top of page

Vidro é “Mais Seguro”? O Que Estudos Recentes Sugerem Sobre Microplásticos.

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 6 de fev.
  • 7 min de leitura

Introdução


A crescente preocupação com a presença de microplásticos em ambientes naturais, cadeias alimentares e produtos de consumo tem provocado uma reavaliação crítica de materiais tradicionalmente considerados inertes ou seguros. Entre eles, o vidro frequentemente é percebido como uma alternativa mais confiável às embalagens plásticas, sobretudo no setor de alimentos, bebidas e cosméticos. Essa percepção baseia-se em características amplamente reconhecidas: estabilidade química, baixa permeabilidade e ausência de polímeros sintéticos suscetíveis à fragmentação.


No entanto, a expansão das pesquisas sobre microplásticos nos últimos quinze anos, impulsionada por avanços em técnicas analíticas como espectroscopia Raman e micro-FTIR, trouxe evidências que complexificam essa narrativa. Estudos recentes demonstram que a presença de microplásticos em produtos embalados não está necessariamente limitada ao material da embalagem primária. Processos industriais, etapas logísticas, tampas, revestimentos internos, selos e até o ambiente fabril podem contribuir para a introdução de partículas plásticas, mesmo quando o recipiente é de vidro.


O debate sobre a segurança do vidro, portanto, não deve ser conduzido sob uma lógica binária — plástico versus vidro — mas sim à luz de evidências científicas, avaliação de risco, contexto regulatório e análise do ciclo de vida dos materiais. Instituições de pesquisa, agências reguladoras e empresas do setor alimentício e farmacêutico enfrentam o desafio de interpretar dados ainda emergentes, frequentemente heterogêneos e metodologicamente diversos.


Este artigo examina criticamente a hipótese de que o vidro seria “mais seguro” frente à problemática dos microplásticos. Apresenta o contexto histórico do uso de materiais de embalagem, os fundamentos teóricos relacionados à formação e detecção de microplásticos, os impactos científicos e industriais do tema, as metodologias analíticas empregadas e, por fim, as perspectivas futuras para pesquisa e regulação. A abordagem adotada privilegia evidências científicas recentes, normas técnicas reconhecidas e implicações institucionais.



Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


A evolução dos materiais de embalagem

O vidro é um dos materiais manufaturados mais antigos da humanidade, com registros de uso que remontam à Mesopotâmia, cerca de 2.000 a.C. Ao longo dos séculos, consolidou-se como material de armazenamento de líquidos devido à sua inércia química e impermeabilidade. No século XX, com a ascensão da indústria petroquímica, polímeros como polietileno (PE), polipropileno (PP) e polietileno tereftalato (PET) passaram a substituir o vidro em larga escala, impulsionados por menor custo, leveza e versatilidade.


O avanço do plástico como material dominante coincidiu com sua crescente fragmentação ambiental. A partir da década de 1970, pesquisadores começaram a identificar partículas microscópicas derivadas da degradação de resíduos plásticos. Contudo, o termo “microplástico” consolidou-se apenas no início dos anos 2000, especialmente após os estudos de Richard Thompson e colaboradores na Universidade de Plymouth, que evidenciaram a ubiquidade dessas partículas nos oceanos.


Atualmente, microplásticos são definidos, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), como partículas plásticas menores que 5 mm, podendo ser primárias (produzidas intencionalmente nesse tamanho, como microesferas) ou secundárias (resultantes da fragmentação de objetos maiores).


Fundamentos da formação de microplásticos

A fragmentação de polímeros ocorre por processos físico-químicos como fotodegradação, oxidação térmica, abrasão mecânica e hidrólise. A presença de radiação UV, calor e tensão mecânica acelera a quebra das cadeias poliméricas, resultando em partículas cada vez menores, eventualmente atingindo dimensões nanométricas.


Embora o vidro em si não gere microplásticos, sua interação com componentes plásticos associados — como tampas com vedantes de PVC ou revestimentos internos epóxi — pode constituir fontes indiretas. Um estudo publicado na revista Food Additives & Contaminants (2023) identificou partículas poliméricas em bebidas acondicionadas em vidro, associando-as principalmente ao atrito da tampa durante o processo de abertura.


Marco regulatório e normativo

A regulação de microplásticos ainda se encontra em consolidação. A União Europeia, por meio da Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA), iniciou restrições a microplásticos intencionalmente adicionados a produtos cosméticos e industriais. Nos Estados Unidos, a Environmental Protection Agency (EPA) desenvolve protocolos para monitoramento ambiental, embora ainda não existam limites regulatórios específicos para ingestão humana.


No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) regula materiais em contato com alimentos por meio de resoluções como a RDC nº 91/2001 (embalagens e equipamentos em contato com alimentos), mas não há limites específicos estabelecidos para microplásticos em bebidas ou alimentos. A ABNT e a ISO vêm desenvolvendo diretrizes técnicas relacionadas à caracterização de partículas plásticas, como a ISO/TR 21960:2020, que trata da definição e categorização de plásticos no ambiente.


Essa lacuna regulatória reforça a necessidade de padronização metodológica e maior robustez científica para subsidiar decisões institucionais.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Evidências recentes sobre embalagens de vidro

Em 2024, um estudo conduzido pela Agência Francesa de Segurança Sanitária (ANSES) analisou águas minerais e refrigerantes acondicionados em vidro e plástico. Os resultados indicaram que, embora as garrafas PET apresentassem maior concentração média de microplásticos, amostras em vidro também continham partículas, muitas vezes associadas ao processo de engarrafamento.


Outro levantamento publicado na Environmental Science & Technology revelou que bebidas carbonatadas em vidro apresentavam partículas predominantemente de polipropileno, compatíveis com o material das tampas metálicas revestidas internamente.


Esses achados não implicam equivalência de risco entre vidro e plástico, mas indicam que a contaminação pode ocorrer independentemente do material predominante da embalagem.


Impacto na indústria alimentícia e farmacêutica

A indústria de bebidas premium tem adotado o vidro como estratégia de posicionamento sustentável e percepção de qualidade. Entretanto, a segurança do produto não depende exclusivamente do recipiente, mas de toda a cadeia produtiva: sistemas de envase, filtros de ar (HEPA), controle de partículas ambientais e qualificação de fornecedores de componentes secundários.


No setor farmacêutico, frascos de vidro são amplamente utilizados para injetáveis e soluções orais, devido à sua baixa interação química. Normas como a Farmacopeia Europeia (Ph. Eur.) e a USP <660> estabelecem critérios rigorosos para qualidade do vidro, mas não contemplam especificamente microplásticos externos ao frasco.


Perspectiva ambiental e ESG

Do ponto de vista ambiental, o vidro apresenta elevada reciclabilidade e estabilidade química. Entretanto, sua produção demanda maior consumo energético em comparação com o PET. Avaliações de ciclo de vida (ACV) indicam que a sustentabilidade depende da taxa de reutilização e reciclagem.


Empresas alinhadas a princípios ESG têm incorporado auditorias de contaminação particulada como parte de suas estratégias de governança ambiental, reconhecendo que a simples substituição de plástico por vidro não elimina riscos associados à presença de polímeros na cadeia produtiva.


Estudos de caso institucionais

Universidades europeias vêm implementando programas de monitoramento de microplásticos em água potável engarrafada distribuída em campi. Resultados preliminares sugerem que a adoção de protocolos de limpeza automatizados e inspeção de tampas reduziu significativamente a presença de partículas detectáveis.

Essas experiências indicam que o controle operacional é fator determinante na mitigação do risco.


Metodologias de Análise


A detecção de microplásticos requer abordagem multidisciplinar. Entre as principais técnicas empregadas destacam-se:


  • Microespectroscopia Raman: permite identificar composição polimérica com alta especificidade.

  • FTIR (Fourier Transform Infrared Spectroscopy): amplamente utilizada para caracterização química de partículas acima de 10 µm.

  • Microscopia eletrônica de varredura (MEV): empregada para análise morfológica.

  • Pirólise acoplada à cromatografia gasosa (Py-GC/MS): útil para quantificação de polímeros.


Normas internacionais, como a ISO 16094 (qualidade da água — análise de partículas microplásticas) e protocolos da AOAC, vêm sendo consolidadas para garantir reprodutibilidade e comparabilidade entre estudos.


Limitações metodológicas

A ausência de padronização global dificulta comparações diretas entre estudos. Diferenças em tamanho mínimo detectável, preparo de amostra e risco de contaminação cruzada impactam os resultados. Além disso, a distinção entre partículas ambientais e aquelas introduzidas durante o processamento analítico exige controles rigorosos.


Avanços recentes incluem automação de contagem por inteligência computacional e desenvolvimento de filtros com menor interferência espectral.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


A ideia de que o vidro seria intrinsecamente “mais seguro” frente à problemática dos microplásticos revela-se simplificadora quando confrontada com evidências científicas recentes. Embora o vidro não seja fonte direta de microplásticos, sua utilização não exclui a possibilidade de contaminação por componentes associados ou por processos industriais.


O desafio contemporâneo não reside apenas na escolha do material de embalagem, mas na implementação de sistemas integrados de controle de qualidade, rastreabilidade e monitoramento particulado. Instituições de pesquisa e agências reguladoras devem priorizar a padronização metodológica, o estabelecimento de limites orientativos baseados em avaliação toxicológica e a transparência na comunicação de riscos.


Futuras investigações deverão aprofundar a compreensão sobre biodisponibilidade, toxicocinética e possíveis efeitos crônicos da ingestão de micro e nanoplásticos. Paralelamente, a inovação tecnológica pode contribuir com soluções de vedação livres de polímeros convencionais e processos de envase com menor geração de partículas.


Para organizações comprometidas com excelência científica e responsabilidade socioambiental, o debate sobre vidro e microplásticos deve ser conduzido com base em evidências, evitando conclusões precipitadas. A segurança, em última instância, depende menos do material isolado e mais da governança técnica que orienta sua aplicação.


A Importância de Escolher a Polaris Análises


Com anos de experiência no mercado, a Polaris Análises possui um histórico comprovado de sucesso em análises laboratoriais.


Empresas do setor alimentício, indústrias farmacêuticas, laboratórios e outros segmentos confiam na Polaris Análises para garantir a segurança e qualidade da água utilizada em suas atividades.


Evitar riscos de contaminação é um compromisso com a saúde de seus clientes e com a longevidade do seu negócio. Investir em análises periódicas é um diferencial que fortalece sua reputação e evita prejuízos futuros.


Para saber mais sobre os serviços da Polaris Análises - Análises de Ar, Água, Alimentos, Swab e Efluentes ligue para (11) 91776-7012 (WhatsApp) ou clique aqui e solicite seu orçamento.


❓ FAQs – Perguntas Frequentes


1. O vidro elimina totalmente o risco de microplásticos em bebidas e alimentos? 

Não. O vidro, por ser um material inorgânico e quimicamente estável, não gera microplásticos. Entretanto, estudos recentes indicam que partículas poliméricas podem ser introduzidas por componentes associados, como tampas, vedantes, selos ou revestimentos internos, além de possíveis fontes no ambiente industrial.


2. Bebidas em garrafas de vidro contêm menos microplásticos do que em plástico? 

De modo geral, pesquisas apontam concentrações médias menores em comparação com embalagens plásticas como o PET. Contudo, a presença não é inexistente. Em alguns estudos, partículas detectadas em embalagens de vidro foram atribuídas ao atrito de tampas ou ao processo de envase.


3. Como os microplásticos são detectados em produtos embalados? 

A identificação é realizada por técnicas analíticas avançadas, como micro-FTIR, espectroscopia Raman, microscopia eletrônica de varredura (MEV) e pirólise acoplada à cromatografia gasosa (Py-GC/MS). Esses métodos permitem caracterizar a composição química e o tamanho das partículas com elevada precisão.


4. A contaminação pode ocorrer mesmo em linhas industriais controladas? 

Sim. Mesmo em ambientes com boas práticas de fabricação, partículas podem ser introduzidas por abrasão mecânica, falhas em sistemas de vedação, desgaste de equipamentos ou contaminação ambiental. Por isso, o controle particulado e a qualificação de fornecedores são medidas essenciais.


5. Existe limite regulatório para microplásticos em alimentos e bebidas? 

Atualmente, não há limites máximos específicos amplamente harmonizados em nível global para microplásticos em alimentos ou bebidas. Órgãos como a União Europeia, EPA e ANVISA acompanham o tema, mas a regulamentação ainda está em desenvolvimento, especialmente quanto à avaliação toxicológica.


6. A escolha pelo vidro é suficiente para garantir maior segurança sanitária? 

Não isoladamente. A segurança depende de uma abordagem sistêmica que inclua controle de processo, monitoramento analítico, rastreabilidade e avaliação de risco. O material da embalagem é apenas um dos fatores envolvidos na prevenção da contaminação por microplásticos.



Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.
bottom of page