concentração no tempo t.


Essa equação evidencia que fatores como tamanho de partícula, forma cristalina, pH do meio, viscosidade e agitação influenciam diretamente a taxa de dissolução.


No caso das cápsulas, há ainda a etapa preliminar de desintegração da invólucro — geralmente composto de gelatina ou hidroxipropilmetilcelulose (HPMC). A integridade e o comportamento desse invólucro impactam o início da liberação do conteúdo. Em cápsulas moles, a interação entre o invólucro e o conteúdo oleoso pode modificar a cinética de liberação.


Outro conceito central é o de condições “sink”, em que o volume de meio é suficiente para manter a concentração do fármaco significativamente abaixo de sua solubilidade máxima, garantindo que o gradiente de concentração seja mantido ao longo do ensaio.


Aspectos regulatórios e compendiais

As farmacopeias internacionais estabelecem parâmetros rigorosos para condução e aceitação dos ensaios de dissolução. Entre os principais documentos de referência destacam-se:

  • USP <711> – Dissolution

  • USP <724> – Drug Release

  • Farmacopeia Brasileira, 6ª edição

  • European Pharmacopoeia 2.9.3

  • Diretrizes ICH Q6A (Especificações) e ICH Q8 (Desenvolvimento Farmacêutico)


Esses documentos definem requisitos quanto a:

  • Tipo de aparato;

  • Velocidade de rotação;

  • Volume e composição do meio;

  • Temperatura (geralmente 37 ± 0,5 °C);

  • Critérios de aceitação (Q%).


A harmonização internacional promovida pelo ICH contribuiu para maior convergência regulatória, facilitando registros globais e reduzindo redundâncias analíticas.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Relação com biodisponibilidade e eficácia terapêutica

A dissolução é frequentemente o passo limitante na absorção de fármacos pouco solúveis (BCS Classe II e IV). Para esses compostos, pequenas variações na formulação podem resultar em alterações significativas na concentração plasmática.


Estudos demonstram que diferenças no perfil de dissolução podem impactar parâmetros farmacocinéticos como C_max e AUC. Por isso, a equivalência de perfis (f2 ≥ 50, conforme FDA e ANVISA) é critério amplamente utilizado para comparar medicamentos teste e referência.


Desenvolvimento farmacotécnico

Durante o desenvolvimento, o ensaio de dissolução é utilizado para:

  • Seleção de excipientes;

  • Avaliação de granulometria;

  • Comparação de formas polimórficas;

  • Estudo de revestimentos entéricos;

  • Otimização de cápsulas de liberação modificada.


Em formulações gastro-resistentes, por exemplo, realizam-se ensaios em duas etapas: meio ácido (simulando o estômago) seguido de meio tampão (simulando o intestino). A cápsula deve resistir à primeira etapa e liberar o fármaco apenas na segunda.


Indústria farmacêutica e controle de qualidade

No controle de qualidade de rotina, a dissolução atua como teste crítico de liberação de lote. A conformidade com especificações garante consistência entre lotes e estabilidade ao longo do prazo de validade.


Além disso, o ensaio é fundamental em estudos de estabilidade acelerada e de longa duração, conforme diretrizes ICH Q1A(R2). Alterações no perfil de dissolução podem indicar degradação do fármaco ou mudanças na matriz da cápsula.


Estudo de caso institucional

Em um estudo conduzido por um laboratório universitário brasileiro em parceria com indústria nacional, avaliou-se o impacto da redução do tamanho de partícula de um anti-inflamatório classe II do BCS. A micronização promoveu aumento de 35% na taxa de dissolução nos primeiros 15 minutos, resultando em melhor correlação in vitro–in vivo (IVIVC).


Esse exemplo ilustra como a dissolução pode ser utilizada estrategicamente para aprimorar desempenho terapêutico sem alterar o princípio ativo.


Metodologias de Análise


Aparatos de dissolução

Os principais equipamentos descritos na USP são:

Aparato

Descrição

Aplicação típica

1

Cesto rotatório

Cápsulas flutuantes

2

Cápsulas convencionais

3

Cilindro alternado

Liberação modificada

4

Fluxo contínuo

Fármacos pouco solúveis

A escolha depende das características da cápsula e do comportamento no meio.


Técnicas de quantificação

Após coleta das amostras em tempos determinados, a concentração dissolvida é medida por:

  • Espectrofotometria UV-Vis;

  • Cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC);

  • UPLC;

  • LC-MS, em casos específicos.


A HPLC é amplamente utilizada por sua seletividade e precisão, especialmente em formulações complexas ou com múltiplos componentes.


Validação e limitações

Os métodos devem ser validados conforme ICH Q2(R1), avaliando:

  • Especificidade;

  • Linearidade;

  • Precisão;

  • Exatidão;

  • Robustez.


Entre as limitações, destacam-se:

  • Dificuldade de simular condições fisiológicas reais;

  • Variabilidade interlaboratorial;

  • Sensibilidade a pequenas variações operacionais.


Avanços recentes incluem sistemas automatizados, amostragem on-line e modelagem computacional para IVIVC.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


A análise de dissolução em cápsulas consolidou-se como um dos pilares da garantia da qualidade farmacêutica. Seu papel ultrapassa a simples verificação compendial, integrando desenvolvimento, registro, monitoramento pós-mercado e inovação tecnológica.


À medida que novas moléculas com baixa solubilidade são desenvolvidas, cresce a necessidade de métodos mais discriminativos e preditivos. Tecnologias como microfluídica, modelagem fisiológica avançada e simulação in silico tendem a ampliar a capacidade de prever desempenho clínico a partir de dados laboratoriais.


No contexto institucional, investir em infraestrutura analítica robusta, qualificação técnica contínua e alinhamento regulatório é estratégico para universidades, centros de pesquisa e laboratórios industriais. A dissolução, quando conduzida com rigor científico e visão integrada, transforma-se em ferramenta de inovação e competitividade.


O futuro aponta para maior integração entre ensaios in vitro e modelos preditivos in vivo, consolidando a dissolução não apenas como teste de qualidade, mas como instrumento central no desenvolvimento racional de medicamentos mais seguros e eficazes.


A Importância de Escolher a Polaris Análises


Com anos de experiência no mercado, a Polaris Análises possui um histórico comprovado de sucesso em análises laboratoriais.


Empresas do setor alimentício, indústrias farmacêuticas, laboratórios e outros segmentos confiam na Polaris Análises para garantir a segurança e qualidade da água utilizada em suas atividades.


Evitar riscos de contaminação é um compromisso com a saúde de seus clientes e com a longevidade do seu negócio. Investir em análises periódicas é um diferencial que fortalece sua reputação e evita prejuízos futuros.


Para saber mais sobre os serviços da Polaris Análises - Análises de Ar, Água, Alimentos, Swab e Efluentes ligue para (11) 91776-7012 (WhatsApp) ou clique aqui e solicite seu orçamento.


❓ FAQs – Perguntas Frequentes


1. O que é o ensaio de dissolução em cápsulas?O ensaio de dissolução é um teste laboratorial que avalia a velocidade e a extensão com que o princípio ativo é liberado da cápsula para um meio líquido sob condições controladas. Ele simula, de forma padronizada, o ambiente fisiológico do trato gastrointestinal, permitindo estimar o comportamento do medicamento após a administração oral.


2. Qual é a diferença entre dissolução e desintegração?A desintegração refere-se à ruptura física da cápsula ou do seu invólucro, enquanto a dissolução envolve a passagem do fármaco para solução no meio de teste. Uma cápsula pode se desintegrar adequadamente, mas ainda apresentar perfil de dissolução inadequado, caso o princípio ativo não se solubilize de maneira eficiente.


3. Por que a dissolução é considerada um parâmetro crítico de qualidade?A dissolução está diretamente relacionada à biodisponibilidade do medicamento. Variações na taxa ou na extensão de dissolução podem impactar a absorção sistêmica e, consequentemente, a eficácia terapêutica. Por isso, trata-se de um requisito regulatório essencial para registro, controle de qualidade e comparações de equivalência farmacêutica.


4. Quais fatores podem influenciar o resultado do ensaio de dissolução?Diversos fatores interferem no desempenho da cápsula, como granulometria do fármaco, forma cristalina, tipo e proporção de excipientes, características do invólucro (gelatina ou HPMC), pH do meio de dissolução, velocidade de agitação e temperatura do ensaio. Pequenas variações nessas condições podem alterar significativamente o perfil obtido.


5. Como os resultados de dissolução são avaliados pelas autoridades regulatórias?Os resultados são comparados a critérios de aceitação estabelecidos em farmacopeias e diretrizes regulatórias, como USP, Farmacopeia Brasileira e normas da ANVISA e FDA. Em estudos comparativos, utiliza-se frequentemente o fator de similaridade (f2) para verificar equivalência entre perfis de dissolução de medicamentos teste e referência.


6. A análise de dissolução pode substituir estudos clínicos ou de bioequivalência?Em alguns casos específicos, especialmente para fármacos classificados como alta solubilidade e alta permeabilidade (BCS Classe I), perfis de dissolução robustos podem subsidiar pedidos de isenção de estudos in vivo (biowaiver). No entanto, essa substituição depende do enquadramento regulatório e do atendimento a critérios técnicos rigorosos.



Comentários


bottom of page