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Microesferas e Resíduos Cosméticos: Impacto no Efluente e Estratégias de Rastreamento Ambiental.

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 11 de fev.
  • 7 min de leitura

Introdução


A presença de microesferas plásticas e outros resíduos cosméticos nos sistemas de esgotamento sanitário tornou-se, nas últimas duas décadas, um dos temas mais discutidos na interface entre ciência ambiental, indústria cosmética e gestão de recursos hídricos. Embora inicialmente concebidas como componentes tecnológicos inovadores — capazes de promover esfoliação controlada, estabilidade de formulação e apelo sensorial aos produtos — essas partículas passaram a ser reconhecidas como uma fonte relevante de microplásticos nos efluentes urbanos.


O debate ganhou força a partir da consolidação de evidências científicas sobre a persistência ambiental desses materiais e sua baixa eficiência de remoção em Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). Estudos conduzidos por agências como a Environmental Protection Agency e relatórios do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente apontaram que microplásticos oriundos de produtos de higiene pessoal podem atravessar etapas convencionais de tratamento e alcançar corpos hídricos receptores, acumulando-se em sedimentos e na biota aquática.


No Brasil, a discussão dialoga diretamente com o marco regulatório ambiental estabelecido pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico e com normas técnicas da Associação Brasileira de Normas Técnicas, além das diretrizes sanitárias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Em âmbito internacional, restrições específicas às microesferas plásticas em cosméticos já foram implementadas em países como Estados Unidos, Reino Unido e Canadá.


Este artigo examina, de forma aprofundada, o percurso das microesferas cosméticas desde sua incorporação em formulações até seu destino final nos sistemas de tratamento e no ambiente. Serão abordados: (i) o contexto histórico e os fundamentos teóricos que sustentam sua aplicação; (ii) os impactos ambientais e institucionais associados à sua presença em efluentes; (iii) as metodologias analíticas utilizadas para rastrear e quantificar esses resíduos; e (iv) as perspectivas futuras para mitigação e monitoramento. O objetivo é oferecer uma análise técnica e institucional, fundamentada em evidências científicas e normativas consolidadas.



Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


Origem e Evolução das Microesferas Cosméticas

As microesferas plásticas começaram a ser utilizadas em cosméticos nas décadas de 1970 e 1980, acompanhando o avanço da indústria petroquímica e a expansão dos polímeros sintéticos em produtos de consumo. Polietileno (PE), polipropileno (PP) e polimetilmetacrilato (PMMA) passaram a ser empregados como agentes esfoliantes, substituindo abrasivos naturais como sementes moídas e sílica.


Do ponto de vista tecnológico, as microesferas ofereciam vantagens claras: uniformidade granulométrica, baixa abrasividade dérmica, estabilidade físico-química e custo competitivo. Seu tamanho variava tipicamente entre 10 µm e 1 mm, enquadrando-se no conceito contemporâneo de microplásticos primários — partículas fabricadas intencionalmente em escala microscópica.


O conceito de microplástico, consolidado no início dos anos 2000, refere-se a partículas plásticas com diâmetro inferior a 5 mm. A literatura científica distingue microplásticos primários (produzidos nessa escala) de microplásticos secundários (resultantes da fragmentação de objetos maiores). As microesferas cosméticas constituem um dos exemplos mais emblemáticos de microplásticos primários.


Marco Científico e Regulação Internacional

A partir de 2012, estudos conduzidos em lagos norte-americanos demonstraram concentrações significativas de microplásticos associados a centros urbanos. Esses achados motivaram iniciativas legislativas culminando no Microbead-Free Waters Act (2015), nos Estados Unidos, que proibiu a fabricação e comercialização de cosméticos com microesferas plásticas sólidas.


Na União Europeia, o European Chemicals Agency publicou restrições progressivas no âmbito do regulamento REACH, ampliando o escopo para outros microplásticos adicionados intencionalmente. Essas decisões foram respaldadas por avaliações de risco ecológico que consideraram persistência, bioacumulação e potencial de transporte de contaminantes adsorvidos.


No Brasil, embora não haja uma proibição federal abrangente específica para microesferas em cosméticos, a discussão integra agendas de sustentabilidade e responsabilidade socioambiental corporativa, especialmente diante das exigências de ESG (Environmental, Social and Governance).


Fundamentos Técnicos: Propriedades Físico-Químicas

As microesferas plásticas apresentam:


  • Alta estabilidade química;

  • Hidrofobicidade significativa;

  • Baixa densidade relativa (em muitos casos inferior à da água);

  • Resistência à degradação biológica.


Essas características favorecem sua persistência ambiental. Em efluentes, comportam-se como partículas coloidais ou suspensas, dependendo do diâmetro e da densidade. Sua remoção em ETEs convencionais ocorre principalmente por sedimentação, flotação ou retenção em lodos. Entretanto, partículas com densidade próxima à da água podem escapar dessas etapas.


Além disso, microplásticos atuam como superfícies de adsorção para poluentes orgânicos persistentes (POPs) e metais traço, alterando sua biodisponibilidade. Estudos indicam que hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) e bifenilas policloradas (PCBs) podem se associar a essas partículas.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Impacto nos Sistemas de Tratamento de Esgoto

As ETEs convencionais, baseadas em processos primários e biológicos (lodos ativados), não foram originalmente projetadas para reter partículas plásticas microscópicas. Pesquisas apontam que a eficiência média de remoção pode ultrapassar 90% em sistemas bem operados, mas, considerando os elevados volumes de esgoto tratados diariamente, mesmo 1% remanescente representa descarga significativa.


No Brasil, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), o volume tratado ultrapassa dezenas de bilhões de metros cúbicos por ano. Pequenas concentrações residuais podem resultar em toneladas anuais de microplásticos lançadas em corpos hídricos.


Bioacumulação e Ecotoxicologia

Estudos experimentais demonstram ingestão de microplásticos por organismos planctônicos, moluscos e peixes. Embora a toxicidade direta das microesferas de polietileno seja considerada baixa, os efeitos físicos (obstrução, falsa saciedade) e químicos (liberação de aditivos e poluentes adsorvidos) são objeto de investigação contínua.


O United Nations Environment Programme destaca que microplásticos representam um desafio emergente à qualidade da água e à segurança alimentar, especialmente em regiões com alta dependência de recursos pesqueiros.


Pressão Institucional e ESG

A agenda ESG intensificou o escrutínio sobre cadeias produtivas. Empresas cosméticas têm investido na substituição de microesferas sintéticas por alternativas biodegradáveis, como partículas de celulose, sílica natural e polímeros de origem vegetal.


Instituições acadêmicas e centros de pesquisa desempenham papel estratégico ao desenvolver materiais alternativos e métodos de monitoramento. Universidades europeias e brasileiras conduzem projetos financiados por agências públicas para avaliar a degradação de biopolímeros em ambientes aquáticos.


Estudos de Caso

Um estudo conduzido em uma ETE de médio porte no sudeste brasileiro identificou concentrações médias de 2 a 8 partículas/L no efluente final. A aplicação de filtração terciária com membranas reduziu esses valores em até 99%, evidenciando o potencial de tecnologias avançadas.

Comparativamente:


Tecnologia

Eficiência de Remoção Estimada

Tratamento Primário

30–50%

Lodos Ativados

80–95%

Filtração por Membrana

>99%

Carvão Ativado

Variável (adsorção indireta)

Metodologias de Análise


Amostragem e Preparação

O rastreamento de microesferas em efluentes requer protocolos rigorosos de amostragem para evitar contaminação cruzada. Recomenda-se uso de recipientes de vidro e filtração controlada.

Normas internacionais como ISO 5667 (amostragem de água) fornecem diretrizes gerais, embora não específicas para microplásticos.


Identificação e Caracterização

As principais técnicas incluem:


  • FTIR (Espectroscopia no Infravermelho por Transformada de Fourier): identificação da assinatura polimérica.

  • Raman Microscópico: alta resolução para partículas pequenas.

  • Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV): análise morfológica.

  • Pirólise acoplada à GC-MS: quantificação baseada na decomposição térmica.


A International Organization for Standardization desenvolve diretrizes específicas para análise de microplásticos, refletindo a necessidade de harmonização metodológica.


Limitações Analíticas

  • Interferência de matéria orgânica;

  • Dificuldade em detectar partículas <10 µm;

  • Ausência de métodos totalmente padronizados globalmente.


Avanços recentes incluem automação por imageamento hiperespectral e uso de inteligência artificial para classificação espectral.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


O tema das microesferas e resíduos cosméticos transcende o debate técnico sobre formulação e alcança dimensões regulatórias, ambientais e institucionais. A evidência científica acumulada indica que, embora a contribuição individual de um produto possa parecer modesta, o impacto cumulativo em escala populacional é significativo.


O fortalecimento de marcos regulatórios, aliado à inovação em materiais biodegradáveis, representa caminho promissor. Instituições de pesquisa têm papel central na validação de alternativas e no desenvolvimento de protocolos analíticos robustos.


No contexto brasileiro, a consolidação de diretrizes específicas e o aprimoramento do monitoramento ambiental podem posicionar o país na vanguarda da gestão de microplásticos. A integração entre universidades, setor produtivo e órgãos reguladores será determinante para avançar de um modelo reativo para uma abordagem preventiva e baseada em evidências.

A transição para uma economia de menor impacto plástico exige não apenas substituição tecnológica, mas também fortalecimento da governança ambiental e investimento contínuo em ciência aplicada.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


1. O que são microesferas em cosméticos e por que elas são consideradas um problema ambiental? 

Microesferas são partículas plásticas microscópicas, geralmente compostas por polímeros como polietileno ou polipropileno, adicionadas intencionalmente a produtos cosméticos, principalmente esfoliantes e géis de limpeza. O problema ambiental surge porque essas partículas não são biodegradáveis e podem atravessar sistemas convencionais de tratamento de esgoto, alcançando rios, lagos e ambientes marinhos.


2. As Estações de Tratamento de Esgoto conseguem remover totalmente as microesferas? 

Não completamente. Embora sistemas bem operados possam remover a maior parte das partículas por sedimentação e retenção no lodo, uma fração residual pode permanecer no efluente final. Considerando o grande volume de esgoto tratado diariamente, mesmo pequenas concentrações podem representar descargas ambientais relevantes.


3. Qual é o impacto das microesferas nos ecossistemas aquáticos? 

As microesferas podem ser ingeridas por organismos aquáticos como plâncton, moluscos e peixes. Além do impacto físico — como obstrução ou falsa saciedade — essas partículas podem adsorver contaminantes químicos presentes na água, atuando como vetores de substâncias potencialmente tóxicas ao longo da cadeia alimentar.


4. Existem regulamentações específicas para microesferas cosméticas? 

Sim. Diversos países implementaram restrições ou proibições ao uso de microesferas plásticas em cosméticos, especialmente aquelas adicionadas intencionalmente como esfoliantes. Na União Europeia, restrições foram estabelecidas no âmbito do regulamento REACH, enquanto nos Estados Unidos foi aprovado o Microbead-Free Waters Act. No Brasil, o tema integra discussões regulatórias e agendas de sustentabilidade.


5. Como as microesferas podem ser rastreadas em efluentes? 

O rastreamento envolve técnicas laboratoriais especializadas, como espectroscopia no infravermelho (FTIR), microscopia Raman, microscopia eletrônica de varredura e pirólise acoplada à cromatografia gasosa com espectrometria de massas (GC-MS). Esses métodos permitem identificar o tipo de polímero, caracterizar morfologia e quantificar partículas presentes no efluente.


6. Quais são as alternativas às microesferas plásticas na indústria cosmética? 

A indústria tem investido em substitutos biodegradáveis, como partículas de celulose, sílica natural, argilas e polímeros de origem vegetal. Além disso, há esforços em pesquisa e desenvolvimento para formular produtos com menor impacto ambiental, alinhando-se a critérios ESG e às exigências regulatórias emergentes.



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