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Métodos Analíticos para Microplásticos: Fundamentos, Desafios e Avanços Tecnológicos na Identificação e Quantificação

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 12 de fev.
  • 7 min de leitura

Introdução


A presença disseminada de microplásticos em ecossistemas aquáticos, atmosféricos e terrestres tornou-se um dos temas centrais da pesquisa ambiental contemporânea. Definidos, de modo geral, como partículas plásticas com dimensões inferiores a 5 mm, os microplásticos resultam tanto da fragmentação de resíduos maiores (microplásticos secundários) quanto da produção intencional de partículas microscópicas para aplicações industriais (microplásticos primários). Nas últimas duas décadas, a literatura científica tem demonstrado que esses materiais estão presentes em águas superficiais, sedimentos, ar atmosférico, alimentos, água potável e até em matrizes biológicas humanas.


Esse cenário impõe desafios analíticos significativos. A heterogeneidade de formas (fibras, fragmentos, esferas), tamanhos (de milímetros a micrômetros e, mais recentemente, nanômetros), composições poliméricas (polietileno, polipropileno, PET, poliestireno, entre outros) e a complexidade das matrizes ambientais tornam a detecção e a quantificação de microplásticos um processo tecnicamente sofisticado. A ausência histórica de protocolos padronizados dificultou, durante anos, a comparabilidade entre estudos, limitando a consolidação de bases de dados globais confiáveis.


Para instituições de pesquisa, laboratórios analíticos e empresas dos setores ambiental, alimentício, farmacêutico e cosmético, o desenvolvimento e a aplicação de métodos robustos para análise de microplásticos representam não apenas um avanço científico, mas também um diferencial estratégico. A crescente pressão regulatória, a demanda por transparência e os compromissos de sustentabilidade corporativa ampliam a necessidade de resultados analíticos rastreáveis, reprodutíveis e tecnicamente validados.


Este artigo aborda os fundamentos históricos e teóricos relacionados aos microplásticos, discute sua relevância científica e aplicações práticas em diferentes setores produtivos, apresenta as principais metodologias analíticas empregadas na identificação e quantificação dessas partículas e, por fim, reflete sobre perspectivas futuras e desafios institucionais associados ao tema.

Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


A evolução do conceito de microplásticos

Embora fragmentos plásticos tenham sido observados em ambientes marinhos desde a década de 1970, o termo “microplástico” ganhou projeção científica a partir de 2004, quando pesquisadores da Universidade de Plymouth publicaram estudos sistematizando a ocorrência dessas partículas em praias e sedimentos marinhos. Desde então, o conceito foi refinado para incluir partículas plásticas inferiores a 5 mm, com subdivisões em mesoplásticos, microplásticos e, mais recentemente, nanoplásticos.


A partir de 2010, a ampliação do número de publicações científicas foi exponencial. Revisões sistemáticas indicam que, entre 2010 e 2023, o volume de estudos sobre microplásticos cresceu mais de dez vezes, refletindo tanto a preocupação ambiental quanto o desenvolvimento de novas técnicas analíticas.


Fundamentos físico-químicos

Do ponto de vista material, os microplásticos são polímeros sintéticos formados por cadeias macromoleculares repetitivas. Sua identificação depende da caracterização de propriedades físico-químicas específicas, tais como:

  • Espectros vibracionais (FTIR e Raman);

  • Composição elementar;

  • Massa molecular;

  • Densidade e comportamento em soluções de separação.


A estabilidade química e a hidrofobicidade desses polímeros favorecem sua persistência ambiental. Além disso, sua elevada área superficial em escala microscópica facilita a adsorção de contaminantes orgânicos persistentes, metais pesados e microrganismos, configurando potenciais vetores de poluentes.


Marcos regulatórios e normativos

Apesar do avanço científico, a regulamentação ainda se encontra em consolidação. A União Europeia tem liderado iniciativas regulatórias por meio da Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA), especialmente no que se refere à restrição de microplásticos intencionalmente adicionados a produtos.


Nos Estados Unidos, a Environmental Protection Agency (EPA) tem promovido programas de monitoramento ambiental, embora ainda não haja limites regulatórios federais consolidados para microplásticos em água potável.


No Brasil, órgãos como a ANVISA e o CONAMA acompanham o debate técnico, mas normas específicas para limites quantitativos em água ou alimentos ainda estão em desenvolvimento. A ABNT participa de comitês técnicos internacionais, especialmente em alinhamento com a ISO, que atualmente trabalha na elaboração de padrões relacionados à amostragem e caracterização de microplásticos em água (como as iniciativas do comitê ISO/TC 147).


Desafios conceituais

A ausência de uma definição universalmente harmonizada para nanoplásticos e a falta de metodologias padronizadas para partículas abaixo de 10 µm constituem desafios centrais. A variabilidade metodológica — incluindo diferenças em protocolos de digestão, separação por densidade e identificação espectroscópica — impacta diretamente a comparabilidade interlaboratorial.


A consolidação de métodos validados, com parâmetros definidos de limite de detecção (LOD), limite de quantificação (LOQ), repetibilidade e exatidão, tornou-se prioridade para a comunidade científica e para laboratórios acreditados segundo a ISO/IEC 17025.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Impactos ambientais

Estudos recentes identificaram concentrações significativas de microplásticos em águas superficiais, sedimentos marinhos e sistemas fluviais urbanos. Pesquisas publicadas na revista Science e na Environmental Science & Technology indicam que milhões de toneladas de resíduos plásticos entram nos oceanos anualmente, fragmentando-se progressivamente.


Os efeitos ecotoxicológicos incluem ingestão por organismos aquáticos, bloqueio gastrointestinal, alterações metabólicas e possível bioacumulação ao longo da cadeia alimentar. A presença de microplásticos em organismos filtradores, como mexilhões e ostras, possui implicações diretas para a segurança alimentar.


Setor de água e saneamento

Em sistemas de abastecimento, análises de microplásticos são cada vez mais demandadas para avaliar a eficiência de processos de tratamento, como coagulação-floculação, filtração e osmose reversa. Estudos indicam que estações de tratamento convencionais removem parte significativa das partículas maiores, mas partículas submicrométricas podem permanecer.


Laboratórios ambientais têm incorporado análises de microplásticos em programas de monitoramento de qualidade da água, ampliando o escopo tradicional de parâmetros físico-químicos e microbiológicos.


Indústria alimentícia

Microplásticos foram detectados em sal marinho, mel, água engarrafada e frutos do mar. Embora ainda não haja consenso sobre riscos diretos à saúde humana, a detecção dessas partículas em alimentos exige abordagens analíticas robustas para controle de qualidade e avaliação de risco.


Empresas do setor alimentício têm investido em análises preventivas para mitigar riscos reputacionais e atender exigências internacionais de exportação.


Indústria cosmética e farmacêutica

A proibição progressiva de microesferas plásticas em cosméticos esfoliantes, em diversos países, impulsionou a necessidade de métodos capazes de identificar polímeros sintéticos em formulações complexas. Além disso, embalagens plásticas podem contribuir para contaminação indireta.


Em ambientes farmacêuticos, o controle de partículas estranhas já é uma exigência regulatória rigorosa. A inclusão de microplásticos como parâmetro investigativo amplia o escopo de validação analítica.


Dados e benchmarks

Relatórios internacionais estimam concentrações variáveis de microplásticos em água potável, frequentemente na faixa de dezenas a milhares de partículas por litro, dependendo da metodologia empregada. Essa variabilidade reforça a necessidade de harmonização técnica.


Estudos comparativos demonstram que métodos baseados em espectroscopia FTIR apresentam elevada especificidade para identificação polimérica, enquanto abordagens térmicas, como pirólise acoplada à cromatografia gasosa (Py-GC/MS), oferecem quantificação por massa com elevada sensibilidade.


Metodologias de Análise


A análise de microplásticos envolve múltiplas etapas: amostragem, preparo de amostra, separação, identificação e quantificação.


1. Amostragem e preparo

Protocolos de amostragem devem minimizar contaminações cruzadas. Recomenda-se o uso de materiais não plásticos sempre que possível, além de controles em branco. Técnicas de digestão química (como uso de peróxido de hidrogênio) são empregadas para remover matéria orgânica sem degradar polímeros.


2. Separação por densidade

Soluções salinas de alta densidade (NaCl, ZnCl₂) permitem separar partículas plásticas de sedimentos minerais. A eficiência depende da densidade do polímero analisado.


3. Espectroscopia FTIR e Raman

A espectroscopia no infravermelho por transformada de Fourier (FTIR) é amplamente utilizada para identificação polimérica. O modo µ-FTIR permite análise de partículas microscópicas, gerando espectros

comparáveis a bibliotecas de referência.


A espectroscopia Raman complementa o FTIR, oferecendo melhor resolução espacial e capacidade de análise de partículas menores, embora seja sensível à fluorescência da matriz.


4. Pirólise acoplada à GC/MS (Py-GC/MS)

Essa técnica promove a degradação térmica controlada do polímero, gerando fragmentos característicos analisados por cromatografia gasosa e espectrometria de massas. É especialmente útil para quantificação por massa total de polímero.


5. Microscopia eletrônica

A microscopia eletrônica de varredura (MEV) permite caracterização morfológica detalhada. Quando associada à espectroscopia de energia dispersiva (EDS), pode fornecer dados elementares complementares.


Normas e validação

Embora ainda não exista norma internacional consolidada exclusiva para microplásticos, diretrizes da ISO relacionadas à qualidade da água (ISO 5667 para amostragem) e normas gerais de validação analítica (ISO/IEC 17025) são amplamente aplicadas.


A validação deve contemplar:

  • Limite de detecção e quantificação;

  • Recuperação analítica;

  • Precisão intra e interlaboratorial;

  • Robustez metodológica.


Limitações e avanços

Limitações incluem alto custo instrumental, necessidade de operadores especializados e desafios na detecção de nanoplásticos. Avanços recentes envolvem automação de identificação por inteligência espectral e integração com técnicas de imagem hiperespectral.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


A análise de microplásticos consolidou-se como um campo interdisciplinar que integra química analítica, ciência ambiental, engenharia sanitária e toxicologia. O desenvolvimento de métodos padronizados e validados é condição essencial para que dados gerados por diferentes laboratórios sejam comparáveis e utilizáveis em políticas públicas.


Instituições científicas e laboratórios acreditados desempenham papel central na construção dessa base técnica, contribuindo para a harmonização metodológica e para a formação de profissionais capacitados.

No horizonte próximo, espera-se avanço significativo na detecção de nanoplásticos, maior integração entre técnicas espectroscópicas e térmicas e consolidação de marcos regulatórios internacionais. A adoção de boas práticas laboratoriais, aliada a investimentos em tecnologia e pesquisa aplicada, será determinante para enfrentar os desafios analíticos impostos por esse contaminante emergente.


Mais do que um tema ambiental, os microplásticos representam um paradigma contemporâneo de como a ciência analítica precisa evoluir continuamente para responder às complexidades da sociedade industrial.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


1. O que são microplásticos? Microplásticos são partículas sólidas de polímeros sintéticos com dimensões inferiores a 5 mm. Podem ser classificados como primários (produzidos intencionalmente em tamanho microscópico) ou secundários (resultantes da fragmentação de resíduos plásticos maiores).


2. Em quais matrizes os microplásticos podem ser encontrados? Eles já foram identificados em água superficial e potável, sedimentos, efluentes, ar atmosférico, alimentos (como sal e frutos do mar), cosméticos e até em amostras biológicas humanas. Sua presença é considerada ubíqua em ambientes urbanos e naturais.


3. Por que a análise de microplásticos é tecnicamente desafiadora? Devido à diversidade de tamanhos, formas, cores e composições poliméricas, além da complexidade das matrizes analisadas. A ausência histórica de padronização metodológica também dificultou a comparabilidade entre resultados laboratoriais.


4. Quais técnicas laboratoriais são utilizadas para identificar microplásticos? Entre as principais técnicas estão a espectroscopia FTIR (infravermelho por transformada de Fourier), espectroscopia Raman, pirólise acoplada à GC/MS (Py-GC/MS), microscopia eletrônica e análises térmicas. A escolha do método depende do objetivo da análise (identificação, quantificação por massa ou por partícula).


5. Existe legislação que estabelece limites para microplásticos? Atualmente, não há limites quantitativos amplamente harmonizados em âmbito global para microplásticos em água potável ou alimentos. Entretanto, organismos reguladores internacionais e nacionais vêm desenvolvendo diretrizes e estudos técnicos para subsidiar futuras regulamentações.


6. Como garantir a confiabilidade dos resultados analíticos? A confiabilidade depende de protocolos rigorosos de amostragem, controle de contaminação cruzada, validação metodológica (incluindo avaliação de limite de detecção, precisão e recuperação) e, preferencialmente, atuação de laboratórios acreditados segundo a ISO/IEC 17025.



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