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Como o Clorato se Forma Durante a Desinfecção da Água

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 22 de jul.
  • 9 min de leitura

Introdução


A segurança da água potável constitui um dos pilares mais críticos da saúde pública moderna e do desenvolvimento socioeconômico. A transição histórica do fornecimento de água bruta para redes de distribuição tratadas representou um dos maiores saltos na expectativa de vida humana, mitigando drasticamente a incidência de enfermidades de veiculação hídrica. No centro dessa conquista está a desinfecção — processo indispensável para a inativação de patógenos entéricos, bactérias, vírus e protozoários. Contudo, a engenharia sanitária e a química ambiental enfrentam um desafio perpétuo: a otimização da desinfecção sem a geração concomitante de subprodutos indesejados. Entre esses compostos, o íon clorato ($\text{ClO}_3^-$) tem ascendido ao centro das discussões científicas e regulatórias devido à sua toxicidade potencial e à complexidade inerente aos seus mecanismos de formação nas redes de abastecimento.


O clorato não é, via de regra, um contaminante primário de origem natural em mananciais superficiais ou subterrâneos, embora possam existir contribuições pontuais decorrentes do escoamento agrícola ou de efluentes industriais específicos. Na grande maioria dos casos, ele surge como um subproduto indesejado (DBP — Disinfection By-Product) gerado durante o próprio tratamento da água. A sua gênese está intrinsecamente ligada ao emprego de oxidantes à base de cloro, com destaque para o hipoclorito de sódio ($\text{NaClO}$), amplamente utilizado em estações de tratamento de água (ETAs) de pequeno, médio e grande portes, bem como em redes de distribuição secundárias.


Para centros de pesquisa, laboratórios de referência, companhias de saneamento e órgãos reguladores, compreender a dinâmica de formação do clorato é uma prioridade premente. A presença desse oxianião na água tratada levanta preocupações toxicológicas significativas, particularmente no que tange à sua interferência no metabolismo da tireoide, o que motivou agências internacionais de saúde e órgãos governamentais — como o Ministério da Saúde no Brasil, por meio de atualizações normativas recentes — a estabelecerem limites máximos toleráveis rigorosos.


Este artigo aborda os fundamentos físico-químicos e cinéticos que regem a formação do clorato durante a desinfecção da água. Serão explorados o contexto histórico da evolução dos desinfetantes, as rotas reacionais detalhadas que convertem o cloro livre em clorato, os impactos na saúde pública e nos processos industriais, as metodologias analíticas de ponta exigidas para a sua detecção em níveis de traço, e, por fim, as estratégias de mitigação e perspectivas futuras para a gestão da qualidade hídrica.



Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


A desinfecção da água com compostos clorados remonta ao final do século XIX e início do século XX, período em que surtos de cólera e febre tifoide dizimavam populações urbanas. A introdução sistemática do cloreto de cal e, posteriormente, do gás cloro ($\text{Cl}_2$) e do hipoclorito de sódio, revolucionou a engenharia sanitária. Durante décadas, o foco principal recaiu sobre a eficácia microbiológica: garantir a ausência de coliformes fecais e patógenos era a única métrica considerada essencial.


Foi somente na década de 1970, com a descoberta dos trihalometanos (THMs) por Rook, que a comunidade científica despertou para o fato de que a desinfecção não era um processo quimicamente neutro. Abriu-se, assim, um novo campo de estudo voltado aos subprodutos da desinfecção. Enquanto os compostos orgânicos halogenados (como THMs e ácidos haloacéticos) ganharam os holofotes iniciais por seu potencial carcinogênico, os subprodutos inorgânicos — especificamente o clorito ($\text{ClO}_2^-$) e o clorato ($\text{ClO}_3^-$) — passaram a receber atenção minuciosa nas últimas três décadas, impulsionados pelo avanço da cromatografia iônica e pela transição de muitas plantas de tratamento para o uso de dióxido de cloro ($\text{ClO}_2$) ou de hipoclorito de sódio comercial.


Fundamentos da Química do Cloro na Água


Para compreender a formação do clorato, é fundamental analisar o comportamento do cloro em meio aquoso. Quando o gás cloro ou o hipoclorito é dissolvido em água, ocorrem reações rápidas de hidrólise e dissociação.


A fração combinada de $\text{HOCl}$ e $\text{OCl}^-$ constitui o chamado cloro livre residual. No entanto, soluções comerciais de hipoclorito de sódio não são estáticas. O processo de fabricação do hipoclorito — tipicamente realizado pela eletrólise de soluções de cloreto de sódio sem separação rigorosa entre ânodos e cátodos, ou pela dissolução de cloro gasoso em soda cáustica — gera inevitavelmente subprodutos iniciais e favorece reações de degradação ao longo do tempo de prateleira, da temperatura e da exposição à luz.


Rotas Reacionais de Formação do Clorato


O clorato na água tratada pode originar-se de duas fontes principais: o clorato intrínseco, presente na solução de hipoclorito de sódio comercial adicionada à água, e o clorato formado in situ, resultante de reações químicas na própria matriz aquosa ou durante o armazenamento do produto químico.

A degradação do hipoclorito de sódio em solução aquosa concentrada é termodinamicamente favorável e cineticamente complexa, envolvendo a dismutação do íon hipoclorito.


Esta rota de desproporcionamento é fortemente acelerada por três fatores críticos:


  1. Temperatura: O armazenamento de soluções de hipoclorito em regiões de clima quente ou em tanques expostos à radiação solar acelera exponencialmente a taxa cinética de formação de clorato.

  2. Concentração: Soluções iniciais com maior percentual de cloro ativo degradam-se mais rapidamente do que soluções diluídas.

  3. Presença de Metais Catalíticos: Traços de metais de transição, especialmente o níquel ($\text{Ni}$), o cobre ($\text{Cu}$), o cobalto ($\text{Co}$) e o ferro ($\text{Fe}$), atuam como catalisadores altamente eficientes na decomposição do hipoclorito, direcionando a rota reacional para a formação de oxianiões superiores como o clorato e o oxigênio dissolvido.


Além da degradação prévia no produto comercial, o clorato também pode ser formado in situ quando o dióxido de cloro ($\text{ClO}_2$) é utilizado como desinfetante primário ou oxidante. O $\text{ClO}_2$ é instável e decompõe-se na água, gerando estequiometricamente clorito e clorato, dependendo da fotólise e da demanda de oxidantes da água bruta.



Importância Científica e Aplicações Práticas


A relevância do estudo do clorato transcende o escopo restrito do saneamento básico, ecoando em indústrias farmacêuticas, alimentícias, de bebidas e de cosméticos, onde a água purificada ou ultrapura é um ingrediente essencial ou um meio de lavagem de superfícies e equipamentos.


Impactos Toxicológicos e Regulatórios


Do ponto de vista toxicológico, o clorato atua primariamente sobre o sistema endócrino, especificamente na glândula tireoide. Estudos toxicológicos in vivo demonstram que o íon clorato inibe a captação de iodeto pela tireoide, competindo pelo mesmo mecanismo de transporte celular (o simporte sódio-iodeto). Em exposições crônicas em altas doses, isso pode levar a alterações nos níveis de hormônios tireoidianos ($\text{T}_3$ e $\text{T}_4$) e à hipertrofia tireoidiana.


Essa evidência levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) e agências reguladoras nacionais a estabelecerem diretrizes rígidas. No cenário internacional, a OMS recomenda um valor de referência provisório para o clorato na água potável de $0,7\text{ mg/L}$ para exposição de longo prazo e $3\text{ mg/L}$ para exposições de curto prazo (surtos ou emergências). No Brasil, a Portaria GM/MS nº 888/2021 estabelece o padrão de potabilidade da água, fixando o limite máximo permitido para o clorato em $0,7\text{ mg/L}$, alinhando-se aos parâmetros internacionais mais exigentes.


Implicações Industriais e Estudos de Caso


Nas indústrias de alimentos e bebidas, o controle do clorato tornou-se um tema de intensa conformidade regulatória. Soluções cloradas são amplamente empregadas na sanitização de vegetais frescos, superfícies de contato e equipamentos de processo. Contudo, se o hipoclorito utilizado apresentar alto teor de clorato residual (comum em produtos armazenados incorretamente por longos períodos), o resíduo químico pode migrar para o produto final, resultando na rejeição de lotes de exportação para mercados com regulamentações estritas, como a União Europeia.


Nota Técnica: Pesquisas conduzidas em plantas de tratamento de grande porte demonstram que até 70% do clorato detectado na água tratada na ponta da rede de distribuição pode ser atribuído diretamente à qualidade do hipoclorito de sódio utilizado na estação, e não à oxidação in situ. Esse dado realça a importância crítica da gestão logística e do controle de qualidade de insumos químicos adquiridos pelas concessionárias de saneamento.


Abaixo, a tabela comparativa resume as principais fontes, mecanismos e parâmetros intervenientes na presença de clorato nos sistemas hídricos:

Parâmetro / Fator

Hipoclorito de Sódio Comercial

Dióxido de Cloro (ClO2​)

Água Tratada na Rede

Origem Principal

Degradação térmica e catalítica durante estocagem

Decomposição química e fotólise in situ

Contribuição combinada do produto químico e reações secundárias

Fatores Aceleradores

Temperatura elevada, metais pesados, alta concentração

pH alcalino, radiação ultravioleta, tempo de contato

Tempo de residência na rede, dosagem excessiva

Impacto Regulatório

Controle de pureza do produto (normas AWWA/ABNT)

Monitoramento estrito de precursores e subprodutos

Atendimento ao limite de $0,7\text{ mg/L}$ (Portaria GM/MS nº 888)


Metodologias de Análise


A quantificação precisa do íon clorato em matrizes aquosas apresenta desafios analíticos consideráveis. Como o clorato é um ânion inorgânico altamente solúvel, polar e não volátil, métodos tradicionais baseados em extração por solventes ou titulação são ineficazes. Além disso, a presença de concentrações elevadas de cloreto ($\text{Cl}^-$) e sulfato ($\text{SO}_4^{2-}$), tipicamente encontradas em águas naturais e tratadas, pode causar forte interferência instrumental.


Técnicas Cromatográficas de Referência


O padrão-ouro internacional para a determinação de clorato, clorito e bromato em águas é a Cromatografia Iônica (IC) acoplada a detector de condutividade, com supressão química de fundo, conforme preconizado por normatizações consagradas como a ISO 10304-4 e os métodos oficiais da US EPA (Environmental Protection Agency), especificamente o Método 300.1 e o Método 317.0.


O princípio analítico baseia-se na separação dos oxianiões através de uma coluna analítica de troca aniónica de alta capacidade, utilizando um eluente à base de carbonato/bicarbonato de sódio. A supressão química reduz a condutividade do eluente e converte os analitos em suas formas ácidas correspondentes, amplificando o sinal de condutividade e permitindo limites de detecção na faixa de microgramas por litro ($\mu\text{g/L}$), amplamente abaixo do limite regulatório estabelecido.


Nos casos em que matrizes complexas apresentam interferências severas ou exigem limites de detecção ultrabaixos, a espectrometria de massas com fonte de plasma acoplado indutivamente (ICP-MS) ou a cromatografia iônica acoplada à espectrometria de massas em tanden (IC-MS/MS) emergem como alternativas de altíssima sensibilidade e especificidade, embora com custos operacionais mais elevados.


Normas Técnicas e Protocolos Analíticos


  • ISO 10304-4: Determinação de iões dissolvidos por cromatografia líquida de iões — Parte 4: Determinação de clorato, cloreto e clorito em água com baixa contaminação.

  • Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater (SMWW - 4110 B): Protocolo amplamente adotado por laboratórios de controle de qualidade para a determinação de ânions por cromatografia iônica.

  • Normas ABNT / NBR: Diretrizes brasileiras aplicadas ao controle de produtos químicos utilizados no tratamento de água, especificando os teores máximos de impurezas permitidos no hipoclorito de sódio comercial.


Limitações e Avanços Tecnológicos


A principal limitação analítica na rotina laboratorial reside no fenômeno da co-eluição entre o pico do clorato e grandes picos de cloreto ou frente de solvente quando a razão molar cloreto/clorato é extremamente desfavorável (comum em águas salobras ou com cloração intensa). O avanço das resinas de troca iônica com seletividade aprimorada e o uso de sistemas de pré-concentração on-line têm superado essas barreiras, permitindo análises automatizadas e em tempo real em grandes complexos industriais e estações de tratamento.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


A formação do clorato durante a desinfecção da água ilustra a complexidade inerente à engenharia de processos químicos aplicada ao saneamento. O que começa como uma necessidade imperativa de proteção contra patógenos microbiológicos desdobra-se em um intrincado desafio de controle de subprodutos inorgânicos. A presença de clorato não representa apenas um indicador de instabilidade físico-química dos insumos clorados, mas também um ponto de atenção regulatória e toxicológica que exige rigor científico contínuo.


Para as instituições de pesquisa, companhias de saneamento e indústrias, o caminho para mitigar os riscos associados ao clorato exige uma abordagem multifacetada:


  1. Otimização Logística: Reduzir o tempo de estocagem e controlar rigorosamente a temperatura dos tanques de hipoclorito de sódio, além de exigir laudos de pureza estritos dos fornecedores para minimizar a introdução de clorato intrínseco.

  2. Diversificação de Oxidantes: Avaliar a substituição parcial ou total do hipoclorito por tecnologias complementares de desinfecção, como a radiação ultravioleta (UV) combinada com peróxido de hidrogênio ou ozonização, sempre que técnica e economicamente viável.

  3. Monitoramento Analítico Avançado: Capacitar laboratórios internos com metodologias cromatográficas robustas, assegurando a conformidade estrita com os limites estabelecidos pela Portaria GM/MS nº 888 e por diretrizes internacionais.


Em última análise, a garantia de uma água segura, límpida e quimicamente equilibrada depende da sinergia entre o rigor acadêmico, a inovação tecnológica na gestão de processos e a aplicação intransigente de boas práticas institucionais. Somente por meio desse compromisso integrado será possível conciliar a eficácia da desinfecção microbiológica com a máxima proteção à saúde pública e ambiental.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


  1. O que é o clorato e como ele surge na água tratada? 

    O clorato é um subproduto inorgânico gerado principalmente pela degradação química do hipoclorito de sódio utilizado na desinfecção ou pela decomposição in

    situ do dióxido de cloro.


  2. A presença de clorato na água representa riscos à saúde? 

    Sim, quando em concentrações elevadas e exposição crônica, o clorato pode inibir a captação de iodeto pela tireoide, interferindo nos níveis hormonais regulados por essa glândula.


  3. Quais são os limites máximos permitidos para o clorato no Brasil? 

    A Portaria GM/MS nº 888/2021 estabelece o padrão de potabilidade da água, fixando o limite máximo permitido para o clorato em 0,7 mg/L.


  4. Como o clorato comercial presente nos insumos afeta a água tratada? 

    Até 70% do clorato detectado na rede de distribuição pode ser atribuído à qualidade inicial do hipoclorito de sódio utilizado, influenciado pelo tempo de estocagem e temperatura.


  5. Quais metodologias analíticas são empregadas para detectar clorato? 

    O método padrão-ouro é a cromatografia iônica acoplada a detector de condutividade, com supressão química, seguindo normas como a ISO 10304-4 e protocolos da US EPA.


  6. Como as estações de tratamento podem mitigar a formação de clorato? 

    O controle envolve a otimização da logística de estocagem de reagentes, o monitoramento rigoroso da temperatura dos tanques e a avaliação de tecnologias.



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