top of page

Parâmetros Obrigatórios para Água na Indústria Farmacêutica: Fundamentos Científicos, Exigências Regulatórias e Desafios Contemporâneos

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 27 de jan.
  • 7 min de leitura

Introdução


A água é, simultaneamente, a substância mais simples do ponto de vista químico e uma das mais complexas sob a perspectiva industrial e regulatória. Na indústria farmacêutica, ela não é apenas um insumo: é matéria-prima, veículo, reagente, solvente, agente de limpeza e componente crítico em formulações estéreis e não estéreis. Em muitos processos produtivos, a água representa o maior volume utilizado e, paradoxalmente, o maior risco potencial à qualidade do produto final.


A criticidade da água em ambientes farmacêuticos decorre de dois fatores centrais. O primeiro é sua capacidade de dissolver, transportar e interagir com inúmeras substâncias — incluindo contaminantes microbiológicos, endotoxinas, metais, compostos orgânicos e resíduos químicos. O segundo é o rigor regulatório que envolve a fabricação de medicamentos, produtos biológicos, vacinas e dispositivos médicos, cujos padrões de qualidade são definidos por farmacopeias internacionais e por agências reguladoras como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), a U.S. Food and Drug Administration (FDA) e a European Medicines Agency (EMA).


Os parâmetros obrigatórios para água na indústria farmacêutica não se limitam à potabilidade. Dependendo da aplicação, são exigidas especificações rigorosas para Água Purificada (AP), Água para Injetáveis (WFI – Water for Injection), Água Altamente Purificada (HPW) e outros graus definidos por compêndios oficiais como a United States Pharmacopeia (USP), a European Pharmacopoeia (Ph. Eur.) e a Farmacopeia Brasileira.


Este artigo examina, de forma aprofundada, os parâmetros físico-químicos e microbiológicos obrigatórios para água na indústria farmacêutica, contextualizando sua evolução histórica, seus fundamentos científicos e suas aplicações práticas. Serão abordados os principais marcos regulatórios, os riscos associados à não conformidade, as metodologias analíticas utilizadas no monitoramento e as tendências tecnológicas que vêm transformando a gestão da qualidade da água em ambientes regulados.


Ao compreender os critérios técnicos que definem a qualidade da água farmacêutica, torna-se possível não apenas atender às exigências normativas, mas também fortalecer a cultura de qualidade, reduzir riscos sanitários e garantir a segurança do paciente — finalidade última de toda atividade farmacêutica.

Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


Evolução do Conceito de Água Farmacêutica

Historicamente, a água utilizada na fabricação de medicamentos era tratada sob critérios semelhantes aos da água potável. Com o avanço da microbiologia no século XIX, especialmente após os trabalhos de Pasteur e Koch, consolidou-se o entendimento de que a simples ausência de turbidez não era sinônimo de segurança microbiológica.


A consolidação das Boas Práticas de Fabricação (BPF), formalizadas ao longo do século XX e sistematizadas internacionalmente pelo World Health Organization (WHO), introduziu a necessidade de qualificação de sistemas de utilidades, incluindo água e ar comprimido. A partir da década de 1970, as farmacopeias passaram a definir especificações específicas para Água Purificada e Água para Injetáveis, distinguindo requisitos de condutividade, carbono orgânico total (TOC), contagem microbiana e endotoxinas bacterianas.


A introdução do teste de TOC como substituto parcial de ensaios clássicos de oxidação (como o teste de permanganato) marcou um avanço significativo. O TOC passou a representar um parâmetro global de contaminação orgânica, alinhado à necessidade de métodos mais sensíveis e reprodutíveis.


Classificação dos Tipos de Água Farmacêutica

De acordo com a USP e a Farmacopeia Brasileira, os principais tipos de água utilizados na indústria farmacêutica incluem:

  • Água Potável (Drinking Water): ponto de partida para sistemas de purificação.

  • Água Purificada (Purified Water): obtida por processos como osmose reversa, deionização e ultrafiltração.

  • Água para Injetáveis (WFI): tradicionalmente produzida por destilação, com requisitos rigorosos de endotoxinas.

  • Água Estéril para Injetáveis: embalada e esterilizada, destinada ao uso direto.


A WFI, por exemplo, deve apresentar níveis de endotoxinas inferiores a 0,25 UE/mL, conforme compêndios internacionais. Essa exigência decorre do risco de reações pirogênicas graves em pacientes expostos a produtos parenterais contaminados.


Fundamentos Físico-Químicos dos Parâmetros Obrigatórios

Os parâmetros obrigatórios para água farmacêutica podem ser agrupados em três grandes categorias:

  1. Parâmetros físico-químicos

  2. Parâmetros microbiológicos

  3. Parâmetros relacionados a endotoxinas e contaminantes específicos


Entre os principais ensaios físico-químicos destacam-se:

  • Condutividade elétrica: indicador indireto de íons dissolvidos.

  • Carbono Orgânico Total (TOC): medida global de matéria orgânica.

  • pH: relevante em aplicações específicas.

  • Nitratos e metais pesados (em casos específicos).


A condutividade é especialmente relevante, pois íons como sódio, cloreto e cálcio interferem na estabilidade de formulações. A USP estabelece limites específicos de condutividade em função da temperatura, reforçando a importância da padronização das medições.


O TOC, por sua vez, tornou-se um dos principais parâmetros globais de qualidade. Valores típicos para Água Purificada e WFI são ≤ 500 ppb, refletindo a necessidade de controle rigoroso de compostos orgânicos que possam atuar como nutrientes para microrganismos.


Parâmetros Microbiológicos e Endotoxinas

A água farmacêutica é particularmente suscetível à formação de biofilmes em sistemas de distribuição. Microrganismos como Pseudomonas spp., Burkholderia cepacia e bactérias Gram-negativas são frequentemente associados a contaminações em sistemas mal controlados.


Além da contagem microbiana total (geralmente expressa em UFC/mL), a detecção de endotoxinas bacterianas é crítica em WFI. O ensaio de LAL (Limulus Amebocyte Lysate) tornou-se padrão internacional para essa análise, substituindo progressivamente testes in vivo em coelhos.


A presença de endotoxinas, mesmo na ausência de bactérias viáveis, pode desencadear febre, choque séptico e eventos adversos graves, justificando os limites extremamente restritivos adotados pelas farmacopeias.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Impacto na Segurança do Paciente

Estudos publicados em periódicos como o Journal of Pharmaceutical Sciences demonstram que falhas em sistemas de água estão entre as causas recorrentes de desvios críticos em inspeções regulatórias. A contaminação da água pode resultar em recolhimentos (recalls), interdições sanitárias e danos à reputação institucional.


Produtos estéreis, como soluções parenterais, são particularmente sensíveis. Em 2012, por exemplo, um surto de meningite fúngica nos Estados Unidos, associado à contaminação de medicamentos injetáveis, reforçou a necessidade de controle rigoroso das utilidades críticas.


Aplicações em Diferentes Segmentos

A água farmacêutica é utilizada em:

  • Produção de comprimidos e xaropes.

  • Limpeza CIP (Cleaning in Place) de equipamentos.

  • Formulação de vacinas e biológicos.

  • Produção de hemoderivados.


Em cada aplicação, o grau de pureza exigido varia. Em processos de limpeza final de equipamentos destinados a produtos estéreis, por exemplo, exige-se WFI. Já na etapa inicial de granulação úmida, pode-se utilizar Água Purificada.


Estudo de Caso: Gestão Integrada de Sistemas de Água

Indústrias farmacêuticas de grande porte adotam sistemas integrados de monitoramento contínuo, com sensores online de condutividade e TOC, integrados a sistemas SCADA. Essa abordagem permite identificar tendências de degradação antes que ocorram desvios críticos.


Benchmarks internacionais indicam que empresas que implementam monitoramento contínuo reduzem em até 40% a ocorrência de desvios relacionados à água, segundo relatórios da Parenteral Drug Association (PDA).


Sustentabilidade e Eficiência

A produção de WFI por destilação é energeticamente intensiva. Nos últimos anos, a Ph. Eur. passou a aceitar a produção de WFI por dupla osmose reversa combinada a ultrafiltração, desde que validada. Essa mudança representa um marco na busca por eficiência energética e redução de impacto ambiental.


Metodologias de Análise


Carbono Orgânico Total (TOC)

A análise de TOC baseia-se na oxidação do carbono orgânico a dióxido de carbono, seguido de detecção por infravermelho. Métodos reconhecidos estão descritos na USP <643>.


Limitações incluem interferência de compostos voláteis e necessidade de calibração rigorosa.


Condutividade

Descrita na USP <645>, a análise de condutividade é realizada em múltiplas etapas (Stage 1, 2 e 3), dependendo da conformidade inicial. É um método rápido, porém não específico.


Endotoxinas – Teste LAL

O teste LAL pode ser realizado por métodos gel-clot, turbidimétrico ou cromogênico. Normas como a USP <85> detalham procedimentos e critérios de aceitação.


Contagem Microbiana

Realizada por filtração por membrana ou plaqueamento direto, com incubação em meios específicos. A tendência atual inclui métodos rápidos microbiológicos (RMM), como bioluminescência e PCR quantitativo.


Conformidade com Normas

Além das farmacopeias, normas ISO relevantes incluem a International Organization for Standardization, especialmente a ISO 9001 (gestão da qualidade) e ISO 14644 (salas limpas).


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


A água na indústria farmacêutica transcende a condição de utilidade operacional para assumir o papel de insumo crítico, diretamente relacionado à segurança do paciente e à integridade do produto. Os parâmetros obrigatórios — físico-químicos, microbiológicos e endotoxinas — refletem décadas de evolução científica e regulatória.


O futuro aponta para maior digitalização, monitoramento em tempo real e integração de dados analíticos com sistemas de gestão de risco. Tecnologias como sensores inteligentes, análise preditiva e métodos rápidos microbiológicos tendem a redefinir a forma como sistemas de água são qualificados e monitorados.


Instituições que investem em qualificação robusta, validação contínua e cultura de qualidade não apenas atendem às exigências regulatórias, mas consolidam sua credibilidade científica e institucional. Em um setor em que a margem para erro é praticamente inexistente, a excelência no controle da água é, em última instância, uma expressão concreta do compromisso com a saúde pública.


O avanço científico, aliado à harmonização regulatória internacional, continuará a moldar os parâmetros obrigatórios da água farmacêutica. Cabe às organizações acompanhar essa evolução com rigor técnico, visão estratégica e responsabilidade sanitária.


A Importância de Escolher a Polaris Análises


Com anos de experiência no mercado, a Polaris Análises possui um histórico comprovado de sucesso em análises laboratoriais.


Empresas do setor alimentício, indústrias farmacêuticas, laboratórios e outros segmentos confiam na Polaris Análises para garantir a segurança e qualidade da água utilizada em suas atividades.


Evitar riscos de contaminação é um compromisso com a saúde de seus clientes e com a longevidade do seu negócio. Investir em análises periódicas é um diferencial que fortalece sua reputação e evita prejuízos futuros.


Para saber mais sobre os serviços da Polaris Análises - Análises de Ar, Água, Alimentos, Swab e Efluentes ligue para (11) 91776-7012 (WhatsApp) ou clique aqui e solicite seu orçamento.


❓ FAQs – Perguntas Frequentes


1. Por que é importante contratar um laboratório especializado para análises de água, ar e alimentos? A contratação de um laboratório especializado garante que as análises sejam realizadas conforme normas técnicas reconhecidas, utilizando metodologias validadas e equipamentos calibrados. Isso assegura resultados confiáveis, fundamentais para tomada de decisão, conformidade regulatória e proteção da saúde pública.


2. Quais segmentos podem se beneficiar dos serviços da Polaris Análises? Empresas do setor alimentício, indústrias farmacêuticas, laboratórios, hospitais, condomínios, indústrias cosméticas e estabelecimentos que dependem de controle sanitário rigoroso podem se beneficiar das análises de água, ar, alimentos, swab de superfícies e efluentes.


3. Como as análises laboratoriais contribuem para evitar riscos de contaminação? As análises permitem identificar precocemente a presença de microrganismos, resíduos químicos, metais, matéria orgânica ou outras não conformidades. Com base nos resultados, é possível implementar ações corretivas antes que o problema gere impactos maiores, como interdições, multas ou danos à reputação.


4. Com que frequência devem ser realizadas análises de água e monitoramentos ambientais? A periodicidade depende da legislação aplicável, do segmento de atuação e do grau de risco do processo produtivo. Em geral, recomenda-se monitoramento periódico, com cronogramas definidos em plano de controle sanitário ou programa de boas práticas.


5. O que é a análise de swab e por que ela é importante? A análise de swab consiste na coleta de amostras de superfícies para verificar a eficácia dos procedimentos de higienização. Ela é essencial para prevenir contaminação cruzada, especialmente em indústrias alimentícias, farmacêuticas e ambientes hospitalares.


6. Investir em análises periódicas realmente faz diferença para o negócio? Sim. Além de atender às exigências regulatórias, o monitoramento contínuo fortalece a credibilidade da empresa, reduz riscos de prejuízos financeiros e demonstra compromisso com a qualidade e a segurança dos produtos e serviços oferecidos.



Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.
bottom of page