Água purificada (PW/WFI) e partículas: como investigar microplásticos em sistemas farmacêuticos de alta pureza
- Keller Dantara
- 21 de fev.
- 9 min de leitura
Introdução
A água é o insumo mais utilizado na indústria farmacêutica e em diversos segmentos das ciências da vida. Em ambientes industriais e laboratoriais, diferentes graus de pureza são exigidos conforme a aplicação, sendo a água purificada (Purified Water – PW) e a água para injetáveis (Water for Injection – WFI) duas das categorias mais críticas do ponto de vista regulatório e sanitário. Esses tipos de água são amplamente empregados na fabricação de medicamentos, formulações biotecnológicas, vacinas, produtos estéreis e processos de limpeza de equipamentos. Em tais contextos, a presença de contaminantes, mesmo em níveis extremamente baixos, pode comprometer a qualidade do produto final, afetar a estabilidade da formulação e representar riscos à segurança do paciente.
Tradicionalmente, os programas de monitoramento da qualidade da água farmacêutica concentram-se em parâmetros físico-químicos e microbiológicos bem estabelecidos, como condutividade, carbono orgânico total (TOC), endotoxinas bacterianas e contagem microbiológica. Contudo, avanços recentes na ciência ambiental e analítica têm ampliado o escopo das preocupações relacionadas à pureza da água. Entre os contaminantes emergentes que despertam crescente interesse científico estão os microplásticos, partículas poliméricas com dimensões geralmente inferiores a 5 milímetros que podem se originar de diversas fontes ambientais e industriais.
A detecção de microplásticos em ambientes aquáticos naturais — incluindo rios, oceanos e água potável — já é amplamente documentada na literatura científica. Entretanto, a presença potencial dessas partículas em sistemas de água de grau farmacêutico representa um campo de investigação relativamente recente. Considerando que os sistemas de produção de PW e WFI envolvem extensas redes de tubulações, filtros, membranas e reservatórios frequentemente fabricados com materiais poliméricos, surge uma questão relevante: seria possível que micro ou nanoplásticos sejam introduzidos nesses sistemas durante processos de fabricação, armazenamento ou distribuição?
Essa preocupação se torna particularmente relevante à medida que as tecnologias analíticas modernas passam a permitir a identificação de partículas em escalas cada vez menores. Técnicas como microespectroscopia Raman, espectroscopia infravermelha por transformada de Fourier (µFTIR) e microscopia avançada têm revelado a presença de partículas poliméricas em matrizes anteriormente consideradas livres desse tipo de contaminante. Embora o impacto toxicológico dessas partículas em sistemas farmacêuticos ainda esteja em fase de investigação, sua presença pode representar um novo desafio para programas de controle de qualidade e garantia da pureza da água farmacêutica.
Neste contexto, compreender os mecanismos potenciais de geração, transporte e detecção de microplásticos em sistemas de PW e WFI torna-se fundamental para laboratórios analíticos, fabricantes de medicamentos, empresas de biotecnologia e instituições regulatórias. A investigação dessas partículas requer abordagens metodológicas específicas, capazes de diferenciar microplásticos de outras partículas orgânicas ou inorgânicas presentes na matriz aquosa.
O presente artigo examina, sob uma perspectiva científica e institucional, os fundamentos relacionados à presença potencial de microplásticos em sistemas de água farmacêutica. Inicialmente, será apresentada uma contextualização histórica e conceitual sobre a produção e controle de qualidade de PW e WFI. Em seguida, serão discutidas as implicações científicas e industriais da investigação de partículas poliméricas nesses sistemas. Por fim, serão abordadas metodologias analíticas utilizadas para a detecção e caracterização de microplásticos, bem como as perspectivas futuras para o monitoramento desse tipo de contaminante emergente em ambientes de alta pureza.
Contexto histórico e fundamentos teóricos
Evolução do conceito de água de grau farmacêutico
A padronização da qualidade da água utilizada na indústria farmacêutica remonta ao desenvolvimento das primeiras farmacopeias modernas no século XIX. Com o avanço da produção industrial de medicamentos e o aumento da complexidade das formulações farmacêuticas, tornou-se evidente a necessidade de estabelecer critérios rigorosos para a qualidade da água utilizada como excipiente ou solvente.
Atualmente, as principais referências regulatórias internacionais incluem:
United States Pharmacopeia (USP)
European Pharmacopoeia (Ph. Eur.)
Japanese Pharmacopoeia (JP)
Esses compêndios definem especificações detalhadas para diferentes tipos de água farmacêutica, incluindo Purified Water (PW) e Water for Injection (WFI).
A água purificada (PW) é amplamente utilizada na fabricação de produtos não estéreis, limpeza de equipamentos e preparação de soluções intermediárias. Ela é obtida por processos de purificação como osmose reversa, deionização, ultrafiltração e destilação, sendo submetida a controles rigorosos de condutividade e carbono orgânico total.
Já a água para injetáveis (WFI) representa um grau de pureza ainda mais elevado. Tradicionalmente produzida por destilação, essa água deve atender a requisitos adicionais, como baixíssimos níveis de endotoxinas bacterianas, sendo utilizada na fabricação de medicamentos parenterais e produtos estéreis.
Nos últimos anos, avanços tecnológicos permitiram que métodos alternativos à destilação, como osmose reversa dupla combinada com ultrafiltração, fossem reconhecidos por algumas farmacopeias como processos válidos para produção de WFI, desde que garantam equivalência microbiológica e química.
Estrutura e funcionamento dos sistemas de PW e WFI
Os sistemas de produção e distribuição de água farmacêutica são estruturas complexas projetadas para manter condições de pureza extrema ao longo de toda a cadeia de processamento.
Esses sistemas geralmente incluem:
unidades de pré-tratamento
sistemas de osmose reversa
destiladores ou geradores de WFI
tanques de armazenamento sanitário
loops de distribuição contínua
filtros finais de membrana
Os materiais utilizados nessas instalações devem atender a requisitos rigorosos de compatibilidade química, resistência à corrosão e baixa liberação de contaminantes. Por essa razão, é comum o uso de aço inoxidável de alta pureza (como o AISI 316L eletropolido) em tubulações e tanques.
Entretanto, diversos componentes do sistema também podem conter polímeros técnicos, incluindo:
membranas de filtração
vedantes e juntas
tubulações secundárias
cartuchos filtrantes
componentes de bombas e válvulas
A presença desses materiais levanta questões importantes relacionadas à possível liberação de partículas poliméricas durante o uso prolongado, desgaste mecânico ou degradação química.
Microplásticos: definição e classificação
O termo microplástico refere-se a partículas sólidas de polímeros sintéticos com dimensões geralmente inferiores a 5 milímetros. Em muitos estudos ambientais, a classificação inclui também nanoplásticos, partículas ainda menores, com dimensões inferiores a 1 micrômetro.
Essas partículas podem ser classificadas em dois grupos principais:
Microplásticos primários
São produzidos diretamente em tamanho microscópico para aplicações industriais ou comerciais. Exemplos incluem:
microesferas cosméticas
partículas abrasivas industriais
resinas plásticas industriais
Microplásticos secundários
Originam-se da fragmentação de materiais plásticos maiores, geralmente devido a processos como:
desgaste mecânico
exposição à radiação ultravioleta
degradação térmica
ação química ou biológica
Em sistemas industriais fechados, como os utilizados na produção de água farmacêutica, microplásticos secundários podem surgir da erosão gradual de componentes poliméricos presentes em filtros, membranas ou elementos de vedação.
Crescimento da preocupação científica com microplásticos
Nas últimas duas décadas, o número de estudos científicos dedicados à investigação de microplásticos cresceu exponencialmente. Pesquisas conduzidas por instituições como a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), a European Chemicals Agency (ECHA) e universidades ao redor do mundo documentaram a presença dessas partículas em ambientes marinhos, solos, alimentos e até mesmo na atmosfera.
Estudos recentes também demonstraram a presença de microplásticos em:
água potável
água mineral engarrafada
bebidas industrializadas
produtos alimentícios processados
Um estudo publicado na revista Environmental Science & Technology estimou que seres humanos podem ingerir dezenas de milhares de partículas plásticas por ano por meio da alimentação e da água.
Embora a presença dessas partículas em sistemas farmacêuticos ainda seja pouco documentada, o aumento da sensibilidade analítica tem ampliado o interesse na investigação desse tipo de contaminante em matrizes de alta pureza.
Importância científica e aplicações práticas
A investigação de microplásticos em sistemas de água farmacêutica possui implicações relevantes para diversas áreas industriais e científicas.
Primeiramente, a presença dessas partículas pode representar um indicador indireto de desgaste de materiais dentro do sistema de produção ou distribuição de água. Isso pode revelar falhas em componentes críticos, como membranas de filtração ou vedantes, permitindo intervenções preventivas.
Além disso, partículas microscópicas podem atuar como superfícies de adsorção para contaminantes químicos ou microbiológicos, potencialmente influenciando processos de contaminação secundária.
Na indústria farmacêutica, onde a pureza do produto é essencial, qualquer partícula estranha presente na água utilizada na fabricação pode gerar não conformidades regulatórias, exigindo investigações aprofundadas.
A análise de partículas também é relevante para:
validação de sistemas de purificação
qualificação de equipamentos
avaliação de integridade de filtros
monitoramento de desgaste de materiais
Outro aspecto relevante envolve o desenvolvimento de novos protocolos de controle de qualidade, capazes de integrar análises tradicionais com técnicas avançadas de caracterização de partículas.
Metodologias de análise
A investigação de microplásticos em água farmacêutica envolve múltiplas etapas analíticas.
Inicialmente, as partículas precisam ser isoladas da matriz aquosa, geralmente por meio de:
filtração por membranas
ultrafiltração
centrifugação
Após o isolamento, diferentes técnicas podem ser utilizadas para identificação e caracterização.
Entre as principais metodologias estão:
Microespectroscopia Raman
Permite identificar a composição química de partículas microscópicas com alta precisão. É amplamente utilizada na caracterização de microplásticos devido à capacidade de diferenciar diferentes tipos de polímeros.
Espectroscopia FTIR (µFTIR)
A espectroscopia infravermelha por transformada de Fourier é outra técnica amplamente empregada para identificação de polímeros.
Ela permite comparar o espectro obtido com bibliotecas de materiais conhecidos, possibilitando a identificação do tipo de plástico presente.
Microscopia eletrônica de varredura (SEM)
Utilizada para análise morfológica das partículas, permitindo avaliar tamanho, formato e características superficiais.
Técnicas complementares
Outras abordagens incluem:
análise térmica (DSC/TGA)
cromatografia de pirólise (Py-GC/MS)
microscopia óptica avançada
Normas e protocolos internacionais utilizados como referência incluem:
ISO 21308
ISO 16094
AOAC 2020.07
Apesar dos avanços metodológicos, a análise de microplásticos ainda apresenta desafios importantes, como a contaminação cruzada durante a amostragem e a dificuldade de identificar partículas em escala nanométrica.
Considerações finais e perspectivas futuras
A investigação de microplásticos em sistemas de água purificada e água para injetáveis representa uma nova fronteira científica na área de controle de qualidade farmacêutico. Embora esses sistemas sejam projetados para atingir níveis extremos de pureza, o avanço das tecnologias analíticas revela que contaminantes microscópicos podem estar presentes em níveis anteriormente indetectáveis.
Nesse cenário, torna-se fundamental que laboratórios analíticos, indústrias farmacêuticas e instituições regulatórias acompanhem a evolução das metodologias de detecção de partículas e incorporem abordagens baseadas em ciência de materiais, espectroscopia e microscopia avançada.
No futuro, espera-se que novas tecnologias permitam a detecção rotineira de nanoplásticos, ampliando ainda mais a compreensão sobre a presença de partículas poliméricas em sistemas de alta pureza.
Paralelamente, iniciativas de padronização internacional devem estabelecer protocolos analíticos harmonizados, permitindo comparabilidade entre estudos e garantindo maior confiabilidade na interpretação dos resultados.
À medida que a ciência analítica avança, a investigação de microplásticos em água farmacêutica tende a se consolidar como um componente relevante das estratégias modernas de garantia da qualidade e segurança em ambientes industriais altamente controlados.
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❓ FAQs – Perguntas Frequentes
1. O que caracteriza um contaminante particulado em sistemas de água purificada (PW) e água para injetáveis (WFI)? Contaminantes particulados incluem qualquer material sólido presente na água que não faça parte de sua composição esperada dentro dos padrões farmacêuticos. Isso pode envolver partículas inorgânicas, fragmentos metálicos, resíduos orgânicos, biofilmes microbiológicos ou partículas poliméricas, como microplásticos provenientes de componentes do sistema de purificação, tubulações, filtros ou materiais de vedação.
2. Microplásticos podem realmente estar presentes em sistemas de água farmacêutica? Embora sistemas de PW e WFI sejam projetados para atingir níveis extremamente elevados de pureza, partículas poliméricas podem surgir em situações específicas, como desgaste de membranas filtrantes, degradação de componentes plásticos, abrasão de vedantes ou falhas em processos de filtração. Por isso, a investigação dessas partículas vem ganhando relevância em estudos recentes sobre contaminantes emergentes.
3. Por que a presença de microplásticos em água farmacêutica preocupa a indústria? Em ambientes farmacêuticos, qualquer partícula estranha pode comprometer a qualidade do processo produtivo, interferir em formulações sensíveis ou gerar não conformidades regulatórias. Além disso, partículas microscópicas podem atuar como superfícies de adsorção para contaminantes químicos ou microbiológicos, o que reforça a necessidade de monitoramento rigoroso.
4. Como os microplásticos podem ser detectados em água de alta pureza? A identificação dessas partículas geralmente envolve técnicas analíticas avançadas. Entre as mais utilizadas estão a microespectroscopia Raman, a espectroscopia infravermelha por transformada de Fourier (µFTIR), microscopia eletrônica de varredura (SEM) e cromatografia por pirólise acoplada à espectrometria de massas (Py-GC/MS). Essas metodologias permitem caracterizar tanto a morfologia quanto a composição química das partículas.
5. A investigação de partículas faz parte dos programas tradicionais de monitoramento de PW e WFI? Historicamente, os programas de controle focam parâmetros como condutividade, carbono orgânico total (TOC), endotoxinas bacterianas e contagem microbiológica. Entretanto, com o avanço das técnicas analíticas e a crescente preocupação com contaminantes emergentes, a avaliação de partículas poliméricas começa a ser considerada em estudos de qualidade mais aprofundados.
6. Como as empresas podem reduzir o risco de geração de partículas poliméricas em sistemas de água? A prevenção envolve boas práticas de projeto e manutenção dos sistemas de purificação, escolha adequada de materiais compatíveis com aplicações farmacêuticas, qualificação periódica de filtros e membranas, além de monitoramento analítico contínuo. Programas robustos de controle permitem identificar sinais de desgaste ou degradação de materiais antes que partículas atinjam o processo produtivo.
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