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Análise de Enterococcus faecalis: Quando Pesquisar e Como Interpretar os Resultados?

Foto do escritor: Keller Dantara
Keller Dantara
28 de ago.
10 min de leitura

A Microbiologia Clínica e Ambiental desempenha um papel fundamental na salvaguarda da saúde pública e na garantia da conformidade em processos industriais. Entre os diversos organismos monitorados, as bactérias do gênero Enterococcus, e em especial a espécie Enterococcus faecalis, ocupam uma posição de destaque devido ao seu duplo caráter: atuam tanto como comensais do trato gastrointestinal humano e animal quanto como patógenos oportunistas e indicadores biológicos de poluição fecal. A presença, a densidade e o perfil de resistência do Enterococcus faecalis fornecem dados valiosos para infectologistas, gestores de recursos hídricos, engenheiros de alimentos e profissionais de garantia da qualidade na indústria farmacêutica e cosmética.


A identificação precisa desse microrganismo é crucial para a definição de protocolos de vigilância sanitária, a validação de processos de higienização e o diagnóstico assertivo de infecções graves, como endocardites, infecções do trato urinário (ITU) e bacteriemias hospitalares. O grande desafio analítico reside na interpretação contextualizada dos resultados laboratoriais: a detecção do organismo em uma amostra de água potável carrega um significado ecotoxicológico e regulatório distinto do seu isolamento em uma urina de jato médio ou em uma cultura de lavado broncoalveolar.


Este artigo aborda os fundamentos microbiológicos e regulatórios que regem a análise do Enterococcus faecalis, explicitando as circunstâncias específicas em que a pesquisa dessa espécie deve ser priorizada, os métodos analíticos consolidados e emergentes, e as diretrizes para a correta interpretação dos laudos e ensaios laboratoriais.



Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


Evolução Taxonômica e Biologia do Organismo

Historicamente, os enterococos eram classificados dentro do gênero Streptococcus, pertencendo ao Grupo D de Lancefield. Essa taxonomia baseava-se nas propriedades sorológicas dos carboidratos da parede celular e na capacidade dessas bactérias de demonstrar atividade hemolítica parcial ou total em ágar sangue. Contudo, na década de 1980, com o avanço das técnicas de hibridização DNA-DNA e do sequenciamento do gene rRNA 16S, pesquisas lideradas por Schleifer e Kilpper-Bälz (1984) demonstraram diferenças genômicas e filogenéticas substanciais que justificavam a separação dos enterococos em um gênero autônomo, denominado Enterococcus.


do ponto de vista morfológico e metabólico, o Enterococcus faecalis é uma bactéria Gram-positiva, anaeróbia facultativa, com formato cocoide, ocorrendo isoladamente, aos pares ou em cadeias curtas. Trata-se de um microrganismo extremófilo do ponto de vista fisiológico: é capaz de crescer em amplitudes térmicas de 10 °C a 45 °C, suportar concentrações salinas de até 6,5% de NaCl e resistir a variações extremas de pH (entre 4,6 e 9,9), além de sobreviver à exposição temporária a temperaturas de pasteurização (60 °C por 30 minutos).

Propriedade Fisiológica / Bioquímica

Característica do Enterococcus faecalis

Coloração de Gram

Cocos Gram-positivos

Arranjo celular

Pares ou cadeias curtas

Atividade de Catalase

Negativa (frequentemente pseudocatalase fraca)

Tolerância Térmica

Crescimento de 10 °C a 45 °C; suporta 60 °C por 30 min

Tolerância Halofílica

Crescimento em caldo com 6,5% de NaCl

Hidrólise da Esculina

Positiva na presença de 40% de sais biliares (Bile Esculina)

Atividade Enzimática Diagnóstica

L-pirrolidonil-β-naftilamida (PYR positivos)

Sua resiliência ambiental deriva de variações metabólicas que permitem a utilização de uma ampla variedade de fontes de carbono e da expressão de proteínas de estresse e adesinas de superfície. Essas características favorecem a persistência e a formação de biofilmes duradouros em superfícies inanimadas, tais como dispositivos médicos, tubulações de distribuição de água e equipamentos de processamento industrial.


Patogênese e Resistência Antimicrobiana

O Enterococcus faecalis habita o lumen intestinal humano como integrante da microbiota normal. No entanto, em hospedeiros imunocomprometidos, com quebra de barreira mucosa ou submetidos a procedimentos invasivos, o microrganismo manifesta seu potencial patogênico. A virulência do E. faecalis é multifatorial, mediada por fatores como:


  • Enterococcal Surface Protein (Esp): Proteína de superfície envolvida na adesão e na formação de biofilmes.

  • Aggregation Substance (AS): Adesina que facilita o contato célula a célula e a transferência conjugativa de plasmídeos.

  • Gelatinase (GelE) e Serina Protease (SprE): Enzimas extracelulares que degradam tecidos do hospedeiro e inativam mediadores do sistema imune.

  • Citolisina: Toxina bacteriana com ação hemolítica e bactericida contra microrganismos concorrentes.


O grande desafio clínico associado ao E. faecalis reside na sua resistência intrínseca e adquirida a múltiplos agentes antimicrobianos. A espécie apresenta resistência intrínseca de baixo nível a cefalosporinas, sulfanamidas e aminoglycosídeos (devido ao bloqueio na penetração do fármaco). O principal marco na virulência da espécie foi o surgimento de cepas resistentes à vancomicina (VRE - Vancomycin-Resistant Enterococcus), codificadas principalmente pelos operons vanA e vanB, que alteram a estrutura do dipeptídeo D-Alanil-D-Alanina do peptidoglicano para D-Alanil-D-Lactato, reduzindo a afinidade de ligação do glicopeptídeo.


Marcos Regulatórios e Normalização

Devido à sua persistência e relação com contaminação fecal, a pesquisa e a quantificação de E. faecalis e enterococos intestinais são estritamente regulamentadas por órgãos internacionais e nacionais.

No âmbito internacional, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a U.S. Environmental Protection Agency (US EPA) definem os enterococos como indicadores primários de qualidade microbiológica da água para recreação e consumo, uma vez que apresentam maior sobrevivência em águas salinas e doces que os coliformes totais e Escherichia coli.


No Brasil, o Ministério da Saúde estabelece diretrizes rígidas sobre o controle da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade. De forma complementar, a Resolução CONAMA nº 357/2005 e suas atualizações utilizam os enterococos como critério analítico para a balneabilidade e enquadramento dos corpos d'água, priorizando-os em ambientes marinhos devido à sua superior tolerância à salinidade.


Nas indústrias farmacêutica e de cosméticos, as farmacopeias (como a Farmacopeia Brasileira, USP e Ph. Eur.) enquadram a pesquisa de Enterococcus dentro dos testes de contagem microbiana (MLT - Microbial Limit Testing) e avaliação de conservantes, garantindo que matérias-primas e produtos acabados estejam isentos de contaminação por organismos indicadores de falhas no processo produtivo.


Importância Científica e Aplicações Práticas


Monitoramento Ambiental e Qualidade das Águas

O Enterococcus faecalis é amplamente reconhecido como um indicador seletivo e altamente confiável de contaminação fecal em matrizes ambientais. Enquanto as bactérias do grupo dos coliformes podem eventualmente se multiplicar em ambientes tropicais ou ricos em matéria orgânica sem necessariamente indicar contaminação fecal recente, os enterococos exibem maior especificidade para o trato gastrointestinal de animais de sangue quente.


Em ecossistemas marinhos e estuarinos, a pesquisa de E. faecalis é tecnicamente superior à de E. coli. O estresse salino e a exposição à radiação ultravioleta inativam as enterobactérias Gram-negativas com relativa rapidez, enquanto a espessa parede celular de peptidoglicano do E. faecalis confere maior resistência osmótica e fotossensível. Dessa forma, a detecção de enterococos em águas costeiras sinaliza uma contaminação fecal persistente ou recente, correlacionando-se com o risco de surtos de gastroenterites, dermatites e infecções respiratórias em banhistas.


Setor Alimentício e Indústria de Laticínios

Na indústria de alimentos, o papel do Enterococcus faecalis é ambivalente e requer interpretação contextualizada:


Indicador de Higiene e Sanidade: A presença de cepas não intencionais de E. faecalis em carnes processadas, vegetais minimamente processados e pratos prontos indica falhas nas Boas Práticas de Fabricação (BPF), contaminação cruzada pós-processamento ou sanificação inadequada de utensílios e superfícies.


Agente de Fermentação e Maturação: Em contrapartida, certas cepas autóctones de E. faecalis desempenham papel funcional relevante na produção de queijos artesanais tradicionais (como os queijos do Mediterrâneo e queijos artesanais brasileiros). Nesses contextos, as atividades lipolítica e proteolítica do microrganismo contribuem para o desenvolvimento de compostos voláteis aromáticos e textura do produto. Contudo, o uso industrial deliberado exige rigorosa caracterização genética para comprovar a ausência de genes de virulência (esp, gelE, asa1) e determinantes de resistência a antibióticos de importância clínica.


Microbiologia Clínica e Contexto Hospitalar

Em ambientes de saúde, o E. faecalis figura entre os principais causadores de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS). A capacidade desse microrganismo de colonizar mucosas e aderir firmemente a biomateriais resulta em desafios terapêuticos sérios:


  • Endocardite Infecciosa: O E. faecalis é responsável por 5% a 15% dos casos de endocardite bacteriana em valvas nativas e protéticas, caracterizando-se por um curso clínico subagudo, porém destrutivo.

  • Infecções do Trato Urinário e Associadas a Cateteres (ITU-AC): Representa um dos agentes mais isolados em pacientes hospitalizados submetidos à cateterização vesical prolongada, apresentando tolerância a múltiplos antissépticos e antimicrobianos.

  • Bacteriemias e Sepsia: Ocorrem secundariamente a infecções intra-abdominais, pélvicas ou de feridas cirúrgicas, exigindo identificação rápida para ajuste da terapia empírica.


A vigilância ativa de E. faecalis em unidades de terapia intensiva (UTIs) é crucial para conter a disseminação de cepas multirresistentes (MDR) e evitar a transferência horizontal de plasmídeos contendo o gene vanA para outros patógenos de alta gravidade, como o Staphylococcus aureus (gerando o Staphylococcus aureus resistente à vancomicina - VRSA).


Metodologias de Análise


O diagnóstico e a quantificação de Enterococcus faecalis exigem uma combinação de métodos microbiológicos tradicionais e avançadas ferramentas moleculares ou físico-químicas, a depender da matriz analisada e da precisão requerida.


Métodos Clássicos e Microbiologia de Cultivo

A microbiologia de cultivo permanece como o padrão primário para diagnóstico e monitoramento quantitativo, respaldada por compêndios como o Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater (SMWW), diretrizes da ISO e da AOAC International.


Filtração por Membrana: Técnica recomendada para amostras líquidas com baixa turbidez (ex: água potável e água purificada para uso farmacêutico). A água é filtrada através de uma membrana de ésteres de celulose com poro de 0,45 µm, que retém as células bacterianas. A membrana é então transferida para meios seletivos, como o Ágar m-Enterococcus ou Ágar Slanetz and Bartley, incubada a 35-37 °C por 24-48 horas. A confirmação é realizada pela transferência da membrana para Ágar Bile Esculina Azida suplementado, onde as colônias capazes de hidrolisar a esculina reagem com os íons de ferro formando um precipitado marrom-escuro ou preto.


Técnica do Número Mais Provável (NMP): Empregada em matrizes mais complexas e com alta carga de sólidos em suspensão, como efluentes industriais, lodos e alimentos. Utiliza-se uma série de tubos contendo Caldo Azida Dextrose ou caldos cromogênicos/fluorogênicos específicos em diluições seriadas.


Meios Cromogênicos e Fluorogênicos: Ferramentas modernas baseadas na detecção da atividade enzimática da β-D-glucosidase, utilizando substratos como o 4-metilumbeliferil-β-D-glucosídeo (MUG). Sob luz ultravioleta (365 nm), os tubos ou poços positivos emitem fluorescência azul, permitindo a quantificação rápida em 18 a 24 horas (como o sistema Colilert/Enterolert).


Métodos Avançados de Identificação e Espectrometria de Massa

Para laboratórios clínicos e de pesquisa avançada, a caracterização de isolados requer métodos rápidos e de alta precisão:


MALDI-TOF MS (Matrix-Assisted Laser Desorption/Ionization Time-of-Flight Mass Spectrometry): A espectrometria de massa por tempo de voo revolucionou a identificação microbiológica. Uma pequena alíquota da colônia intacta é coberta com uma matriz cristalina e submetida a pulsos de laser. As proteínas ribossômicas ionizadas são aceleradas em um campo elétrico, gerando um espectro de massa único ("impressão digital peptídica"). O software compara o perfil obtido com um banco de dados de referência, permitindo a diferenciação precisa do Enterococcus faecalis de espécies taxonomicamente próximas, como Enterococcus faecium, Enterococcus gallinarum e Enterococcus casseliflavus, em poucos minutos.


Diagnóstico Molecular (PCR e Sequenciamento)

A Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) quantitativa em Tempo Real (qPCR) é empregada quando se busca rapidez, alta sensibilidade e a identificação de determinantes genéticos específicos sem a necessidade de cultivo prévio.


  • Amplificação de Genes Alvo Espécie-Específicos: A identificação inequívoca de E. faecalis via PCR direciona-se a genes essenciais como o ddl (que codifica a D-alanina-D-alanina ligase específica de espécie) ou o gene efaA (que codifica o antígeno de superfície de E. faecalis).

  • Detecção de Virulência e Resistência: Kits multiplex de qPCR permitem rastrear simultaneamente a presença dos genes de resistência à vancomicina (vanA, vanB) e fatores de virulência (esp, gelE), fornecendo suporte crítico para intervenções clínicas e epidemiológicas.

  • Sequenciamento de Nova Geração (NGS): O sequenciamento do genoma completo (WGS - Whole Genome Sequencing) e o sequenciamento metagenômico são utilizados na epidemiologia molecular de surtos para mapear a clonabilidade de cepas hospitalares via Multilocus Sequence Typing (MLST), identificando a disseminação de complexos meganucleares infecciosos.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


A análise do Enterococcus faecalis consolida-se como um pilar multifacetado na interface entre a microbiologia sanitária, a segurança alimentar e a infectologia hospitalar. O papel desse microrganismo transcende a mera classificação como contaminante fecal, posicionando-se como um modelo crucial para o estudo da ecologia microbiana, da dinâmica de formação de biofilmes e dos mecanismos de transferência horizontal de genes de resistência.


A correta interpretação dos resultados analíticos requer rigor técnico e contextualização da matriz avaliada. A simples detecção de E. faecalis em uma amostra não deve ser tratada sob uma ótica puramente punitiva ou diagnóstica isolada. No ambiente clínico, a diferenciação genômica entre colonização e infecção efetiva é fundamental para evitar o uso inconsistente de antimicrobianos de amplo espectro. No ambiente industrial e de vigilância sanitária, os dados microbiológicos devem alimentar ciclos contínuos de melhoria, orientando ações corretivas em processos de filtragem, sanificação e tratamento de efluentes.


As perspectivas futuras apontam para a integração cada vez maior de metodologias preditivas baseadas em microbiologia molecular rápida e inteligência de dados. A expansão da qPCR em tempo real para monitoramento direto em praias e redes de abastecimento reduz os tempos de resposta de dias para poucas horas, permitindo decisões de interdição ou liberação sanitária em tempo quase real. Paralelamente, o aprofundamento do estudo do resistoma do E. faecalis via sequenciamento metagenômico fortalecerá o conceito de Saúde Única (One Health), integrando os dados da interface humana, animal e ambiental para conter o avanço global da resistência antimicrobiana.


Instituições públicas, laboratórios de referência e a indústria devem continuar investindo na capacitação analítica, na padronização de protocolos alinhados às normas internacionais e no desenvolvimento de tecnologias que aliem sensibilidade, rapidez e baixo custo na identificação desse microrganismo emblemático.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


  1. O que é o Enterococcus faecalis e por que ele é pesquisado?

    É uma bactéria Gram-positiva que habita o trato gastrointestinal humano e animal. Sua pesquisa é fundamental porque ele atua como indicador de contaminação fecal em matrizes ambientais e de alimentos, além de ser um importante patógeno hospitalar causador de infecções graves.


  2. A presença de Enterococcus faecalis em uma amostra sempre indica contaminação fecal recente?

    Sim, principalmente em matrizes hídricas. O E. faecalis possui alta especificidade para o trato intestinal de animais de sangue quente e é mais resistente ao estresse ambiental e salino do que as enterobactérias Gram-negativas, servindo como indicador muito confiável de poluição fecal persistente ou recente.


  3. Por que o Enterococcus faecalis é uma preocupação em ambientes hospitalares?

    Devido à sua capacidade de formar biofilmes em dispositivos médicos e à sua elevada resistência intrínseca e adquirida a múltiplos antibióticos, como as cepas VRE (resistentes à vancomicina), o que dificulta o tratamento de infecções como endocardite e infecções do trato urinário.


  4. Quais são os principais métodos laboratoriais utilizados para identificar o E. faecalis?

    As análises combinam técnicas clássicas de cultivo (como filtração por membrana e Número Mais Provável) com métodos avançados, incluindo espectrometria de massa (MALDI-TOF MS) e ensaios moleculares de PCR em Tempo Real (qPCR) e sequenciamento genômico.


  5. A presença do Enterococcus faecalis em alimentos é sempre um sinal negativo?

    Não necessariamente. Em carnes processadas e vegetais indica falhas de higiene ou contaminação cruzada, mas em certos queijos artesanais tradicionais a bactéria desempenha um papel funcional importante no desenvolvimento de aroma e textura durante a maturação.


  6. Como os testes analíticos de E. faecalis auxiliam na tomada de decisão institucional e regulatória?

    Eles fornecem dados objetivos para validar processos de sanificação, monitorar a qualidade de águas recreacionais e potáveis segundo normas vigentes (como as do Ministério da Saúde e CONAMA) e orientar intervenções precoces de controle de infecção hospitalar.



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