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Microplásticos em Cosméticos: Onde Aparecem e Como Comprovar Clegações “Free From”.

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 13 de fev.
  • 8 min de leitura

Introdução


A discussão sobre microplásticos deixou de ser um tema restrito à oceanografia e à gestão de resíduos sólidos para ocupar espaço central nas agendas regulatórias, industriais e científicas. Nas últimas duas décadas, evidências acumuladas demonstraram que partículas plásticas com dimensões inferiores a 5 mm — classificadas como microplásticos — estão amplamente distribuídas em ecossistemas marinhos, águas continentais, solos agrícolas e até na atmosfera. Mais recentemente, estudos detectaram microplásticos em tecidos humanos, sangue e placenta, ampliando o debate para a esfera da saúde pública.


No setor cosmético, o tema ganhou notoriedade sobretudo a partir da identificação de microesferas plásticas intencionalmente adicionadas a esfoliantes, pastas de dente e produtos de higiene pessoal. Essas partículas, compostas majoritariamente por polietileno (PE), polipropileno (PP) e polimetilmetacrilato (PMMA), eram valorizadas por sua estabilidade química, baixo custo e propriedades sensoriais. Entretanto, seu descarte via esgoto revelou uma rota direta de contaminação ambiental, já que sistemas convencionais de tratamento de efluentes não são totalmente eficazes na remoção dessas partículas.


Hoje, o debate vai além das microesferas visíveis. A atenção científica voltou-se também aos chamados microplásticos secundários, originados da fragmentação de embalagens e polímeros sintéticos presentes em formulações cosméticas sob formas menos evidentes — como agentes filmógenos, espessantes ou estabilizantes. Nesse contexto, a alegação “microplastic free” ou “free from microplastics” tornou-se um diferencial competitivo relevante para marcas e fabricantes, mas também um ponto sensível do ponto de vista técnico e regulatório.


Comprovar a ausência de microplásticos em um produto cosmético não é trivial. Exige definição clara do que se entende por microplástico, rastreabilidade de matérias-primas, validação analítica robusta e alinhamento com normas e diretrizes internacionais, como as discutidas pela Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA), pela Organização Internacional de Normalização (ISO) e por autoridades sanitárias nacionais, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).


Este artigo examina, de forma aprofundada, onde os microplásticos aparecem nos cosméticos, quais são seus fundamentos científicos e regulatórios, quais impactos ambientais e institucionais estão envolvidos e, sobretudo, quais metodologias analíticas permitem comprovar alegações “free from” com rigor técnico. Ao longo do texto, serão discutidos marcos históricos, conceitos teóricos, aplicações práticas e perspectivas futuras para o setor.



Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


A emergência do conceito de microplástico


O termo “microplástico” foi amplamente difundido a partir dos anos 2000, especialmente após publicações científicas que identificaram partículas plásticas microscópicas em sedimentos marinhos. Embora a produção de polímeros sintéticos tenha se intensificado desde a década de 1950, apenas no final do século XX a comunidade científica passou a reconhecer o acúmulo persistente de fragmentos plásticos em ambientes naturais.


A definição mais aceita considera microplásticos como partículas sólidas de polímeros sintéticos com tamanho inferior a 5 mm. Alguns autores subdividem essa categoria em microplásticos primários — produzidos intencionalmente em dimensões microscópicas — e secundários — resultantes da degradação de objetos plásticos maiores.


No setor cosmético, os microplásticos primários foram amplamente utilizados a partir das décadas de 1980 e 1990. Microesferas de polietileno eram empregadas como agentes esfoliantes em produtos de “rinse-off” (enxágue), enquanto polímeros sintéticos em forma de pó ou dispersões eram incorporados para conferir textura, brilho ou resistência à água.


Marcos regulatórios internacionais


A pressão regulatória ganhou força após evidências de que microesferas cosméticas estavam sendo encontradas em ambientes aquáticos em concentrações relevantes. Em 2015, os Estados Unidos aprovaram o Microbead-Free Waters Act, proibindo a fabricação e comercialização de cosméticos com microesferas plásticas adicionadas intencionalmente.


Na União Europeia, a Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA) propôs, no âmbito do regulamento REACH, restrições amplas ao uso de microplásticos adicionados intencionalmente em diferentes setores, incluindo cosméticos. A definição proposta pela ECHA inclui partículas sólidas de polímeros sintéticos com menos de 5 mm, não biodegradáveis e insolúveis em água.


No Brasil, embora ainda não haja uma proibição geral equivalente à europeia, o tema é acompanhado por órgãos como a ANVISA e o IBAMA, especialmente no que se refere a impactos ambientais e rotulagem. Além disso, discussões legislativas estaduais e federais vêm sendo conduzidas para restringir microesferas plásticas em produtos de higiene pessoal.


Fundamentos físico-químicos dos microplásticos


Do ponto de vista químico, microplásticos são compostos por polímeros sintéticos de alta massa molar, como:


  • Polietileno (PE)

  • Polipropileno (PP)

  • Poliestireno (PS)

  • Polietileno tereftalato (PET)

  • Polimetilmetacrilato (PMMA)

  • Nylon (poliamidas)


Esses polímeros apresentam elevada estabilidade química, baixa solubilidade em água e resistência à biodegradação. Tais características, desejáveis em aplicações industriais, tornam-se problemáticas quando consideradas sob a ótica ambiental.


Além da composição polimérica, microplásticos podem conter aditivos — plastificantes, antioxidantes, pigmentos — que alteram suas propriedades físico-químicas. Essa complexidade impacta diretamente as estratégias analíticas para sua identificação.


Onde aparecem nos cosméticos


Microplásticos podem estar presentes em cosméticos de diversas formas:


  1. Microesferas esfoliantes (históricas, hoje amplamente substituídas).

  2. Agentes filmógenos sintéticos, usados em maquiagens e protetores solares.

  3. Espessantes e modificadores reológicos.

  4. Partículas de efeito óptico (glitter plástico).

  5. Fragmentos provenientes da embalagem, caracterizando microplásticos secundários.


É importante distinguir entre polímeros sintéticos solúveis (como alguns acrilatos em solução) e partículas sólidas insolúveis, pois a definição regulatória de microplástico geralmente se aplica apenas às formas particuladas.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Impacto ambiental e saúde pública


Estudos publicados em periódicos como Environmental Science & Technology e Science of the Total Environment demonstraram que microplásticos podem atuar como vetores de contaminantes orgânicos persistentes (POPs) e metais pesados. Em ambientes aquáticos, partículas microscópicas são ingeridas por organismos planctônicos, entrando na cadeia alimentar.


Em 2022, pesquisas reportaram a presença de microplásticos em amostras de sangue humano, indicando potencial exposição sistêmica. Embora os efeitos toxicológicos ainda estejam sob investigação, evidências preliminares sugerem possível indução de respostas inflamatórias e estresse oxidativo.

Para instituições de pesquisa e laboratórios, isso implica necessidade de estudos interdisciplinares envolvendo toxicologia, química analítica, microbiologia e ciências ambientais.


Relevância para a indústria cosmética


Do ponto de vista industrial, a transição para formulações livres de microplásticos representa:


  • Reformulação de produtos.

  • Substituição por alternativas biodegradáveis (sílica, celulose, cascas vegetais).

  • Revisão de cadeias de suprimento.

  • Implementação de programas de rastreabilidade.


Marcas que adotam alegações “free from microplastics” enfrentam desafios técnicos: é necessário demonstrar que nenhum ingrediente atende à definição regulatória de microplástico e que não há contaminação cruzada durante o processo produtivo.


Estudos de caso institucionais


Grandes multinacionais do setor cosmético anunciaram a eliminação voluntária de microesferas antes mesmo de exigências legais. Algumas estabeleceram compromissos públicos de sustentabilidade alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.


Laboratórios universitários têm conduzido projetos de pesquisa para desenvolver biopolímeros substitutos, como partículas de celulose microcristalina e polímeros derivados de amido. Ensaios comparativos demonstram que esses materiais podem oferecer desempenho sensorial semelhante com menor impacto ambiental.


Pressão de mercado e certificações


Selos e certificações ambientais passaram a incluir critérios relacionados à presença de microplásticos. Organizações independentes publicaram listas de ingredientes considerados microplásticos, ampliando o escrutínio sobre formulações.


Nesse cenário, a comprovação técnica torna-se não apenas uma exigência regulatória, mas um elemento estratégico de reputação institucional.


Metodologias de Análise


A comprovação da ausência de microplásticos exige abordagem multifacetada, combinando análise documental e instrumental.


1. Avaliação documental e rastreabilidade


  • Revisão detalhada das fichas técnicas e FISPQs.

  • Verificação da nomenclatura INCI.

  • Avaliação de conformidade com definições regulatórias (como as propostas pela ECHA).


2. Técnicas espectroscópicas


FTIR (Espectroscopia no Infravermelho com Transformada de Fourier)Permite identificar a assinatura molecular de polímeros sólidos. Amplamente utilizada para caracterização de partículas isoladas.

Raman microscópicoOferece alta resolução espacial, possibilitando identificação de partículas microscópicas diretamente na matriz.


3. Técnicas térmicas e cromatográficas


Pirólise acoplada à GC-MS (Py-GC-MS)Considerada uma das metodologias mais robustas para identificação de polímeros em matrizes complexas. A amostra é degradada termicamente e os fragmentos são analisados por cromatografia gasosa com espectrometria de massas.


4. Microscopia eletrônica


A microscopia eletrônica de varredura (MEV) pode ser utilizada para avaliar morfologia e tamanho das partículas.


Normas e protocolos


Embora ainda não exista uma norma ISO específica consolidada para microplásticos em cosméticos, metodologias adaptadas de protocolos ambientais — como orientações da EPA — vêm sendo empregadas.


Limitações analíticas


  • Interferência de matriz cosmética complexa.

  • Necessidade de etapas de extração e purificação.

  • Custo elevado de equipamentos.

  • Falta de padronização global.


Avanços recentes incluem automação da análise espectral e bancos de dados ampliados de polímeros.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


A presença de microplásticos em cosméticos representa um ponto de convergência entre ciência de materiais, química analítica, sustentabilidade e regulação sanitária. O debate evoluiu de uma preocupação pontual com microesferas esfoliantes para uma análise abrangente de polímeros sintéticos particulados em cadeias produtivas complexas.


Para instituições acadêmicas e laboratórios, o tema oferece oportunidades de pesquisa aplicada, desenvolvimento de métodos analíticos validados e inovação em materiais biodegradáveis. Para a indústria, exige governança técnica, transparência e integração entre P&D, controle de qualidade e compliance regulatório.


No futuro próximo, espera-se maior harmonização internacional de definições e métodos analíticos, além de integração com políticas de economia circular. Investimentos em química verde e biopolímeros deverão ganhar relevância estratégica.


Comprovar uma alegação “microplastic free” deixará de ser apenas um diferencial mercadológico e passará a representar um compromisso técnico verificável, sustentado por evidências laboratoriais robustas e alinhado às melhores práticas científicas e regulatórias globais.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


  1. O que são microplásticos em cosméticos?

    Microplásticos são partículas sólidas de polímeros sintéticos com tamanho geralmente inferior a 5 mm, insolúveis em água e pouco biodegradáveis. Em cosméticos, podem ser adicionados intencionalmente — como microesferas esfoliantes ou agentes de efeito sensorial — ou estar presentes como fragmentos resultantes da degradação de embalagens e polímeros sintéticos utilizados na formulação.


  2. Em quais tipos de produtos cosméticos os microplásticos podem aparecer?

    Historicamente, eram comuns em esfoliantes faciais e corporais, sabonetes e cremes dentais. Atualmente, podem estar associados a maquiagens, protetores solares, produtos capilares e formulações com agentes filmógenos ou modificadores reológicos sintéticos. Além disso, partículas plásticas secundárias podem surgir por abrasão ou fragmentação de embalagens durante o ciclo de vida do produto.


  3. A alegação “microplastic free” significa ausência total de polímeros sintéticos?

    Não necessariamente. A alegação normalmente se refere à ausência de partículas sólidas de polímeros sintéticos que se enquadrem na definição regulatória de microplástico, como a proposta pela Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA). Polímeros solúveis ou biodegradáveis podem não ser classificados como microplásticos, dependendo da regulamentação aplicável e dos critérios técnicos adotados.


  4. Como é possível comprovar tecnicamente que um cosmético é “free from microplastics”?

    A comprovação envolve análise documental detalhada das matérias-primas (incluindo nomenclatura INCI e fichas técnicas), rastreabilidade da cadeia produtiva e, quando necessário, aplicação de métodos analíticos instrumentais, como espectroscopia no infravermelho (FTIR), Raman microscópico e pirólise acoplada à GC-MS. Esses métodos permitem identificar e caracterizar polímeros em matrizes complexas com elevada precisão.


  5. Existem normas ou legislações específicas sobre microplásticos em cosméticos?

    Sim. Diversos países já implementaram restrições ao uso de microesferas plásticas, como nos Estados Unidos. Na União Europeia, propostas no âmbito do regulamento REACH buscam limitar a adição intencional de microplásticos em diferentes produtos, incluindo cosméticos. No Brasil, o tema é acompanhado por autoridades sanitárias e ambientais, e discussões regulatórias continuam em evolução.


  6. A substituição de microplásticos compromete o desempenho do produto?

    Não necessariamente. Alternativas como partículas de sílica, celulose microcristalina e polímeros de origem vegetal vêm sendo desenvolvidas e aplicadas com resultados técnicos satisfatórios. Estudos comparativos indicam que é possível manter propriedades sensoriais e funcionais adequadas, desde que a reformulação seja conduzida com base em testes de estabilidade, segurança e desempenho devidamente validados.



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