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Partículas Ultrafinas (PM1): Por que Estão Ganhando Atenção na Ciência, na Regulação e na Gestão da Qualidade do Ar

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 12 de jan.
  • 9 min de leitura

Introdução


A qualidade do ar tem ocupado posição central nas agendas científicas, regulatórias e institucionais nas últimas décadas. Se, em um primeiro momento, o foco recaiu sobre poluentes clássicos como dióxido de enxofre (SO₂), monóxido de carbono (CO) e material particulado inalável (PM10), o avanço das evidências epidemiológicas e da instrumentação analítica deslocou progressivamente o olhar para frações cada vez menores de partículas atmosféricas. Nesse contexto, as partículas ultrafinas, especialmente aquelas com diâmetro aerodinâmico inferior a 1 micrômetro — conhecidas como PM1 — passaram a receber atenção crescente.


Tradicionalmente, as políticas públicas e os padrões de qualidade do ar, inclusive no Brasil, estruturaram-se com base em indicadores como PM10 e PM2,5. Entretanto, evidências científicas recentes indicam que a fração ainda mais fina do material particulado pode apresentar comportamento físico-químico distinto e impactos biológicos potencialmente mais significativos. Devido ao seu tamanho reduzido, as PM1 possuem maior capacidade de penetração no trato respiratório, alcançando os alvéolos pulmonares e, em determinados casos, translocando-se para a corrente sanguínea.


Instituições de pesquisa, laboratórios ambientais, órgãos reguladores e indústrias de diversos setores — incluindo o farmacêutico, hospitalar, cosmético e alimentício — têm observado que a caracterização do PM1 não é apenas uma questão ambiental, mas também um desafio de controle de qualidade, segurança ocupacional e responsabilidade socioambiental. A discussão sobre PM1 articula-se, portanto, com temas como inovação tecnológica em monitoramento, avaliação de risco à saúde e atualização de marcos regulatórios.


Este artigo apresenta uma análise aprofundada sobre o tema das partículas ultrafinas (PM1), abordando seu contexto histórico e fundamentos teóricos, a importância científica e aplicações práticas em diferentes setores, as metodologias de análise empregadas e, por fim, as perspectivas futuras para pesquisa e gestão institucional.

Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


Evolução do Conceito de Material Particulado

O estudo do material particulado atmosférico intensificou-se a partir da segunda metade do século XX, especialmente após episódios críticos de poluição, como o Grande Nevoeiro de Londres de 1952. Esses eventos impulsionaram a criação de padrões de qualidade do ar e o desenvolvimento de técnicas de monitoramento.


Inicialmente, o foco regulatório concentrou-se no “Total Suspended Particulates” (TSP). Com o avanço da compreensão sobre os efeitos na saúde, passou-se a classificar o material particulado segundo seu diâmetro aerodinâmico, reconhecendo que partículas menores possuem maior potencial de penetração no sistema respiratório. Assim surgiram as categorias PM10 (partículas inaláveis) e, posteriormente, PM2,5 (partículas respiráveis finas).


A fração PM1, embora menos contemplada nos marcos regulatórios formais, ganhou destaque nas últimas duas décadas. Estudos epidemiológicos passaram a sugerir que as partículas ultrafinas — especialmente aquelas abaixo de 1 µm — apresentam maior área superficial por unidade de massa, maior reatividade química e maior capacidade de adsorver compostos tóxicos, como metais pesados e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs).


Fundamentos Físico-Químicos das PM1

As PM1 podem ter origem primária ou secundária. As fontes primárias incluem processos de combustão (veículos automotores, queima de biomassa, processos industriais), emissões de caldeiras e atividades urbanas intensivas. Já as partículas secundárias formam-se na atmosfera a partir de reações químicas envolvendo precursores gasosos, como óxidos de nitrogênio (NOx), dióxido de enxofre (SO₂) e compostos orgânicos voláteis (COVs).


Do ponto de vista físico, partículas com diâmetro inferior a 1 µm possuem comportamento aerodinâmico distinto das partículas maiores. Elas apresentam maior tempo de residência atmosférica e maior capacidade de transporte a longas distâncias. Sua dinâmica é fortemente influenciada por processos de coagulação, condensação e deposição seca ou úmida.


Quimicamente, as PM1 tendem a concentrar frações de carbono elementar (black carbon), carbono orgânico secundário, nitratos, sulfatos e metais traço. A elevada razão superfície-volume confere a essas partículas propriedades catalíticas e oxidativas relevantes, associadas à geração de espécies reativas de oxigênio (ROS) no organismo humano.


Marcos Científicos e Regulamentares

Embora ainda não haja padrões globais amplamente consolidados para PM1 equivalentes aos estabelecidos para PM2,5, organismos internacionais como a World Health Organization (WHO) vêm reconhecendo a importância das partículas ultrafinas nas revisões de suas diretrizes de qualidade do ar.


Nos Estados Unidos, a Environmental Protection Agency (EPA) mantém monitoramento sistemático de PM2,5, mas estudos patrocinados pela agência têm investigado a fração ultrafina em ambientes urbanos. Na União Europeia, projetos de pesquisa financiados pela Comissão Europeia vêm incorporando medições de PM1 em estudos de exposição populacional.


No Brasil, a Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) estabelece padrões para PM10 e PM2,5 por meio da Resolução nº 491/2018. Ainda que PM1 não figure formalmente como parâmetro regulado, laboratórios ambientais e centros de pesquisa têm ampliado seu escopo analítico para incluir essa fração em avaliações complementares.


A ausência de um padrão específico para PM1 não implica irrelevância científica. Pelo contrário, reflete um estágio de transição no qual as evidências acumuladas começam a pressionar revisões normativas.

Importância Científica e Aplicações Práticas


Impactos na Saúde Humana

Diversos estudos epidemiológicos associam a exposição prolongada a partículas ultrafinas a desfechos adversos, como doenças cardiovasculares, inflamação sistêmica, agravamento de asma e redução da função pulmonar. A hipótese mecanística predominante sustenta que o pequeno tamanho das PM1 facilita sua deposição nos alvéolos pulmonares e potencial translocação para o sistema circulatório.


Pesquisas publicadas em periódicos como The Lancet Planetary Health e Environmental Health Perspectives indicam que o número de partículas ultrafinas pode estar mais fortemente correlacionado com eventos cardiovasculares do que a massa total de PM2,5. Esse dado é particularmente relevante, pois os indicadores regulatórios tradicionais baseiam-se majoritariamente na concentração de massa (µg/m³), e não no número de partículas.


Aplicações na Indústria e em Ambientes Controlados

Em ambientes hospitalares, farmacêuticos e de biotecnologia, o controle de partículas é um requisito essencial. Normas como a ISO 14644 (salas limpas e ambientes controlados) estabelecem limites para contagem de partículas em diferentes faixas de tamanho. Embora a classificação de salas limpas frequentemente considere partículas ≥0,5 µm, a tendência de miniaturização de processos e a produção de terapias avançadas têm impulsionado o monitoramento de frações ainda menores.


Na indústria farmacêutica, partículas ultrafinas podem interferir na estabilidade de formulações sensíveis, especialmente em produtos inalatórios. No setor hospitalar, a presença de partículas ultrafinas pode contribuir para a disseminação de contaminantes associados a aerossóis.


No campo ambiental, cidades com tráfego intenso e regiões metropolitanas industrializadas vêm utilizando dados de PM1 para refinar inventários de emissões e estratégias de mobilidade urbana. Estudos de caso em grandes centros urbanos europeus demonstram que zonas de baixa emissão resultaram em redução significativa da fração ultrafina associada a motores diesel.


Setor Alimentício e Cosmético

No setor alimentício, a presença de partículas ultrafinas no ambiente de processamento pode impactar a qualidade sensorial e microbiológica de produtos sensíveis. Em ambientes de envase asséptico, a compreensão da dinâmica de partículas menores que 1 µm auxilia na definição de barreiras de contenção.


Na indústria cosmética, especialmente na produção de aerossóis e produtos pulverizáveis, o conhecimento sobre partículas ultrafinas é crucial tanto para controle ocupacional quanto para avaliação de exposição do consumidor.

Metodologias de Análise de PM1


Técnicas Gravimétricas e Ópticas

A quantificação de PM1 pode ser realizada por métodos gravimétricos, utilizando impactadores ou ciclones seletivos capazes de reter partículas com corte aerodinâmico específico em 1 µm. O material coletado é posteriormente pesado em balanças analíticas de alta precisão, conforme protocolos estabelecidos por normas técnicas internacionais.


Equipamentos automáticos, como monitores de atenuação beta (BAM) e microbalanças de elemento oscilante (TEOM), também podem ser adaptados para a fração PM1. Esses sistemas permitem monitoramento contínuo, embora apresentem limitações relacionadas a volatilização de compostos semivoláteis.


Contadores de Partículas e Espectrometria

Contadores ópticos de partículas (OPC) e espectrômetros de mobilidade elétrica (SMPS — Scanning Mobility Particle Sizer) são amplamente empregados para caracterização de partículas ultrafinas em termos de número e distribuição de tamanho.


A análise química pode envolver técnicas como:

  • Espectrometria de massas com plasma indutivamente acoplado (ICP-MS) para metais traço;

  • Cromatografia iônica para nitratos e sulfatos;

  • Análise térmico-óptica para frações de carbono.


Normas da ISO, da EPA e métodos descritos em compêndios como o Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater (SMWW), embora tradicionalmente voltados a matrizes aquosas, oferecem referenciais metodológicos aplicáveis à análise de contaminantes associados a partículas.


Limitações e Avanços Tecnológicos

Entre os desafios analíticos estão:

  • A distinção entre partículas ultrafinas primárias e secundárias;

  • A volatilidade de certos compostos;

  • A necessidade de padronização internacional para PM1.


Avanços recentes incluem sensores miniaturizados, integração com redes IoT e modelagem computacional para previsão de concentração em tempo real.

Considerações Finais e Perspectivas Futuras

A crescente atenção às partículas ultrafinas (PM1) reflete um amadurecimento da ciência atmosférica e da epidemiologia ambiental. À medida que se amplia a compreensão sobre os mecanismos de toxicidade associados às partículas de menor diâmetro, torna-se evidente que indicadores baseados exclusivamente em massa podem não capturar plenamente o risco à saúde.


Para instituições acadêmicas, centros de pesquisa e laboratórios, a incorporação do monitoramento de PM1 representa uma oportunidade estratégica de inovação. Do ponto de vista regulatório, a tendência é que, nos próximos anos, organismos internacionais considerem parâmetros específicos para essa fração, especialmente em contextos urbanos de alta densidade populacional.


No âmbito institucional, recomenda-se:

  • Investimento em infraestrutura analítica avançada;

  • Integração de dados de PM1 em programas de vigilância ambiental;

  • Estímulo à pesquisa interdisciplinar envolvendo saúde pública, engenharia ambiental e ciência dos materiais.


A discussão sobre PM1 transcende a dimensão técnica. Trata-se de um tema que conecta qualidade do ar, sustentabilidade, responsabilidade social e inovação científica. O aprofundamento nesse campo não apenas aprimora a capacidade de diagnóstico ambiental, mas também fortalece o compromisso institucional com a promoção da saúde e da qualidade de vida em ambientes urbanos e industriais.

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❓ FAQs – Perguntas Frequentes sobre Partículas Ultrafinas (PM1)


1. O que são partículas ultrafinas (PM1)?Partículas ultrafinas (PM1) são aquelas com diâmetro aerodinâmico inferior a 1 micrômetro (µm). Devido ao seu tamanho extremamente reduzido, permanecem suspensas no ar por mais tempo e conseguem penetrar profundamente no sistema respiratório, alcançando os alvéolos pulmonares e, potencialmente, a corrente sanguínea.


2. Qual é a diferença entre PM10, PM2,5 e PM1?A principal diferença está no tamanho das partículas. PM10 inclui partículas inaláveis com até 10 µm; PM2,5 corresponde às partículas finas com até 2,5 µm; e PM1 representa uma fração ainda menor e mais penetrante. Quanto menor o diâmetro, maior a capacidade de deposição profunda nos pulmões e maior a área superficial relativa, o que pode aumentar sua reatividade química.


3. Por que as PM1 estão ganhando atenção científica?Estudos recentes indicam que a fração ultrafina do material particulado pode estar mais associada a efeitos cardiovasculares e inflamatórios do que as métricas baseadas apenas em massa (como PM2,5). Além disso, as PM1 tendem a concentrar compostos tóxicos adsorvidos em sua superfície, ampliando seu potencial impacto biológico.


4. Quais são as principais fontes de PM1?As PM1 podem ser originadas principalmente por processos de combustão, como emissões veiculares, queima de biomassa, atividades industriais e geração de energia. Também podem se formar na atmosfera por reações químicas entre gases precursores, como óxidos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis.


5. Existem padrões regulatórios específicos para PM1?Atualmente, a maioria das legislações ambientais estabelece limites para PM10 e PM2,5. No entanto, organismos internacionais e centros de pesquisa vêm discutindo a inclusão da fração PM1 em futuras revisões normativas, diante do avanço das evidências científicas sobre seus impactos.


6. Como as PM1 são medidas em laboratório?A análise pode ser realizada por métodos gravimétricos, utilizando impactadores ou ciclones seletivos com corte aerodinâmico em 1 µm, além de equipamentos automáticos como microbalanças e monitores de atenuação beta. Para caracterização química, empregam-se técnicas como ICP-MS, cromatografia iônica e análise térmico-óptica de carbono.


7. As PM1 afetam apenas ambientes externos?Não. Ambientes internos, como hospitais, indústrias farmacêuticas e salas limpas, também podem apresentar partículas ultrafinas geradas por processos industriais, equipamentos ou atividades humanas. Por isso, o controle dessa fração é relevante tanto na saúde pública quanto na gestão da qualidade do ar em ambientes controlados.


8. Por que o tamanho das partículas influencia o risco à saúde?O tamanho determina a profundidade de penetração no trato respiratório. Partículas maiores tendem a se depositar nas vias aéreas superiores, enquanto as PM1 podem atingir regiões profundas dos pulmões e, em alguns casos, ultrapassar barreiras biológicas, contribuindo para processos inflamatórios sistêmicos.


9. A concentração em massa é suficiente para avaliar o risco das PM1?Nem sempre. Como as PM1 possuem massa muito pequena, a concentração baseada apenas em µg/m³ pode subestimar o número real de partículas presentes. Por isso, estudos científicos também utilizam métricas baseadas na contagem de partículas e na área superficial.


10. O monitoramento de PM1 contribui para estratégias de prevenção?Sim. A inclusão de PM1 em programas de monitoramento permite identificar fontes específicas de emissões ultrafinas, orientar políticas públicas, otimizar processos industriais e fortalecer estratégias de proteção à saúde ocupacional e ambiental.


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