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Biofilme e Legionella: por que a limpeza falha e como corrigir

  • Foto do escritor: Keller Dantara
    Keller Dantara
  • 21 de dez. de 2025
  • 10 min de leitura

Introdução


A presença de microrganismos em sistemas de água é uma realidade inevitável em ambientes naturais e industriais. No entanto, quando esses microrganismos se organizam em estruturas complexas e persistentes, como os biofilmes, os desafios de controle microbiológico tornam-se significativamente mais complexos. Entre os patógenos associados a esses sistemas, destaca-se o gênero Legionella, responsável por surtos de legionelose em diferentes contextos, incluindo hospitais, hotéis, edifícios comerciais e sistemas de climatização.


A Legionella pneumophila, espécie mais frequentemente associada a infecções humanas, é o agente etiológico da doença do legionário, uma forma grave de pneumonia que pode apresentar taxas de mortalidade relevantes, especialmente em indivíduos imunocomprometidos ou idosos. Desde a identificação do microrganismo após o surto ocorrido durante a convenção da American Legion, em 1976, na cidade da Filadélfia, a compreensão sobre a ecologia e a persistência da bactéria em ambientes aquáticos evoluiu substancialmente.


Uma das principais razões para a persistência da Legionella em sistemas hidráulicos está relacionada à formação de biofilmes. Esses consórcios microbianos aderem às superfícies internas de tubulações, reservatórios, torres de resfriamento e outros componentes de sistemas de água, criando um ambiente protegido no qual microrganismos podem sobreviver e proliferar mesmo diante de processos regulares de limpeza ou desinfecção. Esse fenômeno explica por que procedimentos convencionais de higienização frequentemente falham em eliminar completamente a bactéria.


O biofilme atua como uma matriz protetora composta por substâncias poliméricas extracelulares (EPS), capazes de dificultar a penetração de agentes biocidas e de promover interações ecológicas complexas entre diferentes microrganismos. Dentro dessa estrutura, Legionella pode coexistir com amebas e outras bactérias, utilizando esses organismos como hospedeiros intracelulares para replicação. Esse comportamento contribui para a resistência da bactéria e para sua capacidade de persistir em ambientes aquáticos por longos períodos.


Diante desse cenário, compreender as razões pelas quais os processos de limpeza falham no controle de biofilmes e de Legionella tornou-se uma prioridade para áreas como engenharia sanitária, microbiologia ambiental, controle de infecções hospitalares e gestão de qualidade da água. Diversos surtos registrados ao longo das últimas décadas demonstram que falhas no manejo desses sistemas podem resultar em consequências significativas para a saúde pública.


Este artigo explora, em profundidade, os mecanismos de formação de biofilmes, a relação entre essas estruturas e a persistência da Legionella, os motivos pelos quais métodos convencionais de limpeza são frequentemente insuficientes e as estratégias científicas e tecnológicas atualmente disponíveis para corrigir essas falhas. Também serão discutidos os fundamentos teóricos que sustentam o controle microbiológico em sistemas de água, as principais normas e diretrizes internacionais relacionadas ao tema e as metodologias analíticas utilizadas para monitoramento e detecção do patógeno.


Ao integrar conhecimentos provenientes da microbiologia, da engenharia ambiental e da saúde pública, busca-se oferecer uma visão abrangente sobre um problema que permanece relevante para instituições, indústrias e gestores de infraestrutura em todo o mundo.



Contexto Histórico e Fundamentos Teóricos


A compreensão científica sobre a Legionella e sua relação com biofilmes em sistemas aquáticos começou a se consolidar a partir da década de 1970. O episódio que marcou o início dessa investigação ocorreu em 1976, quando mais de duzentos participantes de uma convenção da American Legion, realizada na Filadélfia, desenvolveram uma pneumonia atípica. A investigação epidemiológica conduzida pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) levou à identificação de uma bactéria até então desconhecida, posteriormente denominada Legionella pneumophila.


A descoberta representou um marco na microbiologia ambiental e na epidemiologia das doenças transmitidas por aerossóis de água. Estudos posteriores demonstraram que a bactéria estava amplamente distribuída em ambientes aquáticos naturais e artificiais, incluindo rios, lagos, sistemas de abastecimento de água e equipamentos de climatização.


Nas décadas seguintes, pesquisadores passaram a observar que a presença de Legionella em sistemas de água não ocorria de forma isolada. Em vez disso, a bactéria frequentemente era encontrada associada a biofilmes microbianos que se desenvolvem em superfícies internas de tubulações e equipamentos hidráulicos.


O conceito de biofilme foi inicialmente descrito no início do século XX, mas apenas nas últimas décadas passou a ser amplamente reconhecido como um dos principais modos de organização microbiana na natureza. De acordo com Costerton et al. (1999), biofilmes são comunidades estruturadas de microrganismos aderidas a superfícies e envolvidas por uma matriz extracelular composta por polissacarídeos, proteínas, lipídios e DNA extracelular.


Essa matriz confere diversas vantagens aos microrganismos que a compõem. Entre elas, destacam-se:

  • maior resistência a agentes antimicrobianos

  • proteção contra condições ambientais adversas

  • facilitação da troca de material genético

  • cooperação metabólica entre diferentes espécies


Essas características tornam os biofilmes estruturas altamente resilientes e difíceis de eliminar.


No contexto de sistemas de água, a formação de biofilmes é favorecida por diversos fatores, incluindo:

  • presença de nutrientes dissolvidos

  • temperatura adequada

  • baixa velocidade de fluxo

  • rugosidade das superfícies internas das tubulações

  • presença de materiais orgânicos


Essas condições são frequentemente encontradas em redes hidráulicas prediais, torres de resfriamento e sistemas de água quente.


Um aspecto particularmente relevante da ecologia da Legionella é sua interação com protozoários, especialmente amebas de vida livre, como Acanthamoeba e Naegleria. Estudos demonstraram que a bactéria é capaz de infectar e se multiplicar no interior dessas células, utilizando mecanismos semelhantes aos empregados durante a infecção de macrófagos humanos.


Essa interação oferece diversas vantagens adaptativas. Dentro das amebas, a bactéria encontra proteção contra agentes desinfetantes e condições ambientais adversas. Além disso, a replicação intracelular contribui para o aumento da carga bacteriana nos sistemas de água.


A persistência da Legionella em biofilmes também está relacionada à sua capacidade de sobreviver em ambientes com concentrações relativamente baixas de nutrientes. Essa adaptação metabólica permite que a bactéria se mantenha viável em sistemas de água tratada, nos quais a disponibilidade de carbono orgânico dissolvido é limitada.


Do ponto de vista regulatório, diversos países estabeleceram diretrizes para o controle de Legionella em sistemas de água. Entre os documentos mais relevantes destacam-se:

  • ASHRAE Standard 188 – gestão de risco de Legionella em edifícios

  • ISO 11731 – detecção e contagem de Legionella em água

  • Guidelines da Organização Mundial da Saúde (WHO)

  • European Technical Guidelines for the Prevention of Legionellosis


No Brasil, a preocupação com a qualidade microbiológica da água em ambientes hospitalares e sistemas de climatização também tem sido abordada por normas da ANVISA e por recomendações da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).


Esses documentos enfatizam a importância de programas de gestão de risco que incluam monitoramento regular, manutenção adequada de sistemas hidráulicos e implementação de estratégias eficazes de controle de biofilmes.


Importância Científica e Aplicações Práticas


A presença de biofilmes contendo Legionella em sistemas de água representa um desafio significativo para a saúde pública e para a gestão de infraestrutura em ambientes coletivos. Embora a bactéria não seja transmitida por ingestão de água, sua disseminação ocorre por meio da inalação de aerossóis contaminados, gerados em equipamentos como chuveiros, torneiras, torres de resfriamento, spas e sistemas de climatização.


Em hospitais, a situação torna-se particularmente crítica. Pacientes imunocomprometidos apresentam maior susceptibilidade à infecção, e diversos surtos hospitalares de legionelose foram documentados ao longo das últimas décadas.


Estudos publicados no Journal of Hospital Infection indicam que sistemas de água quente hospitalares podem atuar como reservatórios persistentes de Legionella, mesmo após procedimentos de desinfecção térmica ou química.


A persistência da bactéria está diretamente associada à presença de biofilmes. Quando microrganismos se encontram encapsulados nessa matriz, agentes biocidas utilizados na desinfecção da água apresentam dificuldade de penetração. Como resultado, apenas as bactérias livres na coluna de água são eliminadas, enquanto aquelas protegidas no biofilme permanecem viáveis.


Essa dinâmica explica por que muitos programas de limpeza apresentam resultados aparentemente satisfatórios em análises pontuais da água, mas falham em eliminar completamente o patógeno do sistema.

Além disso, o desprendimento periódico de fragmentos de biofilme pode liberar grandes quantidades de bactérias na água, aumentando temporariamente a concentração de Legionella e elevando o risco de exposição.


Em ambientes industriais, torres de resfriamento representam um dos principais pontos críticos para a disseminação da bactéria. Esses equipamentos produzem aerossóis que podem se dispersar por longas distâncias, potencialmente expondo trabalhadores e populações próximas.


Um caso emblemático ocorreu em 2001, na cidade de Murcia, na Espanha, quando um surto de legionelose associado a uma torre de resfriamento afetou mais de 800 pessoas. A análise epidemiológica indicou falhas no controle microbiológico e na manutenção do sistema, incluindo acúmulo de biofilme e inadequada aplicação de biocidas.


Diante desses riscos, diversas estratégias de controle têm sido desenvolvidas. Entre as abordagens mais utilizadas destacam-se:

  • controle de temperatura da água

  • aplicação de biocidas oxidantes e não oxidantes

  • limpeza mecânica de superfícies

  • uso de tecnologias de desinfecção avançada


O controle térmico baseia-se no fato de que Legionella apresenta crescimento ótimo entre 25 °C e 42 °C. Manter sistemas de água quente acima de 60 °C pode reduzir significativamente a proliferação bacteriana.

No entanto, essa estratégia apresenta limitações operacionais e energéticas, além de riscos de queimaduras.


Biocidas químicos, como cloro, dióxido de cloro e monocloramina, são amplamente utilizados em sistemas de tratamento de água. Embora eficazes contra bactérias livres, sua ação contra biofilmes pode ser limitada.

Por essa razão, muitos programas de controle combinam diferentes estratégias de desinfecção e manutenção.

Tecnologias emergentes, como radiação ultravioleta (UV), ozonização e ionização cobre-prata, também têm sido exploradas como alternativas para o controle de Legionella.


Cada uma dessas tecnologias apresenta vantagens e limitações, sendo necessário avaliar cuidadosamente sua aplicabilidade em diferentes contextos operacionais.


Metodologias de Análise


O monitoramento da presença de Legionella em sistemas de água requer metodologias analíticas específicas, capazes de detectar e quantificar a bactéria com precisão. O método clássico de detecção baseia-se no cultivo microbiológico em meios seletivos, conforme descrito na norma ISO 11731. Nesse procedimento, amostras de água são filtradas ou concentradas e posteriormente inoculadas em meios de cultura seletivos que favorecem o crescimento de Legionella.


Após incubação, as colônias suspeitas são submetidas a testes confirmatórios. Embora amplamente utilizado, o método de cultura apresenta algumas limitações. O tempo de incubação pode variar entre 7 e 10 dias, o que dificulta respostas rápidas em situações de risco.


Além disso, a bactéria pode entrar em um estado denominado VBNC (viable but non-culturable), no qual permanece metabolicamente ativa, mas incapaz de crescer em meios de cultura convencionais. Para superar essas limitações, métodos moleculares têm sido cada vez mais utilizados.


A reação em cadeia da polimerase (PCR) permite a detecção rápida de DNA de Legionella em amostras ambientais. Versões quantitativas da técnica, como a qPCR, possibilitam estimar a carga bacteriana com maior precisão.


No entanto, esses métodos detectam tanto bactérias viáveis quanto células mortas, o que pode dificultar a interpretação dos resultados. Outra abordagem promissora envolve o uso de técnicas baseadas em citometria de fluxo, capazes de avaliar a viabilidade celular em tempo real.


Além da análise da água, a investigação de biofilmes pode exigir métodos adicionais, como microscopia confocal e análise de biomassa microbiana.


Essas técnicas permitem compreender a estrutura e a composição dos biofilmes presentes em sistemas hidráulicos. O monitoramento eficaz geralmente envolve uma combinação de métodos microbiológicos, moleculares e físico-químicos, integrados em programas de gestão de risco.


Considerações Finais e Perspectivas Futuras


O controle de Legionella em sistemas de água permanece um desafio significativo para instituições públicas, indústrias e gestores de infraestrutura. A capacidade da bactéria de persistir em biofilmes explica por que procedimentos convencionais de limpeza frequentemente falham em eliminar completamente o patógeno. A compreensão dos mecanismos ecológicos e microbiológicos envolvidos na formação de biofilmes é essencial para o desenvolvimento de estratégias eficazes de controle.


Programas modernos de gestão de risco baseiam-se em abordagens integradas que combinam monitoramento regular, manutenção adequada de sistemas hidráulicos e aplicação de tecnologias de desinfecção apropriadas.


Nos próximos anos, avanços em microbiologia molecular, ciência de materiais e engenharia ambiental poderão contribuir para o desenvolvimento de superfícies antimicrobianas, sensores de monitoramento em tempo real e métodos de desinfecção mais eficazes.


Além disso, a crescente adoção de planos de gestão de água em edifícios, conforme recomendado por normas internacionais como o ASHRAE 188, representa um passo importante na prevenção de surtos de legionelose.


A integração entre pesquisa científica, inovação tecnológica e políticas públicas será fundamental para enfrentar esse desafio de forma sustentável e proteger a saúde das populações expostas a sistemas de água potencialmente contaminados.


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❓ FAQs – Perguntas Frequentes


1. O que é um biofilme e por que ele se forma em sistemas de água? 

Biofilmes são comunidades estruturadas de microrganismos que aderem a superfícies e produzem uma matriz protetora composta por substâncias poliméricas extracelulares. Em sistemas de água, eles se formam quando bactérias encontram condições favoráveis, como nutrientes disponíveis, temperatura adequada e superfícies onde possam se fixar, como tubulações, reservatórios ou torres de resfriamento.


2. Qual é a relação entre biofilmes e a bactéria Legionella? 

A Legionella frequentemente se desenvolve dentro de biofilmes presentes em sistemas de água. Essas estruturas funcionam como um ambiente protegido que favorece a sobrevivência da bactéria, dificultando sua eliminação por processos convencionais de limpeza ou desinfecção.


3. Por que a limpeza convencional muitas vezes falha no controle da Legionella? 

Procedimentos tradicionais de limpeza costumam atingir apenas as bactérias presentes na água livre, sem remover completamente o biofilme aderido às superfícies internas do sistema. Como a Legionella pode permanecer protegida dentro dessa matriz, ela pode sobreviver aos processos de desinfecção e voltar a proliferar posteriormente.


4. Em quais ambientes o risco de contaminação por Legionella é mais relevante? 

O risco é mais significativo em ambientes onde há sistemas complexos de água que geram aerossóis, como hospitais, hotéis, edifícios comerciais, spas, sistemas de água quente e torres de resfriamento industriais. Nesses locais, a inalação de gotículas contaminadas pode favorecer a transmissão da bactéria.


5. Como é realizado o monitoramento da Legionella em sistemas de água? 

O monitoramento geralmente envolve análises microbiológicas específicas, como cultivo em meios seletivos conforme a norma ISO 11731, além de técnicas moleculares, como PCR e qPCR. Esses métodos permitem detectar e quantificar a presença da bactéria em amostras de água ou biofilme.


6. Quais estratégias ajudam a prevenir a proliferação de Legionella? 

A prevenção envolve uma combinação de medidas, incluindo controle de temperatura da água, aplicação adequada de biocidas, manutenção e limpeza mecânica dos sistemas hidráulicos, monitoramento microbiológico regular e implementação de programas de gestão de risco, como os recomendados por normas internacionais de controle de Legionella.



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