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O que é Legionella? Onde Vive e Como Causa Doença.

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 7 de fev.
  • 7 min de leitura

Introdução


Entre os microrganismos ambientais capazes de impactar diretamente a saúde pública, poucos ilustram de maneira tão clara a interface entre infraestrutura predial, microbiologia ambiental e vigilância epidemiológica quanto as bactérias do gênero Legionella. Embora invisível a olho nu e naturalmente presente em ambientes aquáticos, esse microrganismo tornou-se objeto de intensa investigação científica, regulamentação técnica e monitoramento institucional após estar associado a surtos de pneumonia de elevada gravidade em diferentes países.


Compreender o que é Legionella, onde ela vive e como causa doença não é apenas um exercício acadêmico. Trata-se de um tema central para hospitais, indústrias, hotéis, edifícios corporativos, sistemas de climatização e quaisquer organizações que operem redes de água complexas. A bactéria encontra, nesses sistemas artificiais, condições ideais para multiplicação, especialmente quando há temperatura adequada, presença de biofilme e estagnação hídrica.


No contexto atual, marcado por crescente urbanização, edifícios de alta densidade e preocupação com qualidade ambiental interna, o controle de Legionella tornou-se componente estratégico de programas de gestão de risco microbiológico. Normas internacionais como a ISO 11731 e diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), além de regulamentações de agências como a EPA (Environmental Protection Agency) nos Estados Unidos e recomendações técnicas adotadas em diversos países europeus, reforçam a necessidade de monitoramento sistemático.


Este artigo apresenta uma abordagem abrangente sobre o tema. Inicialmente, discute-se o contexto histórico da descoberta da bactéria e os fundamentos microbiológicos que explicam seu comportamento ecológico. Em seguida, analisam-se sua importância científica e suas implicações práticas em ambientes institucionais e industriais. Posteriormente, são descritas metodologias laboratoriais de detecção e quantificação, com referência a normas técnicas reconhecidas. Por fim, são discutidas perspectivas futuras e estratégias institucionais de prevenção.



Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


A Descoberta da Bactéria

A história da Legionella está diretamente associada a um episódio epidemiológico ocorrido em 1976, durante uma convenção da American Legion na cidade da Filadélfia, Estados Unidos. Após o evento, mais de 200 participantes desenvolveram um quadro de pneumonia grave, resultando em 34 mortes. A investigação conduzida pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) levou à identificação de um agente bacteriano até então desconhecido, posteriormente denominado Legionella pneumophila.


O episódio ficou conhecido como “Doença dos Legionários” e marcou o início de uma nova área de pesquisa voltada à microbiologia de sistemas hídricos artificiais. Desde então, mais de 60 espécies de Legionella foram identificadas, sendo que aproximadamente metade está associada a infecções humanas. A espécie L. pneumophila, especialmente o sorogrupo 1, permanece como a principal responsável por surtos documentados.


Características Microbiológicas

Legionella é uma bactéria gram-negativa, aeróbia, em forma de bastonete. Possui características fisiológicas que explicam sua persistência ambiental:


  • Capacidade de sobreviver em temperaturas entre 20 °C e 50 °C, com crescimento ideal entre 35 °C e 45 °C;

  • Resistência relativa à cloração em ambientes protegidos por biofilme;

  • Capacidade de parasitar protozoários, como amebas, utilizando-os como hospedeiros intracelulares.


A interação com protozoários é um ponto central em sua ecologia. No ambiente aquático, Legionella invade e multiplica-se dentro de amebas, protegendo-se de condições adversas e de agentes desinfetantes. Esse mecanismo também explica sua patogenicidade em humanos, pois a bactéria utiliza estratégias semelhantes para invadir macrófagos pulmonares.


Onde Vive a Legionella?

Naturalmente, a bactéria é encontrada em lagos, rios e solos úmidos. Nessas condições, raramente representa risco significativo. O problema surge quando a água é incorporada a sistemas artificiais que favorecem sua multiplicação:


  • Torres de resfriamento;

  • Sistemas de ar-condicionado central;

  • Redes de água quente sanitária;

  • Chuveiros e duchas;

  • Fontes decorativas;

  • Equipamentos hospitalares que utilizam água.


A formação de biofilmes nas superfícies internas de tubulações cria um microambiente propício ao crescimento bacteriano. Biofilmes são estruturas complexas compostas por microrganismos e matriz extracelular polimérica, que conferem proteção contra agentes químicos e estresse ambiental.


Mecanismo de Transmissão e Patogênese

A infecção ocorre principalmente por inalação de aerossóis contaminados. Diferentemente de outras doenças respiratórias, não há transmissão significativa de pessoa para pessoa.


Após inalada, a bactéria alcança os alvéolos pulmonares, onde é fagocitada por macrófagos. Em vez de ser destruída, ela interfere no processo de fusão fagossomo-lisossomo, permitindo sua multiplicação intracelular. Esse mecanismo resulta em inflamação pulmonar intensa e pode levar a pneumonia grave.

Clinicamente, a infecção pode manifestar-se de duas formas principais:


  1. Doença dos Legionários – pneumonia potencialmente fatal;

  2. Febre de Pontiac – quadro mais brando, semelhante a uma síndrome gripal.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Impacto na Saúde Pública

Estudos epidemiológicos indicam que a Legionella é responsável por uma parcela relevante das pneumonias adquiridas na comunidade e, sobretudo, em ambientes hospitalares. Dados do CDC estimam milhares de casos anuais apenas nos Estados Unidos, com taxa de letalidade que pode ultrapassar 10%, especialmente em idosos e imunossuprimidos.


O aumento da expectativa de vida e o crescimento de populações vulneráveis tornam o controle da bactéria um desafio contínuo.


Ambientes Hospitalares

Hospitais representam ambientes de alto risco. Pacientes imunocomprometidos, unidades de terapia intensiva e sistemas de água complexos criam condições propícias para surtos. Programas de gerenciamento de água são recomendados por agências internacionais, incluindo:


  • CDC (Guideline for Preventing Healthcare-Associated Pneumonia);

  • ASHRAE Standard 188 (Legionellosis: Risk Management for Building Water Systems).


Esses programas incluem monitoramento periódico, controle de temperatura e desinfecção sistemática.


Indústria e Edifícios Comerciais

Torres de resfriamento industriais são frequentemente associadas a surtos comunitários. O aerossol gerado pode se dispersar por longas distâncias, afetando áreas urbanas amplas. Casos registrados no Reino Unido, França e Espanha evidenciam a necessidade de regulamentação rigorosa.


No Brasil, embora não haja norma federal específica exclusiva para Legionella, recomendações técnicas baseiam-se em diretrizes internacionais e em normas da ANVISA relacionadas à qualidade da água e controle de infecção hospitalar.


Estudos de Caso

Em 2015, um surto em Nova York foi associado a torres de resfriamento mal higienizadas, resultando em múltiplos óbitos e levando à criação de regulamentação municipal específica para inspeção periódica desses sistemas.


Esse episódio ilustra como a vigilância ambiental é elemento-chave de prevenção.


Dimensão Econômica

Além do impacto sanitário, surtos geram custos significativos:


  • Interrupção de atividades;

  • Processos judiciais;

  • Danos reputacionais;

  • Custos de descontaminação.


Investimentos preventivos em monitoramento são, portanto, economicamente justificáveis.


Metodologias de Análise


Cultura Microbiológica

O método clássico de detecção é a cultura em meio BCYE (Buffered Charcoal Yeast Extract), conforme descrito na ISO 11731. Esse método permite quantificação em UFC/L (unidades formadoras de colônia por litro).


Vantagens:

  • Permite isolamento da bactéria viva;

  • Possibilita tipagem posterior.


Limitações:

  • Tempo de incubação de até 10 dias;

  • Pode não detectar células viáveis não cultiváveis (VBNC).


PCR (Reação em Cadeia da Polimerase)

Métodos moleculares como qPCR oferecem resultados mais rápidos e alta sensibilidade. São amplamente utilizados em monitoramento ambiental.


Vantagens:

  • Resultado em poucas horas;

  • Alta sensibilidade.


Limitações:

  • Detecta DNA de células mortas;

  • Não diferencia viabilidade bacteriana.

Métodos Complementares


  • Testes imunocromatográficos para diagnóstico clínico (antígeno urinário);

  • Sequenciamento genético para investigação epidemiológica;

  • Técnicas de tipagem molecular como MLST.


Normas técnicas aplicáveis incluem:

  • ISO 11731 (detecção e enumeração);

  • ISO 12869 (PCR);

  • Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater (SMWW).


Avanços Tecnológicos

Tecnologias emergentes, como PCR digital e métodos baseados em viabilidade (PMA-qPCR), buscam superar limitações tradicionais, permitindo diferenciação entre células viáveis e não viáveis.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras

A Legionella representa um exemplo paradigmático de como microrganismos ambientais podem tornar-se relevantes no contexto da infraestrutura moderna. Sua presença natural em ecossistemas aquáticos contrasta com o risco ampliado em sistemas artificiais mal gerenciados.


Do ponto de vista científico, o estudo da bactéria contribuiu para avanços na compreensão de interações bactéria-protozoário e mecanismos de infecção intracelular. Institucionalmente, impulsionou o desenvolvimento de programas estruturados de gestão de risco hídrico.

O futuro do controle de Legionella está associado a três eixos principais:


  1. Integração de monitoramento microbiológico com gestão predial inteligente;

  2. Desenvolvimento de métodos analíticos mais rápidos e específicos;

  3. Consolidação de regulamentações nacionais mais robustas.


Para instituições acadêmicas, laboratoriais e industriais, a adoção de protocolos baseados em evidência científica não apenas reduz riscos sanitários, mas também fortalece a governança e a responsabilidade socioambiental.


A vigilância contínua, aliada a pesquisa aplicada e inovação tecnológica, permanece como o caminho mais consistente para mitigar os impactos da Legionella em ambientes construídos.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


1. O que é Legionella? 

Legionella é um gênero de bactérias gram-negativas naturalmente presente em ambientes aquáticos, como rios e lagos. Algumas espécies, especialmente Legionella pneumophila, podem causar infecção respiratória em humanos quando inaladas por meio de aerossóis contaminados.


2. Onde a Legionella costuma viver em ambientes construídos? 

Em sistemas artificiais de água, como torres de resfriamento, redes de água quente, chuveiros, sistemas de ar-condicionado e fontes decorativas. A bactéria se multiplica principalmente em água morna (entre 20 °C e 45 °C), especialmente quando há formação de biofilme e estagnação.


3. Como ocorre a transmissão da doença? 

A infecção acontece pela inalação de gotículas microscópicas de água contaminada. Não há transmissão significativa de pessoa para pessoa. A bactéria atinge os pulmões e pode provocar um quadro de pneumonia conhecido como Doença dos Legionários.


4. Toda presença de Legionella na água representa risco imediato? 

Nem sempre. A presença da bactéria em baixas concentrações não implica necessariamente doença. O risco depende da carga bacteriana, da geração de aerossóis e da vulnerabilidade das pessoas expostas, como idosos ou imunossuprimidos.


5. Como a Legionella é identificada tecnicamente? 

A detecção é realizada por métodos laboratoriais como cultura microbiológica (conforme ISO 11731) e técnicas moleculares, como PCR. Esses métodos permitem quantificar a bactéria e avaliar a necessidade de medidas corretivas no sistema hídrico.


6. É possível prevenir a proliferação de Legionella? 

Sim. A prevenção envolve controle de temperatura da água, limpeza periódica de reservatórios e torres de resfriamento, monitoramento microbiológico regular e implementação de planos de gerenciamento de risco hídrico, especialmente em hospitais e edifícios de grande porte.



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