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Controle de Biofilme: Por que é o “Calcanhar de Aquiles” da Legionella.

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 10 de fev.
  • 7 min de leitura

Introdução


Desde a identificação do surto ocorrido em 1976 durante a convenção da American Legion, na Filadélfia, que levou à descoberta da bactéria Legionella pneumophila, a compreensão dos mecanismos de persistência desse microrganismo em sistemas hídricos evoluiu substancialmente. Ainda assim, quase cinco décadas depois, surtos associados a sistemas prediais, torres de resfriamento e instalações hospitalares continuam a ser registrados em diversos países, inclusive no Brasil. O que explica essa persistência?


A resposta, cada vez mais consensual na literatura científica, reside no biofilme. A Legionella pneumophila não sobrevive isoladamente em sistemas aquáticos complexos: ela se integra a comunidades microbianas organizadas, protegidas por uma matriz extracelular que favorece resistência química, estabilidade ecológica e interação com protozoários hospedeiros. O biofilme transforma superfícies internas de tubulações, reservatórios e torres de resfriamento em ecossistemas altamente estruturados, nos quais a bactéria encontra abrigo contra desinfetantes e variações ambientais.


A relevância desse tema ultrapassa o campo microbiológico. Instituições hospitalares, indústrias farmacêuticas, plantas de alimentos e bebidas, hotéis, shopping centers e prédios corporativos dependem de sistemas de água seguros e controlados. A falha no controle de biofilme não representa apenas um risco sanitário, mas também um passivo regulatório, jurídico e reputacional. Normas internacionais, como as diretrizes da World Health Organization e da Centers for Disease Control and Prevention, enfatizam a necessidade de planos estruturados de gestão de risco para Legionella, nos quais o biofilme ocupa posição central.


Este artigo examina por que o controle de biofilme é frequentemente considerado o “calcanhar de Aquiles” no enfrentamento da Legionella. Serão discutidos o contexto histórico da descoberta da bactéria, os fundamentos teóricos da formação de biofilmes, a importância científica e prática do tema em diferentes setores industriais, as metodologias analíticas aplicadas à sua detecção e monitoramento, e, por fim, as perspectivas futuras para mitigação desse desafio persistente.



Contexto histórico e fundamentos teóricos


A descoberta e a consolidação do conceito


O surto de pneumonia ocorrido em 1976 marcou o início de uma nova era na microbiologia ambiental. A bactéria isolada, posteriormente denominada Legionella pneumophila, revelou um padrão epidemiológico associado a sistemas de climatização e água quente sanitária. A partir da década de 1980, investigações microbiológicas demonstraram que a bactéria raramente é encontrada em água livre; sua presença está fortemente associada a superfícies colonizadas por biofilmes.


O conceito de biofilme, embora já descrito em estudos anteriores de microbiologia ambiental, ganhou robustez científica com os trabalhos de J. William Costerton, que consolidou a ideia de que microrganismos vivem predominantemente em comunidades estruturadas, e não como células planctônicas isoladas. A formação do biofilme envolve adesão inicial à superfície, produção de matriz extracelular polimérica (EPS), maturação estrutural e eventual dispersão.


No caso da Legionella, a interação com amebas de vida livre, como Acanthamoeba spp., representa um componente adicional. A bactéria pode se replicar intracelularmente nesses protozoários, o que não apenas amplia sua persistência ambiental, mas também contribui para maior virulência. O biofilme oferece o ambiente ideal para esse ciclo ecológico.


Estrutura e dinâmica do biofilme

O biofilme é composto por uma matriz tridimensional formada por polissacarídeos, proteínas, ácidos nucleicos extracelulares e água. Essa matriz funciona como barreira física à penetração de biocidas e desinfetantes. Além disso, cria gradientes de oxigênio e nutrientes que favorecem a diversidade microbiana.

A resistência do biofilme à desinfecção está associada a múltiplos fatores:


  • Difusão limitada de agentes oxidantes;

  • Presença de células persistentes metabolicamente inativas;

  • Interações sinérgicas entre espécies;

  • Capacidade de adaptação genética e expressão diferencial de genes.


Do ponto de vista termodinâmico e hidrodinâmico, superfícies rugosas, zonas de baixa turbulência e temperaturas entre 25 °C e 45 °C favorecem a colonização por Legionella. Sistemas de água quente mal balanceados e pontos de estagnação tornam-se nichos críticos.


Marcos regulatórios

A crescente evidência científica levou à incorporação de requisitos específicos em normas e legislações. Nos Estados Unidos, a norma ASHRAE 188 estabelece diretrizes para programas de gestão de risco. A Environmental Protection Agency também publicou orientações sobre controle de Legionella em sistemas prediais.


No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária prevê monitoramento microbiológico em ambientes de assistência à saúde, e normas técnicas da ABNT abordam qualidade da água e manutenção de sistemas de climatização. Ainda que o termo “biofilme” nem sempre apareça explicitamente na legislação, sua implicação é inequívoca: o controle microbiológico efetivo depende do controle estrutural das superfícies colonizadas.


Importância científica e aplicações práticas


Impacto em ambientes hospitalares

Hospitais são particularmente vulneráveis à colonização por Legionella devido à presença de pacientes imunocomprometidos. Estudos multicêntricos europeus indicam que a colonização de sistemas de água hospitalar pode alcançar prevalências superiores a 30% quando o controle de biofilme é inadequado. Casos de pneumonia nosocomial associada à Legionella apresentam mortalidade significativa, especialmente em pacientes transplantados ou em terapia intensiva.


Programas de controle que combinam choque térmico, hipercloração e monitoramento sistemático demonstraram redução substancial de colonização apenas quando associados a intervenções físicas, como limpeza mecânica de reservatórios e substituição de tubulações antigas.


Torres de resfriamento e impacto urbano

Torres de resfriamento representam outra aplicação crítica. Aerossóis gerados nesses sistemas podem disseminar a bactéria a longas distâncias. Surtos urbanos documentados em países europeus e nos Estados Unidos evidenciaram a relação direta entre biofilme acumulado nas superfícies internas e altas concentrações de Legionella na água circulante.


Empresas de facilities management passaram a adotar protocolos mais rigorosos de limpeza física periódica, além do uso rotativo de biocidas oxidantes e não oxidantes para reduzir adaptação microbiana.


Indústria farmacêutica e cosmética

Em ambientes farmacêuticos, a presença de biofilme em sistemas de água purificada ou água para injetáveis (WFI) representa risco crítico. A Farmacopeia Brasileira e guias internacionais exigem controle microbiológico rigoroso, incluindo limites para contagem total e endotoxinas.


O biofilme pode atuar como reservatório de contaminação intermitente, liberando células bacterianas em momentos de variação hidráulica. A substituição de aço carbono por aço inoxidável polido e a implementação de loops sanitários com circulação contínua são estratégias amplamente empregadas.


Dados comparativos

Parâmetro

Água planctônica

Água com biofilme estabelecido

Resistência a cloro

Baixa

Elevada

Persistência ambiental

Transitória

Prolongada

Variabilidade de contagem

Estável

Flutuante

Necessidade de intervenção mecânica

Rara

Frequente

Esses dados reforçam a noção de que intervenções exclusivamente químicas são insuficientes quando o biofilme já se encontra maduro.


Metodologias de análise


Cultura microbiológica

O método clássico para detecção de Legionella baseia-se em cultura seletiva, utilizando meios como BCYE (Buffered Charcoal Yeast Extract). Protocolos descritos no Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater orientam a preparação de amostras e incubação por até 10 dias.


Limitação: a técnica pode subestimar células viáveis não cultiváveis (VBNC), comuns em biofilmes submetidos a estresse químico.


PCR e métodos moleculares

A reação em cadeia da polimerase (PCR), inclusive em tempo real (qPCR), permite detecção mais rápida e sensível. Normas ISO 12869 descrevem procedimentos para quantificação molecular. Entretanto, a técnica não distingue necessariamente células viáveis de DNA residual.


ATP-bioluminescência

Métodos baseados em ATP são amplamente utilizados para avaliação rápida de carga biológica em superfícies. Embora não específicos para Legionella, funcionam como indicadores indiretos de biofilme.


Microscopia e análise estrutural

Microscopia confocal e técnicas de coloração fluorescente permitem visualizar arquitetura tridimensional do biofilme. Em pesquisa acadêmica, essas metodologias fornecem dados relevantes sobre espessura, densidade e heterogeneidade estrutural.


Desafios analíticos


  • Amostragem representativa de biofilme aderido;

  • Interpretação de resultados moleculares;

  • Correlação entre contagem ambiental e risco clínico.


Avanços recentes incluem biossensores e monitoramento online de parâmetros físico-químicos associados à formação de biofilme, como TOC e condutividade.


Considerações finais e perspectivas futuras


O controle de biofilme permanece o ponto mais vulnerável nos programas de prevenção da Legionella. A experiência acumulada nas últimas décadas demonstra que intervenções reativas são insuficientes; é necessária abordagem sistêmica, integrando engenharia, microbiologia e gestão de risco.

Perspectivas futuras incluem:


  • Desenvolvimento de superfícies antimicrobianas com nanotecnologia;

  • Monitoramento digital contínuo com sensores inteligentes;

  • Integração de análise preditiva baseada em dados históricos;

  • Harmonização regulatória internacional.


Instituições que adotam programas estruturados de gestão de água, alinhados às diretrizes da World Health Organization, tendem a apresentar menor incidência de surtos e maior previsibilidade operacional.

Em síntese, enquanto a Legionella continuar encontrando abrigo em biofilmes resilientes, o desafio permanecerá. O avanço científico não elimina o problema por si só; ele exige aplicação consistente de conhecimento técnico, monitoramento rigoroso e compromisso institucional contínuo com a segurança sanitária.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


1. O que é biofilme e por que ele é relevante no controle da Legionella? 

Biofilme é uma comunidade estruturada de microrganismos aderida a superfícies e envolta por uma matriz extracelular protetora. No contexto da Legionella pneumophila, o biofilme funciona como abrigo ecológico, favorecendo sua sobrevivência, multiplicação e resistência a agentes desinfetantes em sistemas de água prediais e industriais.


2. Por que o biofilme é considerado o “calcanhar de Aquiles” no combate à Legionella? 

Porque a simples aplicação de desinfetantes na água não é suficiente para eliminar microrganismos protegidos na matriz do biofilme. Essa estrutura reduz a penetração de biocidas, abriga células viáveis não cultiváveis e favorece a interação com protozoários hospedeiros, tornando o controle químico isolado menos eficaz.


3. A Legionella sobrevive apenas em água estagnada? 

Não. Embora pontos de estagnação favoreçam a colonização, a Legionella pode persistir em sistemas com circulação contínua quando há superfícies propícias à formação de biofilme, temperaturas entre 25 °C e 45 °C e presença de nutrientes dissolvidos.


4. Apenas a desinfecção química é suficiente para controlar o biofilme? 

Não. O controle efetivo exige abordagem integrada, incluindo limpeza mecânica de superfícies, manutenção preventiva, controle de temperatura, gestão hidráulica adequada e uso estratégico de biocidas. Diretrizes da World Health Organization e da Centers for Disease Control and Prevention reforçam a necessidade de programas estruturados de gestão da água.


5. Como o biofilme é detectado ou monitorado tecnicamente? 

O monitoramento pode envolver cultura microbiológica em meio seletivo (como BCYE), métodos moleculares como PCR (conforme ISO 12869), testes de ATP-bioluminescência e inspeções físicas de superfícies. Cada método possui limitações, sendo recomendada a combinação de abordagens para maior confiabilidade.


6. O controle adequado de biofilme reduz o risco de surtos de Legionella? 

Sim. Programas consistentes de monitoramento e manutenção preventiva reduzem significativamente a colonização de sistemas hídricos e a liberação de aerossóis contaminados. A gestão proativa do biofilme é um dos pilares fundamentais para minimizar riscos sanitários, regulatórios e reputacionais em instituições e indústrias.



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