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Shampoos e Condicionadores: Onde os Microplásticos Podem “Entrar” na Cadeia.

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 5 de jan.
  • 6 min de leitura

Introdução


A discussão sobre microplásticos deixou de ser restrita a oceanógrafos e especialistas em poluição marinha para ocupar um espaço central em debates regulatórios, industriais e científicos. Nos últimos anos, a identificação de partículas plásticas microscópicas em ambientes aquáticos, solos, organismos marinhos e, mais recentemente, em tecidos humanos, ampliou significativamente o escopo da preocupação. Se, em um primeiro momento, a atenção esteve voltada às chamadas microesferas plásticas adicionadas intencionalmente a cosméticos esfoliantes, hoje o foco se desloca para fontes menos evidentes — entre elas, formulações complexas de shampoos e condicionadores.


Esses produtos, de uso cotidiano e consumo massivo, fazem parte de uma cadeia produtiva que envolve extração de matérias-primas petroquímicas, síntese de polímeros, formulação cosmética, distribuição, uso doméstico e descarte via sistemas de esgotamento sanitário. Ao longo dessa cadeia, diferentes tipos de polímeros sintéticos — alguns solúveis, outros particulados, outros ainda classificados como microplásticos secundários — podem ser incorporados, transformados ou liberados no ambiente.


O tema assume especial relevância para laboratórios, centros de pesquisa e indústrias cosméticas, sobretudo diante de avanços regulatórios na União Europeia e discussões emergentes no Brasil. A definição técnica de microplástico, os critérios de classificação de polímeros, a biodegradabilidade e os métodos analíticos de detecção são pontos que exigem abordagem científica rigorosa. Além disso, há implicações diretas para sistemas de tratamento de efluentes, monitoramento ambiental, avaliação de risco toxicológico e conformidade regulatória.


Este artigo examina, sob perspectiva acadêmica e institucional, os pontos de entrada de microplásticos na cadeia associada a shampoos e condicionadores. Serão discutidos o contexto histórico e regulatório do tema, os fundamentos químicos e tecnológicos envolvidos, os impactos ambientais e industriais, as metodologias analíticas empregadas para identificação dessas partículas e, por fim, as perspectivas futuras para pesquisa e inovação.



Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


A Emergência do Conceito de Microplástico


O termo “microplástico” passou a ganhar notoriedade científica no início dos anos 2000, especialmente após publicações de pesquisadores da Universidade de Plymouth, no Reino Unido, que identificaram partículas plásticas inferiores a 5 mm em ambientes marinhos. A definição mais amplamente aceita — partículas sólidas poliméricas com dimensão inferior a 5 mm, insolúveis em água — consolidou-se em documentos técnicos e relatórios da Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA).


Inicialmente, distinguiam-se microplásticos primários (produzidos intencionalmente nessa escala, como microesferas em cosméticos) e microplásticos secundários (resultantes da fragmentação de plásticos maiores). Com o avanço das pesquisas, essa classificação mostrou-se insuficiente para abranger polímeros solúveis, elastômeros e copolímeros amplamente utilizados na indústria cosmética.


Polímeros em Shampoos e Condicionadores


Shampoos e condicionadores são formulações complexas compostas por surfactantes, agentes condicionantes, espessantes, conservantes, fragrâncias e polímeros funcionais. Entre os polímeros frequentemente utilizados estão:


  • Poliquatérnios (ex.: Polyquaternium-7, Polyquaternium-10)

  • Acrilatos e copolímeros acrílicos

  • Dimeticona e outros silicones

  • Carbômeros (ácido poliacrílico reticulado)


Embora muitos desses materiais sejam hidrossolúveis, há debate científico sobre sua persistência ambiental e possível contribuição para a carga de microplásticos secundários após processos de degradação ou agregação.


Do ponto de vista químico, polímeros sintéticos são macromoléculas formadas por unidades repetitivas derivadas, em sua maioria, de monômeros petroquímicos. Sua estabilidade química, resistência à biodegradação e propriedades reológicas tornam-nos altamente eficientes em aplicações cosméticas — mas também potencialmente persistentes no ambiente.


Marcos Regulatórios


A União Europeia tem liderado a discussão regulatória. Em 2023, a Comissão Europeia aprovou restrições graduais ao uso de microplásticos adicionados intencionalmente a produtos, incluindo cosméticos, com base em recomendações da ECHA. A definição regulatória ampliada incluiu partículas poliméricas sólidas insolúveis e não biodegradáveis.


Nos Estados Unidos, o Microbead-Free Waters Act (2015) proibiu microesferas plásticas em produtos enxaguáveis. Já no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) ainda não estabeleceu regulamentação específica para microplásticos em cosméticos, embora discussões estejam em curso no âmbito ambiental e sanitário.


Normas técnicas relevantes incluem:


  • ISO 22716 – Boas Práticas de Fabricação de Cosméticos

  • ABNT NBR 10004 – Classificação de Resíduos

  • Diretrizes da EPA para monitoramento de poluentes emergentes


O avanço regulatório pressiona a indústria a revisar formulações e a investir em alternativas biodegradáveis ou de base biotecnológica.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Microplásticos na Cadeia Ambiental


Quando shampoos e condicionadores são utilizados, seus componentes seguem para sistemas de esgoto doméstico. Estudos indicam que estações de tratamento de efluentes (ETEs) removem parte significativa das partículas sólidas, mas não garantem eliminação total de microplásticos.


Pesquisa publicada na revista Environmental Science & Technology estimou que ETEs podem reter até 95% das partículas maiores, porém liberam frações menores ou associadas a matrizes dissolvidas. Parte do material retido pode ainda ser incorporada ao lodo, posteriormente aplicado em solos agrícolas, transferindo a contaminação para outro compartimento ambiental.


Cadeia Cosmética e Responsabilidade Industrial


A indústria cosmética movimenta bilhões de dólares globalmente. O desafio atual não se limita à substituição de microesferas visíveis, mas à reavaliação de polímeros estruturais.


Empresas multinacionais têm investido em biopolímeros derivados de celulose, amido modificado ou fermentação microbiana. Instituições de pesquisa colaboram com a indústria no desenvolvimento de materiais com desempenho equivalente e menor impacto ambiental.


Impacto na Saúde Humana


Estudos recentes identificaram microplásticos em sangue humano, pulmões e placenta. Embora a toxicidade ainda esteja sob investigação, há evidências de que partículas nanométricas podem atravessar barreiras biológicas.


No caso específico de shampoos e condicionadores, a exposição é predominantemente indireta (ambiental). Entretanto, a presença de polímeros persistentes em águas superficiais pode contribuir para bioacumulação em cadeias alimentares aquáticas.


Metodologias de Análise


A detecção de microplásticos em matrizes cosméticas e ambientais exige metodologias sofisticadas.


Técnicas Espectroscópicas


  • FTIR (Espectroscopia no Infravermelho por Transformada de Fourier)

  • Raman


Essas técnicas permitem identificação do tipo polimérico por meio de “impressões digitais” espectrais.


Cromatografia e Análises Térmicas


  • Pirólise acoplada à GC-MS

  • HPLC para aditivos associados


A pirólise-GC-MS é considerada padrão ouro para identificação de polímeros complexos.


Protocolos e Normas


  • ISO/TR 21960 (plásticos no ambiente)

  • Diretrizes da NOAA para monitoramento marinho

  • Métodos adaptados do Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater (SMWW)


Limitações


A ausência de padronização global dificulta comparabilidade de dados. Além disso, polímeros solúveis representam desafio analítico, exigindo métodos de precipitação ou fracionamento.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


A discussão sobre microplásticos em shampoos e condicionadores transcende a formulação cosmética e alcança a sustentabilidade sistêmica da cadeia produtiva. A ciência ainda busca compreender plenamente os impactos de polímeros solúveis e partículas nanométricas.


Instituições de pesquisa desempenham papel estratégico no desenvolvimento de metodologias analíticas robustas, avaliação de risco e inovação em materiais biodegradáveis. A integração entre indústria, órgãos reguladores e comunidade científica será determinante para estabelecer critérios claros e soluções tecnicamente viáveis.


O futuro aponta para:


  • Polímeros de base biotecnológica

  • Avaliação de ciclo de vida (ACV) integrada

  • Monitoramento ambiental contínuo

  • Harmonização regulatória internacional


Ao reconhecer onde e como microplásticos podem “entrar” na cadeia associada a shampoos e condicionadores, abre-se espaço para uma transição baseada em evidências científicas, responsabilidade institucional e compromisso ambiental de longo prazo.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


1. O que são microplásticos no contexto de shampoos e condicionadores? 

Microplásticos são partículas sólidas de polímeros sintéticos, geralmente menores que 5 mm, insolúveis em água e resistentes à degradação. No contexto cosmético, podem estar presentes como ingredientes adicionados intencionalmente (como microesferas, atualmente restritas em vários países) ou resultar da degradação de polímeros sintéticos utilizados para conferir viscosidade, condicionamento e estabilidade às formulações.

2. Shampoos e condicionadores ainda contêm microplásticos adicionados intencionalmente? 

Em muitos países, especialmente na União Europeia e nos Estados Unidos, microesferas plásticas sólidas adicionadas intencionalmente a produtos enxaguáveis já foram proibidas ou estão em fase de restrição. No entanto, outros polímeros sintéticos continuam sendo utilizados por suas propriedades técnicas, e sua classificação como microplásticos depende de critérios regulatórios específicos, como solubilidade, tamanho de partícula e biodegradabilidade.

3. Como os microplásticos podem “entrar” na cadeia ambiental por meio desses produtos? 

Após o uso, shampoos e condicionadores são descartados via sistema de esgoto. Embora estações de tratamento de efluentes removam parte das partículas sólidas, frações menores podem atravessar o sistema e alcançar corpos hídricos. Além disso, partículas retidas no lodo podem ser transferidas ao solo quando esse material é utilizado como fertilizante, ampliando a dispersão ambiental.

4. Polímeros solúveis também representam risco ambiental? 

A avaliação de risco de polímeros solúveis ainda está em desenvolvimento científico. Embora não se enquadrem tecnicamente como microplásticos sólidos, alguns podem apresentar baixa biodegradabilidade ou formar agregados no ambiente. Por isso, órgãos reguladores e pesquisadores vêm ampliando o debate sobre critérios de persistência e impacto ecológico.

5. Como os microplásticos são identificados em produtos cosméticos ou no ambiente? 

A identificação é realizada por técnicas analíticas avançadas, como espectroscopia no infravermelho (FTIR), espectroscopia Raman e pirólise acoplada à cromatografia gasosa e espectrometria de massas (Py-GC/MS). Esses métodos permitem caracterizar o tipo de polímero, estimar concentrações e diferenciar partículas plásticas de outros materiais orgânicos ou minerais.

6. A presença de microplásticos em shampoos representa risco direto à saúde humana? 

O risco direto por contato dérmico em produtos enxaguáveis é considerado baixo segundo as evidências atuais. A principal preocupação está relacionada ao impacto ambiental e à possível bioacumulação indireta na cadeia alimentar. Estudos recentes investigam a presença de partículas plásticas em tecidos humanos, mas ainda não há consenso científico sobre os efeitos toxicológicos de longo prazo.



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