Skincare e microplásticos: ingredientes, “claims” e os desafios regulatórios na indústria cosmética contemporânea
- Keller Dantara
- 11 de fev.
- 7 min de leitura
Introdução
A indústria de cosméticos atravessa um momento de inflexão. Se nas últimas décadas o foco esteve majoritariamente voltado à eficácia sensorial, estabilidade e performance dos produtos, hoje a agenda ambiental ocupa posição central nas decisões estratégicas de formulação. Nesse contexto, a discussão sobre microplásticos em produtos de skincare tornou-se um dos temas mais sensíveis para fabricantes, pesquisadores, agências reguladoras e consumidores.
Microplásticos são partículas sólidas de polímeros sintéticos com dimensões geralmente inferiores a 5 mm. Embora o debate tenha ganhado notoriedade pública a partir da contaminação marinha, estudos recentes indicam que essas partículas também podem estar presentes em cosméticos, seja como ingredientes intencionalmente adicionados — como esfoliantes poliméricos —, seja como componentes estruturais de sistemas formadores de filme, agentes de textura ou encapsuladores de ativos. Além disso, novas investigações sugerem que fragmentos plásticos podem migrar de embalagens para formulações sob determinadas condições físico-químicas.
A preocupação extrapola o impacto ambiental. A possível exposição humana, a persistência ambiental desses materiais e a dificuldade de remoção em estações de tratamento de efluentes consolidaram o tema como prioridade científica e regulatória. A União Europeia avançou em 2023 com restrições significativas por meio do Regulamento REACH, enquanto outros países, incluindo o Brasil, acompanham a evolução normativa e discutem critérios técnicos para definição e controle desses materiais.
Para instituições acadêmicas, centros de pesquisa e laboratórios de análise, o tema representa uma interface complexa entre química de polímeros, toxicologia, engenharia ambiental e ciência cosmética. Para empresas, envolve riscos reputacionais associados a “claims” como “livre de microplásticos”, cuja definição ainda carece de padronização internacional.
Este artigo examina, de forma aprofundada, os fundamentos científicos do tema, sua evolução histórica, os principais ingredientes envolvidos, o impacto regulatório e ambiental, as metodologias analíticas empregadas e as perspectivas futuras para o setor de skincare.

Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos
Da inovação tecnológica ao questionamento ambiental
O uso de polímeros sintéticos em cosméticos consolidou-se ao longo do século XX, especialmente a partir da expansão da indústria petroquímica no pós-guerra. Polímeros como polietileno (PE), polipropileno (PP), polimetilmetacrilato (PMMA), nylon e copolímeros acrílicos passaram a ser incorporados em formulações para conferir estabilidade reológica, formação de filme, controle de viscosidade e sensorial aprimorado.
Na década de 1990, microesferas de polietileno tornaram-se comuns em esfoliantes faciais e corporais. Seu tamanho controlado, uniformidade e baixo custo as tornaram alternativas competitivas a partículas naturais. Contudo, a partir dos anos 2000, estudos ambientais passaram a detectar partículas plásticas microscópicas em ambientes marinhos e de água doce. Pesquisas conduzidas por Thompson et al. (2004), publicadas na revista Science, consolidaram o termo “microplastics” no meio científico.
A presença desses materiais em organismos aquáticos e sua bioacumulação desencadearam um movimento regulatório global. Em 2015, os Estados Unidos aprovaram o Microbead-Free Waters Act, proibindo microesferas plásticas em cosméticos de enxágue. Países como Canadá e Reino Unido seguiram o mesmo caminho.
Definição técnica de microplásticos
A definição de microplásticos não é uniforme globalmente. Em termos gerais, considera-se:
Partículas sólidas de polímeros sintéticos
Tamanho inferior a 5 mm
Insolubilidade em água
Resistência à biodegradação
Entretanto, o Regulamento REACH (Regulation (EC) No 1907/2006), atualizado pela Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA) em 2023, adotou definição mais abrangente, incluindo partículas poliméricas sintéticas sólidas menores que 5 mm e fibras com comprimento inferior a 15 mm, desde que não sejam solúveis nem biodegradáveis.
Essa definição ampliada impacta significativamente a indústria cosmética, pois inclui não apenas microesferas, mas também polímeros utilizados como agentes filmógenos, estabilizantes e opacificantes.
Ingredientes sob escrutínio
Entre os ingredientes mais frequentemente associados à categoria de microplásticos estão:
Polyethylene (PE)
Polypropylene (PP)
Polymethyl Methacrylate (PMMA)
Nylon-6 e Nylon-12
Acrylates Copolymer
Polyurethane
Esses materiais desempenham funções tecnológicas importantes: controle de brilho, resistência à água, textura sedosa e estabilidade física da emulsão. Contudo, a avaliação regulatória considera não apenas a função cosmética, mas o destino ambiental.
Claims e rotulagem: uma zona cinzenta
A expressão “livre de microplásticos” tornou-se frequente no marketing cosmético. Entretanto, a ausência de padronização internacional gera divergências interpretativas. Alguns fabricantes restringem a definição a microesferas sólidas visíveis; outros incluem polímeros solúveis; outros ainda excluem apenas partículas intencionalmente adicionadas.
Na Alemanha, a organização BUND propôs critérios mais rigorosos, incluindo polímeros líquidos sintéticos na definição ampliada. Isso evidencia a complexidade do debate: do ponto de vista químico, nem todo polímero sintético se comporta como microplástico ambientalmente persistente.
Importância Científica e Aplicações Práticas
Impacto ambiental
Estudos conduzidos pela Agência Europeia do Meio Ambiente (EEA) estimam que microplásticos intencionalmente adicionados a produtos podem representar dezenas de milhares de toneladas liberadas anualmente no ambiente europeu. Embora cosméticos não sejam a principal fonte — têxteis sintéticos e pneus respondem por parcela maior —, o setor cosmético é particularmente visado por envolver produtos de uso direto e contínuo.
Microplásticos de enxágue podem atingir sistemas de tratamento de esgoto. Embora muitas estações removam parte significativa das partículas por sedimentação e flotação, partículas menores que 100 µm podem escapar e alcançar corpos hídricos.
Exposição humana
Estudos recentes identificaram microplásticos em água potável, alimentos e até em tecidos humanos. Pesquisa publicada na revista Environmental International (2022) detectou partículas plásticas em amostras de sangue humano. Embora ainda não haja consenso sobre implicações toxicológicas, a comunidade científica investiga possíveis efeitos inflamatórios e interação com disruptores endócrinos associados a certos aditivos plásticos.
No contexto cosmético, a exposição dérmica direta exige avaliação toxicológica diferenciada. Polímeros de alto peso molecular geralmente apresentam baixa penetração cutânea. Contudo, nanopartículas ou fragmentos secundários requerem investigação específica.
Desafios para a indústria cosmética
A reformulação de produtos representa desafio técnico e econômico. Polímeros sintéticos frequentemente garantem:
Estabilidade térmica
Resistência à água
Sensorial suave
Formação de filme uniforme
Substitutos naturais ou biodegradáveis, como celulose microcristalina, sílica, amidos modificados ou polímeros derivados de algas, apresentam comportamento reológico distinto, podendo alterar textura e prazo de validade.
Empresas de grande porte vêm investindo em polímeros biodegradáveis de origem renovável, alinhando inovação com sustentabilidade. Instituições de pesquisa colaboram no desenvolvimento de biopolímeros com desempenho comparável aos sintéticos.
Estudo de caso: reformulação de esfoliantes
Após a proibição de microesferas nos Estados Unidos, marcas substituíram polietileno por partículas de sílica, sementes moídas ou celulose. Estudos comparativos indicaram que partículas naturais podem apresentar distribuição granulométrica menos uniforme, exigindo controle rigoroso de abrasividade para evitar danos à barreira cutânea.
Esse exemplo ilustra que a eliminação de microplásticos não é apenas decisão de marketing, mas um processo técnico complexo que envolve engenharia de materiais, testes dermatológicos e validação regulatória.
Metodologias de Análise
A detecção e quantificação de microplásticos em cosméticos e efluentes requerem métodos analíticos robustos. Entre as técnicas mais utilizadas destacam-se:
Espectroscopia no infravermelho por transformada de Fourier (FTIR)
A micro-FTIR permite identificar polímeros por meio de suas assinaturas espectrais. É amplamente utilizada para caracterização de partículas isoladas. Protocolos seguem diretrizes da ISO 10694 para análise de carbono e metodologias adaptadas de laboratórios ambientais.
Espectroscopia Raman
Permite identificação química com alta resolução espacial, sendo particularmente útil para partículas menores que 20 µm. Contudo, pode sofrer interferência de fluorescência.
Cromatografia por pirólise acoplada à GC-MS
A pirólise térmica seguida de cromatografia gasosa com espectrometria de massas (Py-GC/MS) permite identificar polímeros por seus produtos de degradação térmica. É técnica sensível, empregada em estudos ambientais e de materiais.
Microscopia eletrônica
Microscopia eletrônica de varredura (MEV) associada à espectroscopia por dispersão de energia (EDS) permite caracterização morfológica e elementar das partículas.
Desafios metodológicos
A ausência de métodos padronizados internacionalmente ainda é obstáculo significativo. Organizações como ISO e OECD trabalham na harmonização de protocolos para microplásticos ambientais. A quantificação em matrizes cosméticas complexas — ricas em óleos, surfactantes e emulsificantes — exige etapas de digestão química seletiva para remoção da matriz orgânica sem degradar o polímero.
Além disso, limites de detecção variam conforme a técnica, dificultando comparações interlaboratoriais.
Considerações Finais e Perspectivas Futuras
O debate sobre microplásticos em skincare reflete transformação mais ampla na indústria cosmética: da busca exclusiva por performance sensorial para uma abordagem integrada que considera ciclo de vida, impacto ambiental e responsabilidade social.
Do ponto de vista científico, ainda há lacunas importantes. A toxicocinética de partículas poliméricas em exposição crônica dérmica requer investigação adicional. Estudos de biodegradabilidade real em ambientes naturais são fundamentais para diferenciar polímeros persistentes de materiais efetivamente degradáveis.
No âmbito regulatório, a tendência aponta para definições mais abrangentes e harmonizadas internacionalmente. Empresas que anteciparem adaptações regulatórias e investirem em inovação sustentável estarão melhor posicionadas competitivamente.
Instituições acadêmicas e laboratórios desempenham papel estratégico ao desenvolver métodos analíticos mais sensíveis, validar alternativas biodegradáveis e produzir evidências científicas que orientem políticas públicas.
A evolução do skincare sustentável dependerá da convergência entre ciência dos materiais, toxicologia, engenharia ambiental e governança regulatória. Mais do que remover ingredientes específicos, trata-se de redesenhar cadeias produtivas com base em evidências científicas sólidas e compromisso institucional com a sustentabilidade.
A Importância de Escolher a Polaris Análises
Com anos de experiência no mercado, a Polaris Análises possui um histórico comprovado de sucesso em análises laboratoriais.
Empresas do setor alimentício, indústrias farmacêuticas, laboratórios e outros segmentos confiam na Polaris Análises para garantir a segurança e qualidade da água utilizada em suas atividades.
Evitar riscos de contaminação é um compromisso com a saúde de seus clientes e com a longevidade do seu negócio. Investir em análises periódicas é um diferencial que fortalece sua reputação e evita prejuízos futuros.
Para saber mais sobre os serviços da Polaris Análises - Análises de Ar, Água, Alimentos, Swab e Efluentes ligue para (11) 91776-7012 (WhatsApp) ou clique aqui e solicite seu orçamento.
❓ FAQs – Perguntas Frequentes
1. O que são microplásticos em produtos de skincare?Microplásticos são partículas sólidas de polímeros sintéticos, geralmente menores que 5 mm, utilizadas intencionalmente em formulações cosméticas ou presentes como subprodutos de degradação. No contexto do skincare, podem atuar como agentes esfoliantes, formadores de filme, modificadores de textura ou estabilizantes de formulação, desde que não sejam solúveis nem biodegradáveis segundo critérios regulatórios vigentes.
2. Todo polímero sintético em cosméticos é considerado microplástico?Não necessariamente. A classificação depende de critérios técnicos como tamanho da partícula, solubilidade, biodegradabilidade e persistência ambiental. Regulamentos como o REACH, da União Europeia, adotam definições específicas que incluem partículas sólidas sintéticas abaixo de determinados limites dimensionais, excluindo polímeros solúveis ou naturalmente degradáveis.
3. Quais ingredientes exigem maior atenção regulatória?Ingredientes como Polyethylene (PE), Polypropylene (PP), Polymethyl Methacrylate (PMMA), Nylon-6, Nylon-12 e copolímeros acrílicos estão entre os mais analisados, especialmente quando utilizados em forma particulada. A avaliação considera não apenas sua função cosmética, mas também seu potencial de persistência ambiental e impacto em sistemas aquáticos.
4. O claim “livre de microplásticos” possui definição padronizada?Ainda não existe uma padronização global definitiva para o uso desse claim. Diferentes organizações e países adotam critérios distintos, o que pode gerar interpretações variadas. Por isso, recomenda-se que empresas fundamentem a declaração em definições técnicas claras, alinhadas a regulamentações reconhecidas e documentação comprobatória.
5. A presença de microplásticos em skincare representa risco direto à saúde humana?As evidências científicas indicam que polímeros de alto peso molecular apresentam baixa penetração cutânea. No entanto, estudos continuam investigando possíveis efeitos relacionados à exposição cumulativa e ao impacto ambiental indireto. A avaliação toxicológica deve considerar características físico-químicas específicas de cada material.
6. Como a indústria pode substituir microplásticos mantendo desempenho técnico?A substituição envolve pesquisa e desenvolvimento de alternativas como sílica, celulose microcristalina, amidos modificados e biopolímeros biodegradáveis. Esse processo exige validação de estabilidade, segurança dermatológica e desempenho sensorial, além de adequação às normas regulatórias aplicáveis.
_edited.png)



Comentários