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Microplásticos podem afetar a pele? O que revisões científicas recentes discutem.

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 4 de jan.
  • 8 min de leitura

Introdução


A presença disseminada de microplásticos no ambiente consolidou-se, na última década, como um dos temas centrais da agenda científica internacional. Inicialmente associados à contaminação marinha e à ingestão por organismos aquáticos, esses fragmentos poliméricos com dimensões inferiores a 5 milímetros passaram a ser identificados em praticamente todos os compartimentos ambientais — ar atmosférico, solos, águas superficiais e subterrâneas, alimentos e até tecidos humanos. Nesse contexto, uma questão emergente ganha relevância crescente: microplásticos podem afetar a pele humana?


A pele, maior órgão do corpo humano, exerce função essencial como barreira física, imunológica e bioquímica contra agentes externos. Entretanto, sua exposição contínua a partículas ambientais — incluindo poeira urbana, material particulado fino (PM2.5), compostos orgânicos persistentes e, mais recentemente, microplásticos — suscita preocupações científicas quanto a possíveis efeitos cumulativos. Revisões sistemáticas publicadas entre 2020 e 2024 em periódicos como Environment International, Journal of Hazardous Materials e Science of the Total Environment passaram a examinar não apenas a exposição por ingestão e inalação, mas também o contato dérmico.


O debate é particularmente relevante para setores como a indústria cosmética, farmacêutica e dermatológica, que historicamente utilizaram microesferas plásticas em formulações esfoliantes, além de embalagens poliméricas que podem liberar partículas secundárias. Do ponto de vista regulatório, agências como a European Chemicals Agency (ECHA), a United States Environmental Protection Agency (EPA) e, no contexto brasileiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), vêm acompanhando a discussão sobre restrição ao uso intencional de microplásticos em produtos de cuidado pessoal.


Este artigo propõe uma análise aprofundada da literatura científica recente sobre os potenciais efeitos dos microplásticos na pele. Serão abordados o contexto histórico do tema, fundamentos teóricos relacionados à toxicologia cutânea e à física de partículas, impactos científicos e aplicações práticas, metodologias analíticas empregadas na detecção dessas partículas e, por fim, perspectivas futuras para pesquisa e regulamentação.



Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


A emergência do conceito de microplásticos


O termo “microplásticos” foi popularizado em 2004 pelo pesquisador britânico Richard Thompson, ao descrever fragmentos microscópicos de polímeros encontrados em sedimentos marinhos. Desde então, a definição mais aceita internacionalmente considera microplásticos como partículas sólidas poliméricas com dimensões inferiores a 5 mm, podendo ser classificados como primários (produzidos intencionalmente nesse tamanho, como microesferas cosméticas) ou secundários (resultantes da degradação de plásticos maiores).


Ao longo das últimas duas décadas, a literatura científica concentrou-se predominantemente nos efeitos ecotoxicológicos e na bioacumulação via cadeia alimentar. Entretanto, a partir de 2018, com o aumento de evidências sobre microplásticos em amostras de ar atmosférico urbano e doméstico, ampliou-se o escopo de investigação para a exposição humana por inalação e contato dérmico.


Estrutura e propriedades físico-químicas relevantes


Do ponto de vista físico-químico, os microplásticos apresentam ampla diversidade de composição: polietileno (PE), polipropileno (PP), poliestireno (PS), policloreto de vinila (PVC) e polietileno tereftalato (PET) são os polímeros mais frequentemente identificados. As propriedades relevantes para avaliação de risco cutâneo incluem:


  • Tamanho e morfologia (fragmentos, fibras, esferas)

  • Área superficial específica

  • Carga eletrostática

  • Capacidade de adsorção de contaminantes orgânicos persistentes (POPs)

  • Presença de aditivos (ftalatos, retardantes de chama, estabilizantes UV)


Partículas menores, especialmente na faixa nanométrica (nanoplásticos < 1 µm), apresentam maior potencial de interação com tecidos biológicos devido à maior razão superfície/volume.


A barreira cutânea: fundamentos biológicos


A epiderme, particularmente o estrato córneo, constitui a principal barreira contra penetração de substâncias externas. A teoria clássica de permeação cutânea — fundamentada no modelo de difusão de Fick — indica que a penetração depende de fatores como:


  • Peso molecular da substância (< 500 Da favorece difusão)

  • Lipofilicidade (coeficiente de partição óleo/água)

  • Integridade da barreira cutânea


Microplásticos, por definição, apresentam dimensões superiores àquelas tipicamente associadas à penetração passiva. Entretanto, revisões recentes discutem três possíveis mecanismos de interação:


  1. Deposição superficial persistente

  2. Penetração via folículos pilosos ou microlesões

  3. Liberação de aditivos químicos com potencial irritativo ou disruptor endócrino


Estudos in vitro utilizando modelos tridimensionais de pele reconstruída sugerem que partículas maiores permanecem predominantemente na superfície, enquanto nanoplásticos podem penetrar camadas mais profundas sob determinadas condições experimentais.


Marcos regulatórios internacionais

A preocupação regulatória intensificou-se na última década. Destacam-se:


  • European Chemicals Agency (ECHA): proposta de restrição ampla ao uso intencional de microplásticos em produtos de consumo.

  • Microbead-Free Waters Act (EUA, 2015): proibição de microesferas plásticas em cosméticos esfoliantes.

  • ANVISA: embora ainda não exista regulamentação específica sobre microplásticos, normas relacionadas a segurança cosmética e avaliação toxicológica seguem diretrizes internacionais, incluindo referências da ISO e do Scientific Committee on Consumer Safety (SCCS) da União Europeia.


Esses marcos refletem o princípio da precaução, ainda que as evidências diretas de dano cutâneo em humanos permaneçam limitadas.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Evidências científicas recentes

Revisões publicadas entre 2021 e 2024 indicam que os potenciais efeitos cutâneos dos microplásticos podem ser agrupados em três categorias:


  1. Efeitos físicos superficiais

  2. Estresse oxidativo e inflamação

  3. Transporte de contaminantes adsorvidos


Estudos in vitro demonstraram aumento na produção de espécies reativas de oxigênio (ROS) em queratinócitos expostos a nanoplásticos de poliestireno. O estresse oxidativo, quando persistente, pode comprometer a integridade da barreira cutânea e contribuir para processos inflamatórios.


Entretanto, revisões sistemáticas ressaltam que a maioria dos experimentos utiliza concentrações superiores às encontradas em condições ambientais típicas, o que limita extrapolações diretas para cenários reais.


Microplásticos no ar e exposição urbana


Pesquisas em ambientes urbanos detectaram fibras sintéticas no material particulado atmosférico. A deposição dessas partículas na pele pode ocorrer especialmente em grandes centros urbanos. Ainda que a penetração profunda seja improvável para partículas maiores, a deposição contínua pode contribuir para processos de irritação mecânica ou transporte de contaminantes químicos adsorvidos.


Em instituições hospitalares e laboratoriais, o monitoramento ambiental já contempla partículas inaláveis, mas raramente diferencia microplásticos de outros particulados. Essa lacuna metodológica é reconhecida como desafio científico atual.


Impactos na indústria cosmética e dermatológica


A indústria cosmética passou por significativa reformulação após a proibição de microesferas esfoliantes em diversos países. Atualmente, substitutos biodegradáveis — como celulose, sílica e partículas de origem vegetal — são amplamente utilizados.


Além do uso intencional, avalia-se a possibilidade de liberação secundária de microplásticos por abrasão de embalagens poliméricas. Laboratórios de controle de qualidade passaram a incluir testes adicionais para avaliação de partículas insolúveis, conforme diretrizes da ISO 22716 (Boas Práticas de Fabricação para cosméticos).


Estudos de caso institucionais


Instituições acadêmicas europeias desenvolveram modelos experimentais de pele reconstruída para avaliar interações com micro e nanoplásticos. Em um estudo conduzido na Alemanha (2022), partículas nanométricas de poliestireno demonstraram potencial de internalização celular sob condições experimentais específicas, mas sem evidência conclusiva de dano citotóxico significativo em exposições agudas.


Esses resultados reforçam a necessidade de investigação longitudinal para avaliar efeitos cumulativos e possíveis interações sinérgicas com poluentes atmosféricos.


Dimensão ambiental e ESG


Empresas que adotam políticas ambientais alinhadas a princípios ESG passaram a incorporar métricas relacionadas à redução de polímeros sintéticos em formulações e embalagens. A discussão sobre microplásticos transcende o risco individual e insere-se em uma perspectiva sistêmica de sustentabilidade e saúde pública.


Metodologias de Análise


A identificação e caracterização de microplásticos em matrizes ambientais e biológicas exigem abordagens analíticas sofisticadas. Entre as metodologias mais utilizadas destacam-se:


Espectroscopia Raman e FTIR


A espectroscopia Raman e a espectroscopia no infravermelho por transformada de Fourier (FTIR) permitem identificar a composição química das partículas com base em assinaturas espectrais características de cada polímero.


Normas internacionais como ISO 21363 estabelecem diretrizes para identificação de plásticos em ambientes marinhos, frequentemente adaptadas para outras matrizes.


Microscopia eletrônica


A microscopia eletrônica de varredura (MEV) possibilita caracterização morfológica detalhada, incluindo tamanho, forma e textura superficial. Quando associada à espectroscopia de energia dispersiva (EDS), permite análise elementar complementar.


Cromatografia e pirólise-GC/MS


Para quantificação indireta, utiliza-se pirólise acoplada à cromatografia gasosa e espectrometria de massas (Py-GC/MS). Essa técnica decompõe o polímero em fragmentos característicos, permitindo identificação precisa.


Desafios metodológicos


Entre as principais limitações destacam-se:

  • Ausência de padronização global para amostras biológicas

  • Contaminação cruzada durante coleta e preparo

  • Dificuldade de distinguir nanoplásticos de outras nanopartículas ambientais


Organizações como a AOAC International e comitês técnicos da ISO trabalham no desenvolvimento de protocolos harmonizados.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


As evidências científicas disponíveis indicam que, embora a penetração significativa de microplásticos de maior dimensão pela pele íntegra seja improvável, a exposição contínua — especialmente a nanoplásticos e aditivos químicos associados — merece investigação aprofundada. Revisões recentes enfatizam a necessidade de estudos clínicos controlados, avaliação de exposições realistas e desenvolvimento de métodos analíticos padronizados.


Para instituições de pesquisa, o tema representa oportunidade estratégica de inovação interdisciplinar, envolvendo toxicologia, ciência dos materiais, dermatologia e química analítica. Para a indústria, reforça-se a importância de avaliações de risco baseadas em evidências e adoção de alternativas sustentáveis.


No contexto regulatório, a aplicação do princípio da precaução orienta políticas públicas e reformulações industriais, mesmo diante de lacunas científicas. O desafio futuro reside em transformar dados laboratoriais em parâmetros concretos de segurança para consumidores.


À medida que o conhecimento avança, torna-se imperativo consolidar bases científicas robustas que orientem decisões regulatórias, práticas industriais responsáveis e estratégias de monitoramento ambiental. A discussão sobre microplásticos e pele não é apenas uma questão toxicológica, mas um reflexo da relação contemporânea entre tecnologia, consumo e saúde coletiva.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


1. Microplásticos podem penetrar na pele humana? 

De modo geral, partículas de microplásticos com dimensões na faixa de micrômetros tendem a permanecer na superfície cutânea, especialmente quando a pele está íntegra. No entanto, estudos experimentais indicam que partículas em escala nanométrica (nanoplásticos) podem, em determinadas condições laboratoriais, atravessar camadas superficiais da epiderme ou penetrar por folículos pilosos e microlesões. Ainda assim, as evidências em humanos expostos a concentrações ambientais reais permanecem limitadas.

2. O contato com microplásticos pode causar irritação ou inflamação na pele? 

Alguns estudos in vitro demonstraram que partículas plásticas, especialmente em escala nanométrica, podem induzir estresse oxidativo e resposta inflamatória celular em modelos experimentais de queratinócitos. Contudo, essas pesquisas frequentemente utilizam concentrações superiores às observadas em ambientes cotidianos. Até o momento, não há consenso científico sobre efeitos inflamatórios clinicamente relevantes decorrentes de exposição dérmica ambiental típica.

3. Microplásticos presentes em cosméticos ainda representam risco? 

Em diversos países, o uso intencional de microesferas plásticas em cosméticos esfoliantes foi restringido ou proibido. Atualmente, muitas formulações utilizam alternativas biodegradáveis. O risco associado a microplásticos em cosméticos modernos está mais relacionado à possível liberação secundária de partículas por embalagens plásticas ou à presença residual em cadeias produtivas, sendo objeto de monitoramento regulatório e controle de qualidade.

4. A pele danificada aumenta o risco de absorção? 

Sim. A integridade da barreira cutânea é um fator determinante na permeação de substâncias externas. Pele lesionada, com dermatites ou microfissuras, pode apresentar maior suscetibilidade à penetração de partículas ultrafinas ou à absorção de aditivos químicos associados aos polímeros. Esse aspecto é frequentemente destacado em revisões toxicológicas recentes.

5. Quais componentes dos microplásticos geram maior preocupação toxicológica? 

Além da própria partícula física, aditivos como ftalatos, bisfenóis e retardantes de chama podem representar maior preocupação devido ao seu potencial de atuar como desreguladores endócrinos ou irritantes cutâneos. Ademais, microplásticos podem adsorver contaminantes ambientais persistentes, funcionando como vetores secundários de exposição química.

6. Como os pesquisadores avaliam os efeitos dos microplásticos na pele?

As análises incluem modelos tridimensionais de pele reconstruída, culturas celulares de queratinócitos, ensaios de estresse oxidativo, microscopia eletrônica e técnicas espectroscópicas para caracterização das partículas. Em alguns casos, utilizam-se métodos como FTIR, espectroscopia Raman e pirólise-GC/MS para confirmar a composição polimérica.



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