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Filtro de Água Remove Microplásticos? Evidências Científicas, Limites Tecnológicos e Implicações Institucionais.

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • há 6 dias
  • 7 min de leitura

Introdução


Nas últimas duas décadas, a presença de microplásticos no ambiente deixou de ser um tema restrito à oceanografia para ocupar posição central em debates regulatórios, sanitários e tecnológicos. Detectados inicialmente em ambientes marinhos remotos no início dos anos 2000, esses fragmentos plásticos com dimensões inferiores a 5 mm passaram a ser identificados em rios, solos agrícolas, alimentos, bebidas e, mais recentemente, na água destinada ao consumo humano. Estudos conduzidos por instituições como a World Health Organization (WHO) e a United States Environmental Protection Agency (EPA) vêm acompanhando a expansão do tema e reconhecem a necessidade de ampliar a base de dados sobre exposição e risco.


A questão que emerge com frequência em ambientes institucionais e industriais é objetiva: filtros domésticos e sistemas de tratamento são capazes de remover microplásticos da água? A resposta, como ocorre em muitos temas complexos, depende do tipo de tecnologia empregada, do tamanho das partículas envolvidas, das condições operacionais e da metodologia de detecção utilizada para avaliar a eficiência.


Do ponto de vista científico, compreender a capacidade de remoção de microplásticos envolve integrar conhecimentos de engenharia sanitária, química analítica, ciência de materiais e toxicologia ambiental. Para empresas do setor de saneamento, indústrias alimentícias, laboratórios de controle de qualidade e instituições acadêmicas, o tema tem implicações diretas na validação de processos, no cumprimento de normas técnicas e na comunicação transparente com consumidores e órgãos reguladores.


Este artigo examina, sob uma perspectiva técnica e institucional, se filtros de água removem microplásticos e em que condições isso ocorre. Inicialmente, apresenta-se o contexto histórico da emergência dos microplásticos como preocupação científica, bem como os fundamentos teóricos relacionados à sua formação, classificação e comportamento em sistemas aquosos. Em seguida, discute-se a importância científica e as aplicações práticas, com foco em tecnologias de filtração e seus desempenhos documentados. Posteriormente, são detalhadas metodologias analíticas utilizadas para quantificação de microplásticos e avaliação da eficiência de remoção. Por fim, são propostas perspectivas futuras e recomendações para instituições que atuam na gestão da qualidade da água.



Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


Emergência do conceito de microplásticos

O termo “microplástico” foi amplamente difundido após publicação científica de 2004 que descreveu fragmentos plásticos microscópicos em ambientes marinhos do Atlântico Norte. Desde então, consolidou-se a definição operacional de microplásticos como partículas poliméricas sintéticas com tamanho inferior a 5 mm, subdivididas em microplásticos primários (produzidos intencionalmente nesse tamanho, como microesferas industriais) e secundários (resultantes da fragmentação de objetos maiores).


A partir da década de 2010, estudos passaram a identificar microplásticos em água potável. Uma análise amplamente citada, publicada em 2018, indicou a presença dessas partículas em amostras de água engarrafada comercializadas globalmente. Embora a variabilidade metodológica entre estudos seja significativa, os resultados apontaram para a ubiquidade do contaminante.


Em 2019, a World Health Organization publicou um relatório técnico sobre microplásticos em água potável, reconhecendo lacunas de conhecimento, mas ressaltando que, com base nas evidências disponíveis, o risco à saúde humana não parecia elevado nas concentrações então detectadas. Ainda assim, recomendou-se a redução da poluição plástica na fonte e o aprimoramento dos métodos analíticos.


Fundamentos físico-químicos

A eficiência de um filtro na remoção de microplásticos depende essencialmente de três fatores:


  1. Distribuição de tamanho das partículas

  2. Natureza do polímero

  3. Interações físico-químicas com o meio filtrante


Os microplásticos encontrados em água podem variar desde alguns micrômetros até frações submicrométricas, frequentemente denominadas nanoplásticos. Essa variação é determinante, pois sistemas convencionais de filtração apresentam limites físicos de retenção associados ao tamanho dos poros ou à dinâmica de adsorção.


Do ponto de vista físico, a retenção pode ocorrer por:


  • Exclusão por tamanho (peneiramento)

  • Adsorção superficial

  • Interceptação e difusão

  • Interações eletrostáticas


Polímeros como polietileno (PE), polipropileno (PP), poliestireno (PS) e tereftalato de polietileno (PET) apresentam densidades distintas, podendo flutuar ou sedimentar dependendo do meio. Em sistemas pressurizados, como filtros domésticos, a hidrodinâmica influencia a probabilidade de retenção.


Tecnologias de filtração

Os principais sistemas utilizados para tratamento de água, tanto em escala doméstica quanto institucional, incluem:


  • Filtros de sedimentos (malhas físicas)

  • Carvão ativado

  • Membranas de microfiltração (MF)

  • Ultrafiltração (UF)

  • Nanofiltração (NF)

  • Osmose reversa (RO)


Em termos teóricos, microplásticos com dimensões superiores a 1–10 µm tendem a ser eficientemente removidos por microfiltração e ultrafiltração. Já partículas menores podem demandar nanofiltração ou osmose reversa.


Estudos experimentais indicam que sistemas de osmose reversa podem alcançar remoções superiores a 90–99% para partículas micrométricas. No entanto, a eficiência real depende de integridade da membrana, pressão operacional e manutenção adequada.


Aspectos regulatórios

Atualmente, não há limites específicos universalmente estabelecidos para microplásticos em água potável. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e o Ministério da Saúde regulam parâmetros microbiológicos e físico-químicos por meio da Portaria GM/MS nº 888/2021, mas microplásticos ainda não figuram como parâmetro obrigatório.


Na União Europeia, discussões regulatórias estão em curso no âmbito da European Chemicals Agency (ECHA), especialmente no que diz respeito a microplásticos intencionalmente adicionados a produtos.

Essa ausência de padronização reforça a importância de estudos científicos robustos e metodologias harmonizadas.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Implicações para saúde e meio ambiente

Embora a toxicologia dos microplásticos ainda esteja em investigação, há preocupação quanto a:


  • Potencial inflamatório

  • Transporte de contaminantes adsorvidos (metais, pesticidas)

  • Formação de biofilmes microbianos


Em ambientes industriais, como plantas de bebidas, laticínios e farmacêuticas, a presença de microplásticos pode comprometer padrões de qualidade e certificações como ISO 22000 ou FSSC 22000.


Eficiência dos filtros domésticos

Pesquisas laboratoriais indicam que:


  • Filtros de carvão ativado removem parcialmente microplásticos maiores, principalmente por retenção física.

  • Sistemas de osmose reversa apresentam as maiores taxas de remoção.

  • Filtros simples de jarra têm desempenho variável, frequentemente limitado a partículas maiores.


Em estudo experimental conduzido em ambiente universitário europeu (2021), sistemas de osmose reversa reduziram concentrações de microplásticos acima de 1 µm em mais de 95%. Já filtros de sedimentos simples apresentaram redução inferior a 50%, dependendo da granulometria.


Aplicações institucionais

Instituições hospitalares, laboratórios farmacêuticos e indústrias cosméticas frequentemente utilizam sistemas combinados:


  • Pré-filtração de sedimentos

  • Carvão ativado granular

  • Ultrafiltração

  • Osmose reversa


Essa abordagem em múltiplas barreiras aumenta significativamente a probabilidade de remoção de partículas poliméricas.


Benchmark comparativo simplificado

Tecnologia

Faixa típica de retenção

Eficiência esperada para microplásticos (>1 µm)

Filtro de sedimentos

>5–20 µm

Moderada (dependente do tamanho)

Carvão ativado

Variável

Parcial

Ultrafiltração

0,01–0,1 µm

Alta

Osmose reversa

<0,001 µm

Muito alta

Metodologias de Análise


A avaliação da eficiência de remoção exige métodos analíticos robustos.


Técnicas mais utilizadas

  • FTIR (Espectroscopia no Infravermelho por Transformada de Fourier): Identificação química do polímero.

  • Raman microscópico: Alta resolução para partículas pequenas.

  • Microscopia eletrônica de varredura (MEV): Análise morfológica.

  • Pirólise acoplada a GC-MS: Quantificação por degradação térmica.


Normas internacionais como ISO 16094 (em desenvolvimento) buscam padronizar procedimentos para análise de microplásticos em água.


Limitações

  • Falta de padronização universal.

  • Risco de contaminação cruzada durante coleta.

  • Dificuldade na quantificação de nanoplásticos.


Além disso, a recuperação analítica pode variar conforme o protocolo de digestão orgânica utilizado para remover matéria interferente.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


A evidência científica disponível indica que filtros de água podem remover microplásticos, mas a eficiência depende diretamente da tecnologia empregada. Sistemas baseados em membranas — especialmente ultrafiltração e osmose reversa — apresentam desempenho significativamente superior aos filtros simples de sedimentos ou carvão ativado isolado.


Para instituições e indústrias, a adoção de abordagem multicamadas, aliada à validação periódica por métodos analíticos reconhecidos, constitui prática recomendada. Além disso, a integração de programas de monitoramento e pesquisa colaborativa com universidades pode contribuir para maior compreensão dos riscos e das soluções tecnológicas.


No horizonte regulatório, espera-se que novos padrões internacionais incorporem parâmetros específicos para microplásticos em água potável. A consolidação de metodologias harmonizadas será determinante para comparabilidade de dados e tomada de decisão baseada em evidências.


Em síntese, filtros de água removem microplásticos — especialmente quando empregam tecnologias avançadas de membranas. Entretanto, a eficácia real depende de projeto, manutenção, validação e monitoramento contínuo. Para o setor científico e institucional, o desafio não reside apenas na remoção, mas na construção de um arcabouço técnico-regulatório que assegure qualidade, transparência e proteção à saúde pública em um cenário de crescente complexidade ambiental.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


1. Filtros domésticos removem microplásticos da água? 

Depende da tecnologia empregada. Filtros simples de sedimentos ou carvão ativado podem reter partículas maiores, mas apresentam eficiência limitada para microplásticos de menor tamanho. Sistemas com membranas, como ultrafiltração e osmose reversa, demonstram maior capacidade de retenção, especialmente para partículas micrométricas e submicrométricas.


2. Todos os tipos de microplásticos são removidos com a mesma eficiência? 

Não. A eficiência de remoção varia conforme o tamanho, a forma e o tipo de polímero. Partículas maiores tendem a ser mais facilmente retidas por barreiras físicas. Já fragmentos muito pequenos, próximos à faixa nanométrica, exigem tecnologias de filtração mais avançadas e controle rigoroso das condições operacionais.


3. O carvão ativado é eficaz na remoção de microplásticos? 

O carvão ativado pode contribuir para a retenção de partículas maiores por mecanismos físicos e, eventualmente, por adsorção superficial. Contudo, sua eficácia isolada é limitada quando comparada a sistemas com membranas de alta eficiência. Em instalações industriais, ele costuma atuar como etapa complementar dentro de um sistema multicamadas.


4. Sistemas de osmose reversa garantem eliminação total de microplásticos? 

A osmose reversa apresenta elevada eficiência de remoção, frequentemente superior a 90–99% para partículas acima de determinados limites dimensionais. Entretanto, a performance depende da integridade da membrana, da manutenção preventiva e da ausência de falhas operacionais. Nenhum sistema deve ser considerado absolutamente infalível sem monitoramento contínuo.


5. Como se comprova tecnicamente que um filtro remove microplásticos? 

A comprovação exige análises laboratoriais específicas antes e após a filtração. Técnicas como FTIR, espectroscopia Raman, microscopia eletrônica e pirólise acoplada a GC-MS permitem identificar e quantificar partículas poliméricas. Protocolos padronizados e controle de contaminação são fundamentais para assegurar confiabilidade nos resultados.


6. A instalação de filtros é suficiente para eliminar o risco associado aos microplásticos? 

A filtração é uma etapa relevante, mas não substitui políticas de prevenção na fonte, gestão adequada de resíduos plásticos e controle ambiental mais amplo. Do ponto de vista institucional, a combinação entre tecnologia adequada, monitoramento analítico periódico e conformidade regulatória representa a abordagem mais consistente para reduzir a exposição.



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